O debate sobre o retorno do horário de verão volta à tona em 2025, reacendendo discussões sobre consumo energético, sustentabilidade e estratégias para evitar um possível colapso no fornecimento de energia elétrica durante os horários de maior demanda.
O alerta veio do próprio Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), que considera a medida como uma possível solução emergencial diante do agravamento do déficit de potência no Sistema Interligado Nacional (SIN).
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O que está em jogo: o alerta do ONS

Avaliação do Plano de Operação Energética 2025-2029
Durante a divulgação do Plano de Operação Energética (PEN) para o período de 2025 a 2029, o diretor de Planejamento do ONS, Alexandre Zucarato, destacou que a preocupação com o atendimento da demanda energética no horário de pico se intensificou.
O estudo aponta que o sistema nacional poderá não atender plenamente os critérios de potência em determinados períodos do dia, especialmente à noite. Segundo o diretor, o sistema está sim sobreofertado de energia — mas não de potência.
Isso significa que, mesmo com aumento na capacidade de geração, especialmente por fontes intermitentes como a energia solar, o sistema pode falhar em fornecer eletricidade suficiente nos momentos de pico, geralmente no início da noite.
Volta do horário de verão como solução emergencial
Diante desse cenário, o ONS avalia recomendar ainda em 2025 a volta do horário de verão, que poderia fornecer um alívio de até 2 gigawatts (GW) no sistema durante os horários de pico. A medida, segundo Zucarato, pode se tornar “imprescindível”.
Para surtir efeito já no final deste ano, o governo precisaria tomar a decisão até agosto, pois são necessários pelo menos três meses para organizar a mudança de horários e coordenar os setores afetados.
Por que o horário de verão ajuda?
Entenda o conceito
O horário de verão consiste em adiantar os relógios em uma hora durante os meses mais quentes do ano. Tradicionalmente, essa mudança ocorre entre outubro/novembro e fevereiro/março.
O objetivo é aproveitar ao máximo a luz natural do dia, reduzindo a necessidade de consumo de energia elétrica durante o final da tarde e início da noite.
Impacto no consumo de energia
Historicamente, o horário de verão era justificado pelo impacto positivo na redução da demanda elétrica no período da “ponta”, entre 18h e 21h.
Com o adiantamento dos relógios, as pessoas aproveitam mais a luz solar no fim do dia, o que reduz o uso de iluminação artificial e, indiretamente, de aparelhos como ventiladores e ar-condicionado.
Em momentos de estresse no sistema, como o previsto pelo ONS para os próximos anos, cada megawatt economizado pode ser decisivo para evitar apagões ou a necessidade de medidas mais drásticas, como o uso intensivo de termelétricas ou a importação de energia.
Panorama atual do setor elétrico
Crescimento da energia solar e suas limitações
O Brasil viu um crescimento expressivo da geração solar, tanto na modalidade centralizada quanto na mini e microgeração distribuída (MMGD). Segundo o PEN 2025-2029:
- A MMGD deve saltar de 35 GW para 64 GW;
- A geração solar centralizada passa de 16,5 GW para 24 GW;
- A geração eólica cresce de 32,5 GW para 36 GW.
Contudo, a energia solar não contribui significativamente no período noturno — justamente quando o consumo atinge seus picos. Esse desequilíbrio leva à necessidade de contar com fontes despacháveis, como hidrelétricas ou térmicas, para garantir a potência exigida.
Ausência de leilões de reserva de capacidade
Outro fator de pressão é a ausência de novos leilões de reserva de capacidade, recomendados pelo ONS desde 2021.
Sem essas contratações, não há como reforçar o sistema para atender à demanda de potência em curto prazo. Zucarato afirmou que não há mais tempo para tomar medidas estruturantes para 2025, e que o próximo leilão de reforço deve ocorrer apenas em 2026.
Medidas alternativas em análise
Importação de energia de países vizinhos
Como alternativa de curto prazo, o ONS planeja a importação de até 2,5 GW de energia de países vizinhos. Apesar de não ser a solução ideal, a estratégia pode ajudar a equilibrar o sistema durante os meses mais críticos — especialmente se houver atraso no regime de chuvas.
Programa de resposta da demanda
Outra ação já em curso é o programa de resposta da demanda, no qual grandes consumidores são pagos para reduzir o consumo em horários específicos. Em 2024, a medida gerou apenas 100 MW de economia, mas o objetivo é ampliar esse número em 2025. O resultado das contratações para este ano será conhecido em 16 de julho.
O que falta para a volta do horário de verão acontecer?

Decisão política
Mesmo com a recomendação técnica do ONS, a decisão final sobre o retorno do horário de verão cabe ao governo federal.
A medida foi suspensa em 2019 pelo então presidente Jair Bolsonaro, sob a justificativa de que os hábitos de consumo haviam mudado e os ganhos com a economia de energia haviam diminuído.
Desde então, o debate sobre a sua volta reaparece de forma pontual, sempre que o sistema elétrico é pressionado por seca, aumento de demanda ou outros fatores críticos.
Caso o governo decida pela retomada em 2025, será necessário um decreto presidencial e ampla campanha de orientação da população e das empresas.
Aceitação popular e setorial
Outro ponto de atenção é a aceitação da medida por parte da população e de setores da economia. Em pesquisas anteriores, parte da sociedade demonstrou resistência ao horário de verão, principalmente por alegações de desconforto biológico ou impactos no rendimento laboral.
Por outro lado, setores como turismo e comércio tendem a apoiar a mudança, considerando o aumento na circulação de pessoas durante o horário estendido de luz natural.
Conclusão: entre a necessidade técnica e a decisão política
A possível volta do horário de verão em 2025 não se dá por tradição ou conveniência, mas sim como resposta a um cenário de risco real no fornecimento de energia.
A recomendação do ONS é baseada em diagnósticos técnicos claros sobre o déficit de potência do SIN e nas dificuldades de implantação de medidas estruturantes no curto prazo.
Enquanto o governo federal avalia a proposta, especialistas alertam que a medida, mesmo que temporária, pode representar uma válvula de escape para evitar o agravamento de uma crise energética iminente. O Brasil, que já viveu grandes apagões no passado, não pode negligenciar sinais tão contundentes.
Imagem: Steklo / shutterstock.com

