BC explica a Haddad inflação que deve estourar a meta nesta quinta-feira
Nesta quinta-feira (10/7), o Brasil deve registrar oficialmente o descumprimento da meta de inflação sob o novo regime de metas contínuas, com a divulgação do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Trata-se de um marco inédito desde que o novo modelo passou a vigorar, o que aumenta a pressão sobre o Banco Central (BC) e reacende o debate sobre os rumos da política monetária no país.
A meta para 2025 é de 3%, com intervalo de tolerância de 1,5 ponto percentual para mais ou para menos. Isso significa que a inflação pode oscilar entre 1,5% e 4,5% sem configurar descumprimento. No entanto, com o acumulado de 12 meses atingindo 5,32% até maio, o índice vem ultrapassando o teto por meses consecutivos. Se a tendência for confirmada pelo dado de junho, o BC terá de se explicar novamente por meio de carta ao Ministério da Fazenda.
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O novo regime de metas contínuas
Como funciona e o que muda
O regime anterior analisava a inflação com base no ano-calendário. Já o novo formato, em vigor desde meados de 2023, utiliza o acumulado de 12 meses, sem “zerar” a contagem no início de cada ano. Essa mudança visa acompanhar de forma mais dinâmica o comportamento dos preços e torna mais rigoroso o cumprimento da meta, já que desvios persistentes não podem mais ser diluídos ao longo dos anos.
Segundo o Banco Central, esse modelo melhora a transparência e previsibilidade da política monetária. Contudo, também amplia os riscos de “estouro técnico”, como ocorre agora, quando o limite superior é excedido por seis meses seguidos.
IPCA e o cenário inflacionário de 2025
O índice como medidor oficial da inflação
Criado em 1979, o IPCA é calculado mensalmente pelo IBGE e é o termômetro oficial da inflação no Brasil. Ele acompanha a variação de preços de uma cesta com dezenas de itens consumidos por famílias com rendimento de até 40 salários mínimos, cobrindo cerca de 90% da população urbana.
Entre os grupos pesquisados estão:
- Alimentação e bebidas
- Transporte
- Habitação
- Saúde e cuidados pessoais
- Comunicação
- Educação
- Vestuário
- Artigos de residência
Com o resultado acumulado até maio apontando 5,32%, já são cinco meses de inflação acima da banda superior. A projeção do mercado indica que o índice de junho também deve superar o teto de 4,5%, consolidando a quebra da meta contínua pela primeira vez.
Galípolo confirma novo estouro e descarta rever a meta
Declarações do presidente do Banco Central no Congresso
Durante audiência pública na Câmara dos Deputados, realizada na terça-feira (9/7), o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, confirmou que não pretende rever a meta de inflação e que uma nova carta de justificativa será enviada ao Ministério da Fazenda, caso a tendência se mantenha.
“Falar em mudar a meta é mostrar que o país está confortável com uma moeda que perde mais valor ano a ano. Ninguém vai segurar um ativo que desvaloriza”, afirmou Galípolo.
Segundo ele, mexer na meta agora causaria descredibilização da política monetária brasileira, enfraquecendo a confiança do mercado e da sociedade na estabilidade da moeda. O chefe do BC ainda usou metáforas para explicar que não há solução mágica, mas que o processo de controle da inflação será lento e contínuo.
Carta de justificativa: uma exigência legal
Em caso de descumprimento da meta, o presidente do BC é obrigado a enviar uma carta ao Ministro da Fazenda explicando os motivos do estouro. A comunicação deve trazer uma análise de fatores internos e externos que impactaram os preços, além de apresentar um plano de ação para reconduzir a inflação à meta.
Essa será a segunda carta enviada por Galípolo em apenas seis meses de gestão, já que em janeiro o IPCA de 2024 fechou em 4,83%, também fora da meta daquele ano.
A pressão sobre o Copom e a taxa Selic
Comitê de Política Monetária evita cortes bruscos
O Comitê de Política Monetária (Copom), responsável por definir a taxa básica de juros (Selic), está em uma posição delicada. Cortes mais agressivos podem estimular o consumo e pressionar ainda mais os preços. Por outro lado, juros elevados comprometem o crescimento econômico e o investimento.
Na audiência, Galípolo afirmou que 72,5% dos itens do IPCA estão acima da meta de 3%, o que indica uma inflação disseminada, não concentrada em um ou dois setores específicos.
“Temos que acompanhar a meta, e a meta é 3%. Não podemos fingir que está tudo bem porque não está”, declarou.
Selic deve se manter estável
Com esse quadro, analistas acreditam que o Copom deverá manter a taxa Selic em patamares elevados no curto prazo. Atualmente, a taxa básica está em 10,50% ao ano, mas pode permanecer nesse nível por mais tempo do que o previsto, caso os indicadores de inflação não melhorem.
Haddad minimiza risco de inflação persistente
Ministro da Fazenda mostra otimismo
O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, declarou que, embora o quadro atual seja preocupante, ele acredita que a inflação deve ficar dentro da meta no ano que vem.
“O Banco Central tem de observar a queda da inflação. Há questões externas que impactam a decisão, não são só domésticas. O ano que vem, acredito tranquilamente, que vai estar dentro da banda”, disse.
Haddad reconhece os efeitos das variáveis internacionais, como commodities, câmbio e juros nos EUA, mas mantém a expectativa de reversão do cenário até 2026, apostando no efeito cumulativo da política monetária e das medidas fiscais adotadas pelo governo.
Impactos para o consumidor e para o mercado
Consequências diretas
O descumprimento da meta de inflação afeta diretamente a vida da população. Entre os principais impactos estão:
- Perda do poder de compra: os salários não acompanham os aumentos generalizados de preços;
- Encarecimento do crédito: com juros altos, empréstimos, financiamentos e parcelamentos ficam mais caros;
- Desconfiança do investidor: incertezas sobre a condução da política econômica reduzem o fluxo de capital estrangeiro;
- Volatilidade no mercado: o câmbio pode oscilar, pressionando ainda mais os preços de produtos importados.
O que esperar a partir de agora
Próximos passos do Banco Central
Com a carta de justificativa prestes a ser enviada, o Banco Central deverá detalhar as razões para o descumprimento, que podem incluir:
- Alta dos preços de alimentos;
- Pressão nos combustíveis;
- Câmbio desfavorável;
- Aumento das despesas de serviços;
- Resiliência da demanda interna.
A expectativa é de que a inflação comece a convergir para a meta a partir do segundo semestre de 2025, mas o ritmo dependerá de ações coordenadas entre política monetária e fiscal, além do comportamento da economia internacional.
Imagem: Marcelo Camargo / Agência Brasil