Pesquisa revela que 48,9% dos jovens do Bolsa Família deixaram o Cadastro Único entre 2012 e 2024
Uma pesquisa inédita realizada pelo Instituto Mobilidade e Desenvolvimento Social (Imds) revelou que quase metade dos jovens beneficiários do Bolsa Família em 2012 saiu completamente do Cadastro Único até 2024. O levantamento, divulgado em novembro de 2025 pela Agência Gov e pelo Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS), oferece uma perspectiva de longo prazo sobre o impacto das políticas públicas de transferência de renda no Brasil.
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Acompanhar para compreender: 12 anos de observação
Metodologia do estudo
O estudo “Determinantes da Saída do Cadastro Único” acompanhou 15,5 milhões de jovens que, em dezembro de 2012, tinham entre 7 e 16 anos e estavam registrados como dependentes na folha de pagamento do Bolsa Família. O ano de 2012 foi escolhido como marco por ser um período de estabilidade institucional do programa e pela disponibilidade de microdados consistentes do Cadastro Único.
Durante 12 anos de acompanhamento, os pesquisadores avaliaram a trajetória desses jovens em relação ao Cadastro Único e à permanência ou saída do Bolsa Família, correlacionando dados de perfil socioeconômico, escolaridade, trabalho precoce e condições domiciliares.
Resultados principais
- 48,9% (7,6 milhões) dos jovens saíram completamente do Cadastro Único
- 17,6% (2,7 milhões) saíram do Bolsa Família, mas seguiram vinculados ao Cadastro Único
- 33,5% (5,2 milhões) permaneceram como beneficiários do Bolsa Família
A saída do Cadastro Único como sinal de mobilidade
A principal leitura do estudo é que a saída completa da base de dados do Cadastro Único representa uma trajetória de ascensão socioeconômica. Esses jovens, ao longo de mais de uma década, deixaram de atender aos critérios de renda e vulnerabilidade exigidos para manutenção no sistema.
Fatores que favoreceram a saída
O estudo identificou uma seletividade clara nos fatores que facilitaram a desvinculação dos programas sociais:
Características individuais
- Sexo masculino foi o fator mais robusto relacionado à saída
- Jovens alfabetizados em 2012 tiveram maior chance de se desvincular
- A inserção precoce no mercado de trabalho favoreceu o desligamento
Características familiares
- Famílias com responsáveis que completaram o ensino médio ou superior
- Renda per capita superior a R$ 140,00 em 2012
- Responsável com emprego formal
Condições domiciliares
- Moradias com infraestrutura mínima (rede de esgoto, materiais duráveis)
- Tempo curto de permanência no Bolsa Família até 2012 (até 2 anos)
Essas variáveis refletem o que o estudo define como “capital humano inicial”, uma combinação de escolaridade, emprego e estrutura familiar que aumenta as chances de mobilidade econômica.
Permanência no Bolsa Família: a face da vulnerabilidade persistente
A permanência de 33,5% dos jovens no programa após 12 anos evidencia a persistência da pobreza estrutural no Brasil. O estudo mostra que, mesmo após uma década, uma parcela significativa ainda depende do Bolsa Família para sobreviver, revelando desigualdades profundas e resilientes.
Fatores associados à permanência
Perfil sociodemográfico
- Pretos e pardos apresentaram menor chance de saída do sistema
- Defasagem idade-série elevada: 27,4% estavam atrasados na escola em 2012
Condições habitacionais
- 14,3% das famílias moravam em casas com materiais precários
- Apenas 40,4% possuíam ligação à rede de esgoto
Exposição prolongada ao programa
- Famílias que já estavam no Bolsa Família por mais de 5 anos em 2012
A análise mostra que a vulnerabilidade tem múltiplas dimensões e que a saída da pobreza não depende apenas da transferência de renda, mas também de acesso à educação de qualidade, saneamento básico e oportunidades de trabalho formal.
O que significa estar no Cadastro Único?
O Cadastro Único é a porta de entrada para dezenas de programas sociais no Brasil. Não é necessário estar recebendo o Bolsa Família para estar cadastrado. Estar no CadÚnico indica que a pessoa ainda está dentro da rede de proteção social, mesmo que não receba benefício financeiro no momento.
Assim, o grupo de 17,6% que saiu do Bolsa Família mas permaneceu no Cadastro Único representa um estágio intermediário: são famílias que melhoraram sua renda mas ainda são consideradas vulneráveis, o que pode garantir o acesso a outros programas, como:
- Tarifa Social de Energia
- Benefício de Prestação Continuada (BPC)
- Isenção em concursos públicos
- Pé-de-Meia, entre outros
O que os dados revelam sobre as políticas públicas?
O estudo do Imds é uma importante contribuição para a análise de impacto de políticas públicas de transferência de renda. Ao longo dos 12 anos, ele demonstra que existe mobilidade social dentro do sistema, mas também deixa claro que ela é desigual e fortemente condicionada por raça, gênero e condições estruturais.
Interpretação do governo
Para o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, o estudo reforça a necessidade de:
- Combinar transferência de renda com políticas de acesso à educação e emprego
- Monitorar de forma constante a trajetória dos beneficiários
- Investir em políticas públicas que quebrem o ciclo da pobreza intergeracional
O que o estudo não mede?
Apesar do alcance, a pesquisa tem limitações naturais. Não mede, por exemplo:
- A qualidade dos empregos obtidos
- O grau de estabilidade das novas rendas
- O nível educacional final dos jovens acompanhados
Por isso, os dados devem ser complementados com outras pesquisas qualitativas, especialmente para compreender os obstáculos enfrentados por quem permaneceu na rede.
Implicações para o futuro do Bolsa Família

O Bolsa Família, reformulado em 2023 e ampliado em 2025 com novos adicionais (criança, adolescente, gestante e auxílio gás), continua sendo a maior política social do Brasil. Ao longo do tempo, sua eficácia tem sido demonstrada tanto na redução da pobreza extrema quanto na promoção de autonomia financeira para parte significativa dos beneficiários.
A pesquisa indica que:
- O programa não estimula a dependência crônica, como muitas vezes é sugerido
- Quase metade dos jovens acompanhados ascenderam socialmente e deixaram a rede
- A permanência no programa está associada à ausência de condições básicas para o progresso
Imagem: Freepik/ Edição: Seu Crédito Digital
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