Na contramão do consenso do mercado financeiro e do discurso firme adotado pelo Banco Central brasileiro, o JPMorgan projeta que os cortes na taxa básica de juros, a Selic, terão início ainda em dezembro de 2025. A expectativa é de um corte de 0,25 ponto percentual, reduzindo a Selic dos atuais 15% para 14,75%.
A previsão foi revelada por Cassiana Fernandez, economista-chefe do JPMorgan para o Brasil. A avaliação da economista se baseia em uma combinação de fatores internos e externos, como a desaceleração global, valorização do real, queda nas commodities e indícios de enfraquecimento da atividade econômica brasileira.
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O que sustenta a projeção do JPMorgan?
Ambiente externo mais favorável
Cassiana Fernandez aponta como principal vetor a tendência de enfraquecimento do dólar globalmente, que abre espaço para apreciação do real frente à moeda norte-americana. Isso, por sua vez, impacta positivamente o controle da inflação de bens comercializáveis, especialmente os importados.
Além disso, há expectativas de queda nos preços do petróleo e de outras commodities importantes. Um cenário internacional com pressões inflacionárias mais amenas pode dar mais conforto ao Banco Central brasileiro para iniciar a flexibilização monetária.
Inflação em desaceleração
A última leitura do IPCA-15, divulgada em setembro, reforçou o tom otimista. Houve surpresa positiva na desaceleração dos preços de serviços, um dos componentes mais sensíveis à política monetária. Isso, segundo Fernandez, foi um indicativo de que a política de juros elevados já começa a surtir efeito.
Segundo o JPMorgan, a projeção para o IPCA de 2025 é de 4,7%, enquanto para 2026 espera-se uma inflação ainda mais controlada, na casa dos 3,6% — o que reforça o cenário de afrouxamento monetário.
Selic pode terminar 2026 abaixo de 11%, diz banco
Projeção agressiva para 2026
O JPMorgan também projeta uma trajetória de redução gradual da Selic ao longo de 2026. A estimativa é de que a taxa básica termine o próximo ano em 10,75%, ainda acima do patamar neutro estimado, mas com forte recuo em relação aos atuais 15%.
Caso o primeiro corte seja postergado para janeiro de 2026 — cenário alternativo admitido por Cassiana — o banco ainda acredita que haverá espaço suficiente para que a Selic caia abaixo de 11% ao fim do ciclo de flexibilização.
Impulso fiscal e economia mais fraca ajudam
Outro fator que sustenta a tese do JPMorgan é a aceleração do impulso fiscal. Com maior gasto público e políticas de transferência de renda em curso, é provável que o ritmo da atividade econômica ganhe fôlego temporário, mas à custa de pressões futuras no equilíbrio das contas públicas — o que pode gerar efeito defasado na inflação e justificar ação preventiva da política monetária.
Fernandez também afirma que, embora os indicadores do mercado de trabalho estejam fortes, a desaceleração da economia não é uniforme, e setores mais sensíveis aos juros já mostram perda de fôlego.
O que pensa o Banco Central?
Discurso ainda conservador
Na última Ata do Copom, divulgada no final de setembro, o Comitê de Política Monetária sinalizou que o Brasil entrou em um “novo estágio” da política monetária, que prevê a manutenção dos juros altos por um período bastante prolongado.
O documento foi enfático:
“Após uma firme elevação de juros, o Comitê optou por interromper o ciclo e avaliar os impactos acumulados.”
E completou:
“Agora, na medida em que o cenário tem se delineado conforme esperado, o Comitê inicia um novo estágio em que opta por manter a taxa inalterada e seguir avaliando se, mantido o nível corrente por período bastante prolongado, tal estratégia será suficiente para a convergência da inflação à meta.”
Consenso do mercado ainda aponta Selic a 15%
A mais recente edição do Boletim Focus, publicação semanal do Banco Central baseada nas estimativas das principais instituições financeiras, mostra projeção estável da Selic em 15% até o fim de 2025. Esse patamar é mantido há 15 semanas consecutivas, o que demonstra um alto grau de convicção do mercado quanto à estratégia de juros do BC.
Debate sobre a meta de inflação

Mudança seria ruim para a credibilidade, diz JPMorgan
Apesar da melhora recente nos indicadores de inflação, Cassiana Fernandez alerta que os níveis atuais ainda estão distantes da meta do Banco Central, que é de 3% com tolerância de 1,5 ponto percentual.
A economista do JPMorgan critica os debates sobre possível mudança na meta de inflação, afirmando que isso poderia:
- Desancorar expectativas do mercado;
- Prejudicar a credibilidade da política monetária;
- Dificultar o papel do Banco Central na convergência da inflação para o centro da meta.
“Isso tende a prejudicar a credibilidade da política monetária como um todo. São prejudiciais para o debate e são prejudiciais, principalmente, para o papel que o Banco Central quer exercer.”
O que esperar para os próximos meses?
Novembro pode marcar mudança de tom do BC
O JPMorgan acredita que o Copom pode ajustar sua comunicação já na reunião de novembro, preparando o terreno para um corte simbólico em dezembro. Caso contrário, a mudança viria no primeiro trimestre de 2026.
Esse ajuste de discurso poderia incluir:
- Menções a riscos balanceados no cenário inflacionário;
- Enfase nos sinais de desaceleração da atividade econômica;
- Menor resistência à ideia de inflação dentro da banda de tolerância, ainda que acima do centro da meta.
Repercussões no mercado financeiro

Renda fixa e câmbio sob pressão
Uma eventual antecipação no ciclo de cortes na Selic teria impacto direto sobre:
- Títulos públicos prefixados e atrelados à inflação, que podem se valorizar com queda nos juros futuros;
- Câmbio, com potencial valorização do real caso o corte coincida com um cenário externo mais estável;
- Ações de empresas sensíveis à taxa de juros, como varejistas, construção civil e utilities.
Credibilidade do Copom será testada
O grande desafio do Banco Central será encontrar o ponto de equilíbrio entre combater a inflação e não sufocar a atividade econômica. O JPMorgan aposta que esse ponto já se aproxima — uma avaliação que ainda não encontra respaldo majoritário no mercado.
Imagem: Freepik/ Edição: Seu Crédito Digital




