O preço da carne bovina nos Estados Unidos alcançou novos patamares em julho de 2025, com aumentos consecutivos que refletem um cenário desafiador para pecuaristas e consumidores. Segundo dados do Bureau of Labor Statistics (BLS), a carne moída, amplamente utilizada para hambúrgueres — responsáveis por 80% do consumo no país — registrou alta de 3,9% em apenas um mês e acumula 15,3% de aumento em seis meses. O valor médio chegou a US$ 6,34 por libra, equivalente a R$ 75 o quilo.
Em dois anos, a alta já soma 23%, pressionando o bolso do consumidor americano, que encontra cada vez mais dificuldade para manter cortes básicos de carne na mesa. O cenário é ainda mais preocupante quando se observa o preço da carne para churrasco, que alcançou US$ 11,88 por libra, ou quase R$ 130 o quilo, após subir 9% em seis meses.
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O aumento nos preços tem explicações claras: clima adverso e queda no rebanho bovino. De acordo com o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), o número de gado de corte caiu para 27,9 milhões, uma redução de 13% desde 2019. O inventário total de bovinos está no nível mais baixo desde 1952.
Em 2021, o país registrava 92,6 milhões de cabeças. Agora, são 86,6 milhões, confirmando uma tendência de retração da pecuária. A estimativa do USDA é que a produção em 2025 seja de 25,9 bilhões de libras de carne bovina, uma queda de 4% em relação à previsão inicial do ano.
“A redução no tamanho do rebanho é resultado de custos elevados, dificuldades climáticas no início da década e da decisão dos pecuaristas de abater fêmeas”, explica Fernando Iglesias, analista da Safras & Mercado.
Impactos da seca e pandemia
A seca no oeste dos EUA reduziu a disponibilidade de pastagens, obrigando criadores a recorrer à ração, que também encareceu. Muitos reduziram seus efetivos vendendo animais antes do tempo ideal de abate. Além disso, os efeitos da pandemia de 2020, com fechamento de frigoríficos e interrupções no processamento, agravaram a crise no setor.
Hoje, pecuaristas iniciam um processo de recomposição dos rebanhos, mas a recuperação será lenta. Como lembra Iglesias, “leva de dois a três anos para criar um bezerro até o abate”.
Perspectivas para os próximos anos
USDA prevê preços altos até 2026
O USDA projeta que os preços da carne bovina devem permanecer elevados ao menos até 2026. A combinação entre rebanho reduzido, custos de produção altos e barreiras comerciais mantém a pressão inflacionária sobre a proteína animal.
Esse cenário atinge diretamente a economia americana, já que a carne bovina é um dos principais itens da cesta alimentar no país. A tendência é que os consumidores mudem hábitos de consumo, substituindo cortes nobres por carnes mais baratas ou até por proteínas alternativas.
A influência da política comercial
Imagem: Freepik/Edição: Seu Crédito Digital
Tarifa de Trump afeta importações brasileiras
O panorama foi agravado pela decisão do presidente Donald Trump de impor uma tarifa de 50% sobre a carne brasileira. O Brasil, que exporta principalmente os cortes dianteiros — usados na indústria de hambúrgueres americana — era um fornecedor estratégico por oferecer preços mais competitivos.
De janeiro a junho de 2025, os EUA importaram 478 mil toneladas de carne bovina, das quais 147 mil toneladas vieram do Brasil, o que representa 31% do total. Com as novas tarifas, o custo de importação aumentou.
Segundo dados de maio, os EUA pagaram US$ 6.143 por tonelada de carne brasileira, enquanto concorrentes apresentavam preços mais altos: Argentina (US$ 6.733), Uruguai (US$ 6.951) e Austrália (US$ 7.169).
“Os três países conseguirão atender à demanda americana, mas a preços menos competitivos que o Brasil antes das tarifas”, avalia Iglesias. “Isso resultará em mais pressão inflacionária”.
Restrição ao gado mexicano por praga
Outro fator de risco é a proibição das importações de gado vivo do México, decretada em maio, devido à New World Screwworm (NWS), conhecida como “bicheira do Novo Mundo”. Essa praga pode matar bovinos, afetar aves e, em casos raros, infectar seres humanos.
Para conter a disseminação, o USDA anunciou medidas emergenciais, incluindo a construção de uma fábrica de moscas estéreis no Texas, que ajudará no controle da doença no México.
O que esperar para o consumidor americano
Impacto direto no bolso
O cenário atual projeta uma alta prolongada nos preços da carne, com reflexos na inflação geral dos EUA. Produtos como hambúrgueres, cortes de churrasco e até refeições prontas devem ficar mais caros.
Com a recomposição do rebanho prevista apenas para os próximos anos e tarifas pesando sobre importações, o alívio para o consumidor americano não deve vir antes de 2026.
Oportunidade para exportadores
Embora o Brasil tenha perdido competitividade com as tarifas, países como Argentina, Uruguai e Austrália podem se beneficiar, consolidando espaço no mercado norte-americano. Já para o Brasil, o desafio será diversificar destinos e manter participação mesmo diante de barreiras comerciais.
Juliana Peixoto é jornalista cearense, formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo. Apaixonada por informação e escrita, está sempre em busca de novos aprendizados, experiências e vivências que ampliem sua visão de mundo. Atualmente, colabora com o portal Seu Crédito Digital, contribuindo com conteúdo informativo e acessível para os leitores.