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Como o ‘efeito Trump’ está moldando a economia americana em 2025

As novas políticas econômicas e migratórias adotadas pelo presidente Donald Trump, especialmente o chamado “tarifaço” — um pacote de tarifas de importação de até 50% sobre produtos estrangeiros — já demonstram efeitos concretos na inflação dos Estados Unidos, no orçamento familiar, no setor industrial e no mercado de trabalho.

Segundo dados divulgados na terça-feira (15), o índice de inflação norte-americano atingiu 2,7% em junho, impulsionado principalmente pelo aumento nos preços de móveis, roupas e outros bens importados. O relatório aponta ainda que as tarifas efetivas já chegaram a 20,6%, o maior patamar registrado desde 1910.

Enquanto isso, alguns serviços recuaram de preço, como passagens aéreas e diárias de hotéis, indicando possível retração no turismo e mudanças no comportamento do consumidor.

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Tarifaço trump
Imagem: Freepik

Inflação acelerada pelos efeitos das tarifas

De acordo com o relatório do governo divulgado no início da semana, os bens de consumo importados foram os principais responsáveis pelo aumento da inflação em junho. Os produtos que sofreram as maiores altas de preços foram:

  • Móveis de madeira e metal
  • Vestuário
  • Eletrônicos
  • Peças de automóveis

Especialistas atribuem o avanço desses preços ao impacto direto das novas tarifas de importação, que vêm sendo implementadas desde o início do segundo semestre com o objetivo de fortalecer a produção interna e reduzir a dependência comercial dos EUA com países como China, México e Brasil.

“Essas tarifas criam um efeito dominó. Ao aumentar os custos de importação, o impacto atinge a cadeia produtiva e, consequentemente, o consumidor final”, explica o economista Ryan Chandler, da Universidade de Chicago.

Tarifa efetiva alcança o maior nível em mais de um século

O dado que mais chamou a atenção foi a elevação da taxa efetiva média de tarifas dos EUA para 20,6%, o maior nível desde 1910, segundo o Yale Budget Lab. A média anterior girava em torno de 4%, nos anos anteriores ao retorno de Trump à Casa Branca.

Esse movimento provocou reações de grandes empresas e investidores, que agora precisam recalcular margens de lucro e estratégias de fornecimento. Produtos essenciais na indústria americana, como aço, alumínio e cobre, estão entre os mais afetados.

Cobre atinge patamar histórico

O cobre, matéria-prima fundamental para setores como construção, tecnologia e energia, alcançou seu maior valor histórico após o anúncio da tarifa de 50% para importações a partir de 1º de agosto. O efeito imediato foi a alta dos custos de:

  • Construção de data centers
  • Produção de semicondutores
  • Obra de habitações populares e empreendimentos comerciais

A escalada dos preços do cobre deve pressionar os setores mais dependentes de componentes metálicos, como o automotivo, eletroeletrônicos e infraestrutura.

Impacto direto no bolso dos americanos

Trump EUA
Imagem: Freepik

Segundo projeção publicada pelo Wall Street Journal e elaborada pelo Yale Budget Lab, o impacto financeiro das tarifas e da inflação já representa uma perda de US$ 2.800 anuais por família americana. O número leva em consideração:

  • Alta acumulada de preços em bens importados;
  • Redução de poder de compra;
  • Aumento de despesas com produtos do cotidiano.

Pressão concentrada na classe média

A classe média americana, que consome mais produtos importados e depende de preços estáveis para manter o padrão de vida, é a mais afetada neste momento. Supermercados, redes varejistas e lojas de departamentos relatam quedas nas vendas de produtos que tiveram aumento acima da média inflacionária.

“Essa tarifa não é apenas uma política comercial. É uma política que afeta diretamente o dia a dia da população”, disse Melissa Grant, analista de consumo do Consumer Outlook Research.

Políticas migratórias também afetam a economia

As restrições à imigração legal e aumento do controle sobre trabalhadores estrangeiros promovidas pela gestão Trump têm causado impactos importantes no mercado de trabalho, sobretudo nos setores que tradicionalmente dependem de mão de obra imigrante, como:

  • Agricultura
  • Construção civil
  • Hotelaria
  • Serviços de limpeza e manutenção

A redução da entrada de novos trabalhadores imigrantes limitou a oferta de trabalho em áreas com baixa atratividade para trabalhadores locais, resultando em aumento de salários nessas funções e, por consequência, repasse de custos ao consumidor final.

“As políticas migratórias afetam não apenas a demografia, mas toda a estrutura de produção de serviços e alimentos no país”, apontou Joseph Klein, economista do Brookings Institute.

Turismo dá sinais de enfraquecimento

Se por um lado bens de consumo importados estão mais caros, por outro, alguns serviços mostraram sinais de arrefecimento no último mês. O relatório da inflação apontou queda nos preços das tarifas aéreas e das diárias de hotéis, indicando que o setor de turismo pode estar começando a sentir os efeitos da mudança no consumo interno.

Esse movimento é atribuído a uma combinação de fatores:

  • Inflação elevada, que reduz o orçamento das famílias para viagens;
  • Queda no turismo internacional, devido às novas barreiras de entrada ao país;
  • Dólar valorizado, que desestimula a vinda de turistas estrangeiros.

Bolsa e consumo interno ainda mostram resiliência

Apesar do cenário inflacionário e da elevação de tarifas, alguns indicadores econômicos seguem positivos, o que, por ora, afasta a possibilidade de recessão no curto prazo.

Pontos positivos destacados:

  • Consumo interno ainda elevado, sustentado por programas de incentivo;
  • Bolsas de valores com bom desempenho, impulsionadas por resultados acima do esperado no setor bancário;
  • Lucros de grandes bancos e empresas de tecnologia apresentando crescimento no trimestre.

Esse equilíbrio entre sinais de desaceleração e dados positivos tem sido acompanhado de perto pelo Federal Reserve, que poderá reavaliar sua política de juros nas próximas semanas.

“Se a inflação de serviços continuar desacelerando, o Fed poderá ter margem para cortar juros no segundo semestre”, projeta Megan Ross, analista-chefe do Federal Fiscal Monitor.

Negociações internacionais em andamento

vice presidente e ministro Geraldo Alckmin
Imagem: Valter Campanato/Agência Brasil

O efeito total das tarifas ainda pode demorar a ser sentido, uma vez que parte delas está em fase de negociação, e outras ainda não entraram em vigor completamente. O governo brasileiro, por exemplo, está tentando evitar a efetivação da tarifa de 50% sobre produtos nacionais exportados aos EUA.

Em entrevista coletiva na terça-feira (15), o vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, Geraldo Alckmin, afirmou que o Brasil busca resolver a questão até o dia 31 de julho:

“A ideia do governo não é pedir que o prazo seja estendido, mas é procurar resolver até o dia 31. O governo vai trabalhar para resolver nos próximos dias.”

As conversas incluem contrapartidas comerciais, revisão de acordos bilaterais e pressão diplomática para aliviar os efeitos das tarifas sobre commodities brasileiras, como soja, café e carne.

Imagem: Evan El-Amin/shutterstock.com