USDT e Bitcoin movimentam R$14,7 bilhões em junho com avanço de exchanges nacionais e temor de nova tributação
O mercado de criptomoedas no Brasil viveu um mês de junho movimentado e contraditório. Mesmo com o real ganhando força frente ao dólar e uma nova Medida Provisória prestes a mudar a forma como os ganhos com criptoativos são tributados no país, o volume de negociações de Bitcoin (BTC) e Tether (USDT) em reais saltou para R$14,7 bilhões — crescimento de 21% em relação a maio.
Dessa movimentação, o USDT respondeu sozinho por impressionantes R$9,63 bilhões, enquanto o Bitcoin foi responsável por R$5,18 bilhões, de acordo com dados compilados pela Biscoint.
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O fortalecimento do real e o impacto na entrada de dólares no cripto
Valorização do real frente ao dólar abre caminho para stablecoins
Durante o mês de junho, o dólar comercial recuou de R$5,69 para R$5,57, uma queda de 2,1%, tornando o acesso ao mercado cripto mais barato para investidores brasileiros.
Esse movimento impactou diretamente o desempenho da stablecoin Tether (USDT), cuja liquidez e estabilidade frente ao dólar a transformaram em um ativo cada vez mais preferido por brasileiros como porta de entrada no ecossistema.
Segundo analistas da Bitybank, o movimento de compra de USDT funciona como um hedge cambial imediato e eficaz, além de representar uma maneira de “dolarizar” a poupança de forma desburocratizada, com liquidez 24/7 e custos reduzidos.
USDT lidera com folga: mais de 65% do volume total em reais
Stablecoin absorve apetite por segurança e arbitragem
A participação do USDT nas negociações lastreadas em real representou quase dois terços de todo o volume do mês. O total de R$9,63 bilhões representa uma alta de 32% em relação a maio, consolidando a stablecoin como o ativo mais negociado do país no período.
Motivos por trás do salto no USDT:
- Expectativa de listagens futuras de altcoins em grandes exchanges como a Coinbase, que historicamente geram oportunidades de arbitragem global;
- Adoção crescente de remessas internacionais via cripto, com USDT como veículo principal;
- Movimentos defensivos frente à incerteza regulatória, com investidores buscando exposição ao dólar digital.
Exchanges brasileiras ganham espaço no mercado

Binance ainda domina, mas perde participação
Embora a Binance ainda detenha 81,9% das negociações do par USDT/BRL, sua dominância caiu frente ao crescimento de corretoras brasileiras que vêm se posicionando com ofertas específicas ao público nacional, como integração ao Pix, campanhas de taxa zero e processos de KYC menos rígidos para contas locais.
Destaques entre as plataformas locais:
- BitPreço saltou para 5,4% de participação, puxada por facilidades no depósito via Pix e promoções aos fins de semana;
- Mercado Bitcoin passou a responder por 19,9% das negociações de BTC em reais, refletindo maior adesão de investidores pessoa física.
Bitcoin mantém trono, mas sente impacto de nova MP
Volume sobe, mas preço fica praticamente estável
O Bitcoin movimentou R$5,18 bilhões em junho, representando uma alta de 5,7% frente ao mês anterior. No entanto, o preço do ativo oscilou pouco, caindo levemente de R$593.870 para R$589.370.
Essa estabilidade de preço combinada ao aumento de volume sugere que novos investidores entraram na ponta compradora, provavelmente impulsionados por:
- Campanhas de isenção de taxa promovidas por exchanges nacionais;
- Visão de compra em baixa, após correções pontuais de mercado;
- Expectativa de valorização futura, mesmo diante de incertezas.
MP 1.303/2025: a nova bomba regulatória do setor cripto
Fim da isenção pode afastar pequenos investidores
A Medida Provisória 1.303, apresentada no Congresso, prevê uma alíquota fixa de 17,5% sobre qualquer ganho de capital com criptoativos, eliminando a atual isenção de até R$35 mil em vendas mensais.
Reações e impactos:
- A ABCripto considerou a proposta um risco à competitividade do setor nacional, por incentivar a migração de investidores para exchanges internacionais;
- Especialistas alertam que a medida pode corroer a liquidez doméstica e dificultar o crescimento de corretoras nacionais;
- A insegurança tributária pode frear o apetite dos pequenos investidores e favorecer a informalidade.
Descorrelação ou reconfiguração estratégica?
Investidores migrando para USDT, mas sem sair do Bitcoin
Embora o Bitcoin tenha mantido sua relevância, o salto no volume do USDT indica que os investidores estão alocando capital novo em stablecoins, ao invés de apenas rotacionar entre BTC e USDT. Isso pode sinalizar uma reconfiguração tática, em que o USDT serve como:
- Ponte para arbitragem internacional;
- Reserva em dólar digital com liquidez instantânea;
- Base de transações peer-to-peer e remessas.
A disputa entre exchanges e o episódio do ataque via Pix
Ataque cibernético reacende debate sobre segurança
No início de julho, um ataque via fraude no Pix drenou cerca de R$800 milhões de contas bancárias, embora nenhuma exchange tenha sido diretamente afetada.
No entanto, parte dos valores desviados tentou ser convertida em USDT e Bitcoin, forçando plataformas a aprimorar seus sistemas de rastreamento e compliance.
Ações implementadas após o ataque:
- Adoção de listas de bloqueio de endereços suspeitos;
- Integração com sistemas de monitoramento em blockchain;
- Maior exigência de prova de origem de recursos para saques de grande volume.
O futuro do mercado brasileiro de criptomoedas
Tendências indicadas pelos dados de junho
O relatório da Biscoint revela que o investidor brasileiro está se tornando mais estratégico, utilizando o USDT como hub operacional e preservando sua exposição ao Bitcoin como reserva de valor.
Expectativas para o segundo semestre:
- Aprovação (ou rejeição) da MP 1.303 poderá alterar drasticamente o comportamento do investidor;
- Stablecoins devem ganhar ainda mais espaço, especialmente como instrumento de remessas e reserva;
- Exchanges brasileiras tendem a capturar mais mercado, caso mantenham diferencial competitivo;
- Criptos de segunda linha (altcoins) podem se beneficiar da infraestrutura aprimorada para arbitragem internacional.
Conclusão: O Brasil na encruzilhada entre regulação e inovação
O mês de junho marca um ponto de inflexão para o ecossistema cripto brasileiro. O crescimento de 21% no volume transacionado de USDT e Bitcoin, apesar das incertezas fiscais e cambiais, mostra a resiliência e a adaptabilidade do mercado nacional.
Enquanto o governo busca equilibrar arrecadação e segurança jurídica, os investidores continuam buscando liquidez, proteção cambial e oportunidades de arbitragem. O desafio agora é garantir que a regulamentação não atropele a inovação, e que o Brasil siga competitivo no cenário global das criptomoedas.