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GM, VW, Toyota e Stellantis formam frente contra carros chineses no Brasil

Quatro das maiores montadoras que atuam no Brasil — General Motors, Volkswagen, Toyota e Stellantis — formaram uma frente inédita para pressionar o governo federal contra uma possível flexibilização nas regras de importação de carros em kits semidesmontados (SKD) e completamente desmontados (CKD).

A medida, defendida pela montadora chinesa BYD, pode representar, segundo as fabricantes tradicionais, uma ameaça ao futuro da indústria automotiva nacional.

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O alerta das montadoras ao governo Lula

carros montadoras chinesas
Imagem: Gorodenkoff / Shutterstock.com

Carta aberta denuncia risco de retrocesso industrial

Em uma carta conjunta assinada pelos presidentes das quatro montadoras e publicada nas redes sociais, as empresas alertam diretamente o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Elas afirmam que, caso o governo aprove o incentivo fiscal para a importação de veículos desmontados, o país poderá sofrer um forte retrocesso industrial e econômico.

“Ao contrário do que querem fazer crer, a importação de conjuntos de peças e peças não será uma etapa de transição para um novo modelo de industrialização, mas representará um padrão operacional que tenderá a se consolidar e prevalecer”, diz a carta.

As montadoras alegam que essa prática não gera valor agregado significativo no Brasil, enfraquece a cadeia nacional de autopeças, prejudica a engenharia local e aumenta a dependência tecnológica do país. Além disso, apontam riscos concretos de perda de empregos e redução dos investimentos industriais planejados para os próximos anos.

O pedido da BYD e o impasse fiscal

Redução de impostos até 2028

O estopim da crise foi o pedido oficial da BYD à Câmara de Comércio Exterior (Camex) para manter, até junho de 2028, as alíquotas reduzidas de importação para kits SKD e CKD — 10% e 5%, respectivamente. Atualmente, esses valores são maiores e estão em processo de aumento progressivo, com previsão de chegarem a 35% em 2028 para todos os tipos de montagem.

A BYD argumenta que a medida ajudaria a acelerar a implementação de sua fábrica em Camaçari (BA), onde pretende montar veículos eletrificados com kits importados da China. A empresa também propõe nacionalizar gradualmente diversos componentes até 2028, como bancos, faróis, motores e chassis.

Um plano de transição ou privilégio?

A proposta, segundo a montadora chinesa, permitiria a geração de empregos no curto prazo e facilitaria a criação de uma cadeia produtiva local para a fabricação de veículos híbridos e elétricos. No entanto, as gigantes instaladas no país enxergam o movimento como uma brecha perigosa.

“Elas temem que essa flexibilização acabe se tornando uma norma de mercado, desestimulando a fabricação integral de veículos no Brasil e premiando empresas que apenas finalizam a montagem por aqui”, comenta um executivo do setor, sob condição de anonimato.

Concorrência em transformação

elétrico elétricos
Imagem: Mikes-Photography por Pixabay

Novas marcas chinesas buscam entrada no Brasil

O embate também expõe uma transformação profunda no mercado automotivo brasileiro. Diversas montadoras chinesas, além da BYD, buscam meios de iniciar operações no país. A Great Wall Motors (GWM) já anunciou a montagem em CKD em Iracemápolis (SP), enquanto a Zeekr, Omoda & Jaecoo e GAC negociam parcerias locais ou pretendem erguer fábricas próprias.

A Geely, por sua vez, utilizará a estrutura da Renault em São José dos Pinhais (PR) para montar seus veículos. Esse movimento demonstra que as marcas asiáticas estão comprometidas com o Brasil, mas nem todas seguem o mesmo caminho de investimento direto em produção nacional.

Por trás da pressão política

A movimentação da BYD ocorre em um momento estratégico. A montadora iniciou recentemente a adaptação da antiga fábrica da Ford em Camaçari, e sua picape Shark, montada no Brasil com kits importados, ainda sofre com o peso da carga tributária. A redução temporária do imposto tornaria o veículo mais competitivo.

Por isso, a proposta da BYD à Camex inclui também requisitos técnicos — como autonomia mínima de 250 km para carros elétricos e consumo abaixo de 0,66 MJ/km para híbridos — que funcionariam como critérios de elegibilidade para o incentivo. Isso restringiria os benefícios apenas a veículos com bom desempenho energético, favorecendo modelos mais avançados.

Bilhões em jogo

R$ 180 bilhões em investimentos ameaçados

As montadoras tradicionais destacam que o setor comprometeu R$ 180 bilhões em investimentos no Brasil nos próximos anos. Esses recursos envolvem modernização de fábricas, nacionalização de peças, inovação em engenharia e desenvolvimento de veículos eletrificados. Para elas, qualquer mudança nas regras pode comprometer a viabilidade desses projetos.

“Não somos contra a competição, mas a disputa precisa ser justa”

A mensagem enviada ao governo é clara: não se trata de barrar a chegada de novas montadoras ao Brasil, mas sim de garantir que o ambiente de concorrência seja equilibrado. Os executivos exigem isonomia tributária e criticam políticas que, em nome da aceleração da eletrificação, fragilizem a cadeia produtiva construída ao longo de décadas no país.

Próximos passos

Decisão será tomada na Camex

A proposta da BYD será analisada em reunião extraordinária do Comitê Executivo de Gestão da Camex, prevista para quarta-feira, 30 de julho. A decisão poderá definir os rumos da indústria automotiva no país nos próximos anos e terá peso significativo nas relações comerciais entre Brasil e China.

Enquanto isso, os bastidores políticos já se movimentam. O setor de autopeças, sindicatos e fornecedores locais também começam a manifestar preocupação com a possível aprovação do benefício fiscal. O clima é de tensão crescente.

Imagem: mpohodzhay/Shutterstock.com