Com o custo do financiamento em alta, o mercado de automóveis novos enfrenta forte retração nas vendas, enquanto empresas de locação de veículos se beneficiam com a mudança de cenário.
Carro zero desaparece das lojas com alta do crédito; ações de locadoras disparam
Alta dos juros limita compra de carros zero e impulsiona ações de empresas de locação. Entenda o cenário.
A nova dinâmica, impulsionada por juros elevados e inadimplência crescente, redesenha o setor automotivo e reacende o interesse dos investidores nas ações de empresas como Localiza e Movida.
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Financiamento em queda pressiona mercado de veículos novos

Dados da Associação Nacional das Empresas Financeiras das Montadoras (Anef) revelam que, no primeiro trimestre deste ano, o volume de crédito concedido para a compra de carros zero quilômetro chegou a R$ 58 bilhões, registrando queda de 4% em relação ao mesmo período de 2024. O Crédito Direto ao Consumidor (CDC), principal linha utilizada para esse tipo de aquisição, recuou 5%, totalizando R$ 57 bilhões.
A alta dos juros tem sido apontada como a principal razão para o desaquecimento do setor. Com a taxa básica de juros em 14,75% ao ano, o acesso ao financiamento ficou mais restrito. “A taxa de 14,75% ao ano tem limitado o acesso ao financiamento, e isso derruba o valor médio das operações”, afirma Enílson Sales, presidente da Anef.
Aumento da inadimplência agrava o cenário
Além do encarecimento do crédito, a inadimplência também avança, contribuindo para o ambiente de cautela no setor. O índice de calotes subiu de 3,6% para 5,6% no acumulado de doze meses, o que reforça a aversão ao risco por parte das instituições financeiras.
Ainda assim, o saldo total das carteiras de crédito automotivo cresceu 15% na comparação anual, atingindo R$ 494 bilhões. O aumento, no entanto, não reflete um aquecimento das vendas, mas sim a manutenção de dívidas já contraídas e o acúmulo de juros.
Ações de locadoras em alta em meio à retração
Apesar do cenário adverso para o varejo de veículos, as ações de empresas de locação registraram fortes ganhos. No dia 27 de maio, por volta das 13h, os papéis da Localiza (RENT3) subiam 4,80%, cotados a R$ 42,81, enquanto a Movida (MOVI3) avançava 4,39%, chegando a R$ 7,13.
O movimento indica que o mercado financeiro já precificou uma mudança nos hábitos de consumo. Com a compra de veículos novos mais difícil, cresce a demanda por aluguel, beneficiando diretamente as locadoras.
Estratégias das locadoras diante da nova realidade
De acordo com relatório do Bradesco BBI, o encolhimento do crédito para automóveis zero quilômetro levanta um alerta para o setor de locação. A dificuldade no financiamento impacta o mercado de seminovos, reduzindo a liquidez e aumentando a depreciação dos ativos.
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O relatório destaca ainda que “o encarecimento do custo de capital e a redução da velocidade de venda dos usados elevam o risco de ajustes contábeis nas linhas de resultado das companhias de locação”. Apesar disso, o banco mantém a recomendação de compra para as ações da Localiza, com preço-alvo de R$ 56, e da Movida, com preço-alvo de R$ 8, ambos superiores às cotações atuais.
Menor giro de veículos deve impactar próximos trimestres
Para os analistas do Bradesco BBI, a retração no financiamento poderá comprometer o giro de veículos nos próximos trimestres. A rotação de frotas pode se tornar mais lenta, e a renovação menos frequente, devido aos custos elevados de aquisição e à menor atratividade do mercado secundário.
Esse contexto deve levar as locadoras a adotarem uma postura mais conservadora, tanto na compra de novos veículos quanto na gestão de seus estoques. A menor elasticidade da demanda por seminovos, combinada com o aperto no crédito ao consumidor, tende a dificultar a estratégia de renovação de frota que sustenta parte da rentabilidade do setor.
Rentabilidade pressionada com menos crédito e menor liquidez

A queda na concessão de crédito atinge em cheio o modelo de negócios das locadoras. Quando a compra de seminovos desacelera, o ciclo de renovação se alonga, aumentando a depreciação e exigindo ajustes na contabilidade. Com isso, a rentabilidade das empresas pode sofrer, ainda que a demanda por aluguel cresça no curto prazo.
O Bradesco BBI avalia que a demanda por veículos seminovos geralmente diminui quando o crédito ao consumidor fica mais restrito. Isso cria um ambiente desafiador para a venda de carros usados e exige que as empresas de locação de veículos revisem suas estratégias de longo prazo.
