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Quase nada mudou: veja por que o reajuste de 6,06% não surpreendeu o mercado

ANS autoriza reajuste de até 6,06% nos planos de saúde individuais e familiares. Percentual reflete desaceleração dos custos médicos.

Vitória MonckesPor Vitória Monckes7 min de leitura
planos de saude

A Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) oficializou nesta segunda-feira (24) o reajuste de até 6,06% nos planos de saúde individuais e familiares, com validade entre maio de 2025 e abril de 2026. O anúncio confirma as projeções de analistas do setor e sinaliza uma continuidade no processo de moderação dos reajustes, após altas mais intensas registradas nos anos anteriores.

O percentual autorizado é menor que os 6,91% definidos para o ciclo anterior (2024) e bem abaixo dos 9,63% de 2023. Com isso, o mercado interpreta que os custos médicos e hospitalares seguem em trajetória de desaceleração, o que reflete tanto um ambiente de inflação mais controlada quanto uma recomposição das margens das operadoras após o impacto da pandemia de covid-19.

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Imagem: Canva

Como é calculado o reajuste autorizado pela ANS

Composição do índice

O reajuste autorizado pela ANS é calculado com base em uma fórmula que pondera dois fatores principais:

  • Índice de Valor das Despesas Assistenciais (IVDA): representa 80% da composição do índice e mede a variação dos custos médicos por beneficiário, incluindo consultas, exames, internações e terapias.
  • IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo), excluindo o item saúde: compõe os 20% restantes e ajuda a captar o impacto da inflação geral sobre os custos operacionais.

Essa metodologia busca refletir de forma mais precisa os custos reais do setor, evitando sobreposição de índices e promovendo maior transparência nas decisões regulatórias.

Tendência histórica dos reajustes

Desde 2000, quando a ANS passou a regular os planos individuais, os reajustes anuais sempre oscilaram entre 5% e 15%. A exceção foi 2021, durante a pandemia, quando o índice foi negativo (-8,19%), refletindo a queda no uso dos serviços. Desde então, os aumentos voltaram a ocorrer, mas de forma mais moderada nos últimos dois anos.

Análise dos bancos e impacto sobre operadoras

Itaú BBA: cenário dentro do previsto

Para o Itaú BBA, o índice de 6,06% está perfeitamente alinhado com as projeções do mercado e reforça a percepção de normalização no setor de saúde suplementar. O banco destaca que o setor vive um momento de recomposição de margens, após anos de forte pressão de custos, e que a decisão da ANS acompanha essa realidade.

Ainda segundo o Itaú, o reajuste se assemelha ao movimento já observado nos planos coletivos, cujos aumentos por faixa etária também têm se mantido em níveis mais baixos.

Goldman Sachs: leve, mas esperado

O Goldman Sachs classificou o índice como “esperado” e dentro da faixa estimada de 6% a 7%. Para os analistas do banco americano, o principal fator de alívio nas despesas foi a desaceleração da demanda reprimida por atendimentos pós-pandemia e a estabilização da inflação médica.

O relatório do Goldman também aponta que operadoras têm adotado reajustes superiores em outros segmentos, como planos empresariais e para pequenas e médias empresas (PMEs), onde há maior flexibilidade de negociação.

Impacto nas operadoras: Hapvida e SulAmérica

Diferença no peso dos planos individuais

O impacto do reajuste aprovado pela ANS varia de acordo com a composição da base de beneficiários de cada operadora. Na Hapvida (HAPV3), por exemplo, os planos individuais representam cerca de 18% do total de contratos, o que torna o índice autorizado mais relevante para sua receita.

Já na SulAmérica, os planos individuais correspondem a apenas 4% da base — número ainda menor quando desconsiderados os contratos do tipo ASO (Administração de Serviços de Saúde), que funcionam em formato de autogestão. Assim, a decisão da ANS tem peso menor para a performance da companhia.

Estratégias das empresas para manter rentabilidade

Na visão do Goldman Sachs, a tese de investimento na Hapvida continua apoiada na melhora de margens operacionais, na redução de contingências judiciais e no avanço da eficiência administrativa. A integração da operação da NotreDame Intermédica (NDI), especialmente no estado de São Paulo, também é apontada como estratégica para o futuro da empresa.

O banco manteve o preço-alvo de R$ 63 para as ações da Hapvida, com base em um modelo de fluxo de caixa descontado (FCFF) de 10 anos, e um custo médio ponderado de capital (WACC) de 13,5%.

Lucros no setor disparam em 2025

Primeiro trimestre surpreende positivamente

Segundo dados do próprio setor, as operadoras de planos de saúde registraram um lucro líquido de R$ 6,9 bilhões no primeiro trimestre de 2025, mais do que o dobro do registrado no mesmo período de 2024 (R$ 3,1 bilhões).

Esse desempenho reflete uma melhora expressiva na operação, com redução de sinistralidade, aumento na receita per capita e otimização de despesas administrativas e judiciais.

Recuperação após período de alta sinistralidade

Entre 2020 e 2022, muitas operadoras enfrentaram fortes desafios, com elevação nos custos e redução da margem operacional. A retomada da rentabilidade, segundo analistas, é resultado de ajustes estratégicos e da menor pressão dos custos assistenciais — fator diretamente vinculado ao índice de reajuste atual.

Peso dos planos individuais no sistema

Imagem: Fabio Balbi / shutterstock.com

Segmento representa 16,5% dos contratos

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Conforme dados da ANS de abril de 2025, os planos de saúde individuais e familiares representam cerca de 16,5% do total de contratos ativos no Brasil, o equivalente a 8,6 milhões de beneficiários. Embora a maioria dos planos contratados no país sejam coletivos, os individuais são os únicos regulados diretamente pela agência.

Isso significa que, ao contrário dos planos empresariais, os individuais não estão sujeitos à livre negociação com as operadoras, e seus reajustes são definidos anualmente pela ANS com base em critérios técnicos.

Reivindicações das operadoras

As operadoras têm alertado que o aumento dos custos assistenciais é impulsionado por três fatores principais:

  • Maior utilização de serviços médicos, impulsionada por envelhecimento populacional e novas doenças crônicas;
  • Incorporação constante de tecnologias e procedimentos de alto custo;
  • Judicialização da saúde, que obriga o custeio de tratamentos não previstos em contrato.

Apesar disso, os lucros recentes e os dados de eficiência operativa apontam que o setor já conseguiu, ao menos parcialmente, repassar esses custos ou compensá-los com melhorias internas.

Reajuste de 6,06%: o menor desde 2008 (excluindo 2021)

Histórico comparativo

O reajuste aprovado pela ANS em 2025 é o menor desde 2008, quando foi fixado em 5,48% — desconsiderando o ano atípico de 2021, quando houve reajuste negativo de -8,19%.

Isso reflete não apenas a desaceleração da inflação médica, mas também um novo equilíbrio no setor, após dois anos marcados por turbulência financeira, crescimento desordenado da demanda e incertezas sobre o comportamento dos custos hospitalares.

Desafios e perspectivas para o setor

Riscos mapeados

Apesar do bom momento, os analistas do Goldman Sachs listam alguns riscos para o setor:

  • Cenário macroeconômico instável, que pode afetar o poder de pagamento dos beneficiários;
  • Crescimento do desemprego, reduzindo a base de planos coletivos empresariais;
  • Riscos de integração operacional, especialmente em fusões recentes;
  • Alta inesperada nos custos médicos, por novos surtos ou pandemias.

Perspectivas para o próximo ciclo

Planos de saúde
Imagem: Canva

Caso a estabilidade atual se mantenha, o setor de saúde suplementar pode seguir em trajetória de fortalecimento. A expectativa é de que os reajustes continuem moderados, com empresas focando na digitalização dos serviços, em ações preventivas e em modelos de remuneração por desempenho — tendências que ganham força na saúde privada.

Imagem: Freepik/ Edição: Seu Crédito Digital

Vitória Monckes

Autor

Vitória Monckes

Vitória Monckes é turismóloga, comissária de voo e futura enfermeira. No Seu Crédito Digital, atua como redatora especializada na tradução clara e acessível de políticas públicas, direitos sociais, previdência, programas assistenciais e medidas econômicas. Sua missão é transformar temas governamentais complexos em conteúdos compreensíveis e úteis para os brasileiros, contribuindo para decisões mais conscientes no dia a dia.

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