Quando o Bitcoin surgiu, ainda em 2009, era visto por muitos como uma curiosidade de nicho, algo restrito ao universo geek. Com o tempo, entretanto, a criptomoeda superou o estigma de “moeda de nerd” e passou a integrar o vocabulário de grandes instituições financeiras, legisladores, economistas e, principalmente, investidores.
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Hoje, nomes importantes do ecossistema cripto brasileiro estão à frente de empresas que moldam o mercado nacional de ativos digitais, ajudando a consolidar sua relevância.
São protagonistas como André Portilho (BTG Pactual/Mynt), Edilson Osório Jr. (OriginalMy), João Canhada (Foxbit), Rocelo Lopes (SmartPay), Rudá Pellini (Arthur Inc.) e Samir Kerbage (Hashdex). Suas vozes refletem tanto as conquistas quanto os desafios do setor.
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O desafio regulatório no Brasil
A aprovação da lei que regulamenta os criptoativos no Brasil, em vigor desde 2023, foi celebrada como um divisor de águas. No entanto, para os principais agentes do setor, a regulamentação ainda está em estágio embrionário.
“Precisamos de diretrizes mais claras por parte do Banco Central, especialmente no que diz respeito ao papel dos provedores de criptoativos e ao cronograma do Drex”, afirma Samir Kerbage, diretor de investimentos da Hashdex.
A menção ao Drex — projeto de real digital tokenizado — simboliza a necessidade urgente de integração entre inovação e infraestrutura legal. João Canhada, da Foxbit, endossa a avaliação:
“O Brasil avançou, sim, mas ainda carece de regulamentações técnicas, especialmente sobre tributação, operação dos VASPs e sua conexão com o sistema financeiro tradicional.”
VASPs ainda no limbo
Os VASPs (Virtual Asset Service Providers) são atores centrais no ecossistema, mas a indefinição sobre como devem operar gera insegurança jurídica. Sem normas claras, empresas enfrentam dificuldades em escalar seus serviços com conformidade e confiança.
Educação e acessibilidade: entraves silenciosos
Mesmo com o crescimento do setor, o acesso a uma educação financeira sólida ainda é escasso — algo que preocupa os especialistas.
“O comportamento de muitos investidores é movido por especulação pura. Falta entendimento sobre os fundamentos dos projetos”, destaca Edilson Osório Jr., fundador da OriginalMy.
A desinformação institucional
Não são apenas os usuários que carecem de conhecimento. Segundo Rudá Pellini, da Arthur Inc., há desinformação mesmo dentro de instituições financeiras, órgãos reguladores e veículos de imprensa.
“A falta de compreensão técnica atrasa a formulação de políticas públicas eficazes e inibe o crescimento saudável do setor.”
A barreira do excesso
Outro obstáculo relevante é a complexidade do universo cripto. São centenas de blockchains, milhares de tokens e um vocabulário técnico desafiador para o cidadão comum.
“O número de redes e ativos digitais pode ser opressor. Precisamos de ferramentas que simplifiquem a experiência do usuário”, observa Rocelo Lopes, CEO da SmartPay.
O que vem por aí: evolução, não revolução

Para muitos analistas e executivos do setor, a próxima fase de crescimento do ecossistema cripto não será marcada por uma revolução, mas por uma evolução contínua e estruturada.
“Quando falamos de finanças, falamos da vida real das pessoas. A integração de stablecoins e a tokenização de ativos reais já estão em curso, e serão os principais vetores de mudança”, afirma André Portilho, líder de ativos digitais do BTG Pactual.
Segundo estudo do Boston Consulting Group (BCG) em conjunto com a Ripple, o mercado global de tokenização pode atingir US$ 18,9 trilhões até 2033. Isso transformaria profundamente o sistema financeiro tradicional.
Liquidez global, 24 horas por dia
A negociação de ativos tokenizados poderá ocorrer de forma ininterrupta, sete dias por semana — algo impossível no mercado de ações convencional.
“É o fim das janelas de negociação. A tokenização permite liquidez permanente e global”, diz João Canhada.
Stablecoins como pilares da economia digital
As stablecoins surgem como catalisadoras dessa nova fase. Moedas digitais pareadas com ativos reais, como o dólar ou o real, estão sendo amplamente utilizadas em países com sistemas financeiros instáveis.
“Nos EUA, há apoio bipartidário para regulamentar stablecoins. Elas serão o caminho natural para digitalizar o dólar e preservar sua hegemonia global”, explica Kerbage, da Hashdex.
Bitcoin: de ativo especulativo a reserva de valor digital
O Bitcoin, apesar de sua valorização contínua, ainda é um ativo de alta volatilidade, sensível a ciclos macroeconômicos e choques regulatórios.
“É natural que, no curto prazo, o bitcoin passe por oscilações. Mas sua oferta limitada e inflação programada garantem um potencial de valorização a longo prazo”, defende Rudá Pellini.
Projeções audaciosas
Kerbage aposta que o BTC pode chegar a US$ 250 mil até 2027, embora reconheça que parte dessa valorização será movida por especulação.
Por outro lado, Portilho relativiza as projeções de curto prazo:
“O que realmente importa é o papel que o bitcoin assumirá como reserva de valor global, assim como o ouro. Diante de incertezas monetárias, esse ativo tende a ganhar força.”
Além do Bitcoin: as novas promessas do mercado cripto
Embora o Bitcoin continue sendo o carro-chefe do mercado, os especialistas veem grande potencial em outras áreas do ecossistema.
Rocelo Lopes e Rudá Pellini convergem na aposta nas stablecoins, especialmente a USDT (Tether), como base de um novo sistema de pagamentos.
“Elas serão utilizadas em segundo plano, sem que os usuários sequer percebam que estão lidando com blockchain”, comenta Pellini.
Finanças descentralizadas em ascensão
Canhada, da Foxbit, aponta o crescimento dos protocolos DeFi (finanças descentralizadas), como Uniswap, Aave e Maker, que vêm construindo um sistema financeiro alternativo, independente de bancos ou corretoras tradicionais.
“Esses projetos estão criando um novo sistema financeiro, muitas vezes contra a vontade dos reguladores.”
A descentralização da internet
Edilson Osório Jr. acredita na expansão de iniciativas voltadas à descentralização da web, uma espécie de Web3 funcional.
“Projetos como o Render e a Theta já demonstram como é possível distribuir recursos e serviços de forma inteligente e democrática.”
Smart contracts como nova infraestrutura digital
Samir Kerbage completa o panorama mencionando o avanço dos smart contracts, que permitem a execução automática de contratos. Plataformas como Ethereum e Solana estão entre os principais nomes desse segmento.
Conclusão: um mercado em construção

O ecossistema cripto no Brasil vive uma fase de amadurecimento. Entre desafios regulatórios, lacunas educacionais e a complexidade de acesso, os líderes do setor vislumbram um futuro promissor — construído com educação, inovação tecnológica e estabilidade jurídica.
A transição de um mercado altamente especulativo para uma estrutura robusta e integrada ao sistema financeiro tradicional parece inevitável. E, com ela, vem a consolidação do Brasil como um dos polos de inovação cripto no mundo.
“Estamos deixando de ver cripto como aposta e começando a enxergá-la como infraestrutura”, resume André Portilho.

