Dividendo entre Fazenda e BNDES pode ajudar nas finanças antes de pacote econômico
O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, e o presidente do BNDES, Aloizio Mercadante, se reuniram na última quarta-feira (4) para tratar de um tema central para a política fiscal de 2025: o pagamento de dividendos da instituição ao governo federal. O encontro aconteceu na sede do Ministério da Fazenda, em Brasília, e durou cerca de uma hora.
Durante a reunião, foi acertada a manutenção do repasse de 60% do lucro líquido do banco ao Tesouro Nacional, percentual já praticado nos últimos anos.
Além disso, ficou encaminhado que a equipe econômica apresentará um cronograma para pagamento de dividendos adicionais, que devem injetar cerca de R$ 10 bilhões extras nos cofres públicos.
Leia mais:
BNDES apresenta resultado positivo de R$ 5,6 bilhões no 1º trimestre de 2025
Dividendos do BNDES ajudarão na meta fiscal do governo

A decisão é vista como estratégica para o cumprimento da meta fiscal estabelecida para este ano. O governo busca reduzir o déficit nas contas públicas e, com isso, manter a credibilidade diante do mercado e dos organismos internacionais. Os dividendos pagos pelas estatais têm sido uma ferramenta importante nesse esforço de ajuste fiscal, principalmente diante das dificuldades em aprovar medidas de aumento de arrecadação.
Segundo o secretário do Tesouro Nacional, Rogério Ceron, os dividendos previstos no Orçamento foram superados pelas estimativas atuais. Além do BNDES, a Caixa Econômica Federal também deve contribuir com valores acima do esperado, somando pagamentos que podem ultrapassar os R$ 10 bilhões em dividendos extraordinários.
Contexto: governo ainda avalia medidas alternativas ao IOF
A negociação sobre os repasses do BNDES ocorre em um momento de incerteza sobre a substituição do IOF (Imposto sobre Operações Financeiras). O governo federal discute um pacote alternativo para compensar a perda de arrecadação decorrente da extinção gradual do imposto.
Nesse cenário, qualquer reforço de caixa proveniente das estatais representa um alívio importante e contribui para garantir o cumprimento das metas definidas no novo arcabouço fiscal.
Lucro do BNDES, dividendos e o impacto fiscal
O que são dividendos pagos por estatais?
Os dividendos são parte dos lucros obtidos por empresas e distribuídos aos seus acionistas. No caso das estatais, o governo federal é o principal acionista, e, portanto, tem direito a uma parte significativa do lucro. O percentual repassado pode variar, mas no caso do BNDES, 60% do lucro líquido já é destinado rotineiramente ao Tesouro.
Esse valor entra nas receitas primárias do governo, ajudando a reduzir o déficit e a financiar despesas públicas, sem a necessidade de aumentar impostos ou recorrer à emissão de títulos da dívida.
Dividendos adicionais reforçam caixa em 2025
O ponto central da reunião entre Haddad e Mercadante foi a projeção de um pagamento adicional de dividendos, ou seja, valores superiores aos 60% usuais. O governo pretende apresentar um cronograma de repasses extras, com a meta de reforçar o caixa com cerca de R$ 10 bilhões, valor relevante diante da meta de déficit zero estipulada para este ano.
Esse repasse extra será possível porque o BNDES teve um desempenho sólido em 2024 e início de 2025, com operações lucrativas e aumento da demanda por crédito de longo prazo.
BNDES projeta crescimento nas aprovações de crédito
Além dos dividendos, a reunião também abordou as perspectivas operacionais do banco para o ano. Segundo informações apresentadas por Mercadante e pelo diretor de Planejamento e Estruturação de Projetos do BNDES, Nelson Barbosa, a instituição projeta aprovar R$ 80 bilhões em crédito para infraestrutura em 2025.
Esse número representa um avanço significativo e confirma a retomada do protagonismo do banco no financiamento de obras e projetos estruturantes, como concessões rodoviárias, saneamento básico, geração de energia e mobilidade urbana.
Demanda por recursos do Fundo Clima também cresce
Outro ponto destacado foi o aumento na procura por recursos do Fundo Clima, linha de financiamento do BNDES voltada a projetos com impacto ambiental positivo. A expectativa é que as aprovações superem R$ 20 bilhões em 2025, número recorde desde a criação do fundo.
O Fundo Clima se tornou peça central na estratégia de transição energética do Brasil, e o governo pretende usá-lo como ferramenta para atrair investimentos verdes e estimular setores como energia limpa, mobilidade elétrica e reflorestamento.
A importância do BNDES na estratégia fiscal e de desenvolvimento
Papel dual: banco de fomento e instrumento fiscal
O BNDES desempenha um papel duplo na administração pública brasileira. De um lado, é um banco de fomento, com a missão de financiar o desenvolvimento econômico, especialmente em setores com baixa atratividade para o setor privado. De outro, é uma estatal estratégica, que contribui para o equilíbrio fiscal por meio da distribuição de lucros ao Tesouro.
Esse modelo permite ao governo usar o BNDES como ferramenta anticíclica, ativando o crédito em momentos de retração econômica e recebendo dividendos em fases de expansão, como ocorre atualmente.
Riscos e limites dessa estratégia
Apesar da utilidade dos dividendos como fonte de receita, especialistas alertam que não se deve depender excessivamente dos lucros das estatais para fechar as contas públicas. Essa prática pode ser arriscada, especialmente se houver oscilações nos resultados dessas empresas ou mudanças de estratégia por parte de suas administrações.
Além disso, há limites legais e financeiros para a distribuição de lucros, que devem ser observados para garantir a solidez das instituições e a manutenção de sua capacidade de financiamento.
Próximos passos: cronograma, metas fiscais e novas fontes de receita
Governo prepara calendário para dividendos extras
A equipe do Ministério da Fazenda ficou encarregada de elaborar um cronograma detalhado para o pagamento dos dividendos adicionais. A ideia é escalonar os repasses ao longo do ano, de modo a garantir previsibilidade para o caixa do Tesouro e permitir a gestão eficiente das despesas federais.
Esse planejamento será integrado ao acompanhamento da execução orçamentária e do novo arcabouço fiscal, que exige rigor na administração das contas públicas.
Complemento a outras medidas fiscais
O reforço nas receitas via dividendos deve atuar como complemento a outras medidas planejadas, como:
- Redução de renúncias fiscais;
- Reforço da fiscalização contra fraudes e sonegação;
- Estímulo à formalização e à digitalização dos negócios;
- Adoção de novos mecanismos tributários, como o Imposto Seletivo da reforma tributária.
Conclusão: reforço de caixa e confiança no ajuste fiscal
A manutenção do repasse de 60% do lucro do BNDES ao Tesouro, acompanhada da projeção de dividendos extras de até R$ 10 bilhões, representa um alívio importante para a política fiscal brasileira em 2025. A medida ajuda o governo a cumprir metas fiscais, sem aumentar a carga tributária ou recorrer ao endividamento excessivo.
Além disso, o desempenho operacional positivo do BNDES, com expectativa de alta nas aprovações de crédito e no uso do Fundo Clima, sinaliza que a instituição continua cumprindo seu papel de agente do desenvolvimento econômico e ambiental.
Com um cronograma bem definido e coordenação entre Fazenda e BNDES, a expectativa é de que esses recursos sirvam como ponte para manter a confiança dos mercados, garantir a sustentabilidade das contas públicas e impulsionar investimentos estratégicos nos próximos anos.