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Bolsa Família: 1,4 milhão esconderam informações do cadastro, diz governo

Estimativa aponta 1,4 milhão de fraudes no Bolsa Família por omissão de cônjuge. Cidades do Norte e Nordeste concentram os maiores desvios.

Bruna MachadoPor Bruna Machado6 min de leitura
Bolsa Família

Um levantamento baseado em dados oficiais do Ministério do Desenvolvimento Social e do IBGE, conduzido pela empresa DataBrasil a pedido do portal Poder360, revelou que pelo menos 1,4 milhão de famílias no Brasil podem estar cometendo fraudes no Bolsa Família ao omitir o cônjuge no cadastro do programa social.

A manobra permitiria o recebimento indevido dos recursos do programa, cuja regra exige renda familiar per capita de até R$ 218.

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Bolsa Família
Imagem: Freepik e Canva

Como funciona a fraude?

A principal prática consiste em declarar composição familiar monoparental — ou seja, apenas um adulto com filhos — mesmo quando há um segundo adulto no domicílio, que, se informado, elevaria a renda per capita acima do limite permitido para acesso ao benefício.

Duplo recebimento com endereços falsos

Outra fraude comum é o registro de dois beneficiários no mesmo endereço, ambos se declarando como famílias unipessoais — pai e mãe morando juntos, mas se apresentando como indivíduos isolados no sistema. Em alguns casos, o endereço chega a ser forjado para evitar a detecção da duplicidade.

Metodologia do levantamento

Cruzamento de dados por município

A estimativa de possíveis fraudes foi obtida a partir do cruzamento entre:

  • Microdados do Censo do IBGE, que informam o número de domicílios monoparentais por município;
  • Dados do CadÚnico e Bolsa Família, obtidos via Lei de Acesso à Informação.

Foram analisadas as 5.571 localidades brasileiras, identificando discrepâncias entre o número de famílias monoparentais reais e o número declarado no programa.

Casos emblemáticos revelam disparidades

Em Guaribas (PI), por exemplo, o Censo aponta 151 domicílios monoparentais, enquanto o Bolsa Família registra 617 famílias nessa condição — uma diferença de 466 casos. Em Manaus (AM), a discrepância alcança 15.051 famílias.

Onde as fraudes são mais concentradas?

bolsa família
Imagem: Freepik e Canva

Norte e Nordeste lideram em proporção

As regiões Norte e Nordeste concentram a maior parte das discrepâncias percentuais, segundo o levantamento. Em Pracuúba (AP), por exemplo, há 157 residências monoparentais conforme o Censo, mas 840 famílias monoparentais cadastradas no Bolsa Família.

Fatores que favorecem a fraude

Segundo especialistas, fatores como:

  • Falta de endereços com CEP
  • Dificuldade de fiscalização presencial
  • Ausência de cruzamento automático de CPF e endereço

facilitam a prática e dificultam a detecção de irregularidades.

Impacto financeiro e orçamentário

Quanto custa a fraude ao governo?

As 1,4 milhão de famílias com suspeita de fraude custam mensalmente ao programa cerca de R$ 926 milhões, ou R$ 11,1 bilhões por ano — recursos que poderiam ser realocados para famílias realmente em situação de vulnerabilidade.

Comparação com outros programas sociais

Esse valor seria suficiente para:

  • Financiar um novo programa de transferência de renda;
  • Ampliar significativamente o Pé-de-Meia, voltado a estudantes;
  • Reduzir o déficit público, contribuindo para o equilíbrio fiscal.

O que dizem os especialistas?

Carla Beni (FGV): cruzamento de CPF é a chave

Para a pesquisadora Carla Beni, da Fundação Getulio Vargas (FGV), cruzar os dados por CPF seria a maneira mais eficaz de combater esse tipo de fraude. Segundo ela, não é possível haver duas famílias do Bolsa Família no mesmo domicílio legítimo.

“Se isso acontece, é fraude por falta de fiscalização. O problema é que há milhões de residências sem CEP no Brasil. A tecnologia existe, mas falta aplicar”, alerta.

Fraude não pode inviabilizar o programa

Apesar da gravidade das suspeitas, Beni reforça a importância do Bolsa Família para a economia e a justiça social:

“Fraudes acontecem pela dimensão do programa. Mas elas não devem ser usadas para desacreditar ou inviabilizar sua existência. É preciso corrigir rotas, não abandonar políticas públicas.”

Resposta do governo e das autoridades

MDS responsabiliza os municípios

O Ministério do Desenvolvimento Social informou que a responsabilidade pelo cadastramento e atualização dos dados das famílias no CadÚnico é dos municípios.

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Segundo nota oficial, cabe às gestões locais:

  • Realizar entrevistas e registrar dados no sistema;
  • Atualizar e verificar informações;
  • Apurar suspeitas de fraude conforme a Instrução Normativa nº 1/SAGICAD/MDS, de 24 de março de 2025.

Ação da CGU foi necessária para obter dados

O Poder360 solicitou os dados em março de 2025, mas o MDS negou o pedido duas vezes, alegando “trabalho adicional”. Só após recurso à Controladoria-Geral da União (CGU) os dados foram liberados.

Visitas domiciliares ainda são raras

Entre 2024 e março de 2025, apenas 1,19 milhão de famílias passaram por inclusão ou atualização cadastral presencial. Considerando os mais de 20 milhões de beneficiários, esse número é considerado baixo para fins de controle.

O que pode ser feito para melhorar a fiscalização?

Tecnologias já disponíveis

O governo federal já possui ferramentas para detectar fraudes, como:

  • Cruzamento com BPC, Pé-de-Meia e CNIS (cadastro do INSS);
  • Verificação de múltiplos beneficiários com o mesmo CPF ou endereço;
  • Implementação de filtros automatizados no sistema do CadÚnico.

Auditorias georreferenciadas e por amostragem

A realização de auditorias com uso de geolocalização, cruzamento de contas bancárias e checagem por amostragem em cidades com alta incidência de fraudes pode tornar a fiscalização mais efetiva, mesmo com poucos recursos.

Revisão das famílias unipessoais

Desde o início do atual governo, vem ocorrendo uma revisão de beneficiários unipessoais — grupo que cresceu muito durante o governo anterior e concentra parte significativa das irregularidades.

Dados que reforçam a suspeita

Imagem: Freepik / Edição: Seu Crédito Digital
  • 11,3 milhões de famílias monoparentais recebem Bolsa Família (de um total de 20,5 milhões de beneficiários em março de 2025);
  • Segundo o IBGE, o Brasil possui 15,1 milhões de domicílios monoparentais;
  • Isso significa que 74,9% dessas famílias estão no Bolsa Família, contra 25,3% da população total, evidenciando possível sobre-representação do grupo.

Considerações finais

O levantamento realizado a partir de dados oficiais revela um problema sério de integridade e fiscalização no Cadastro Único e no Bolsa Família. As evidências de que pelo menos 1,4 milhão de famílias podem estar recebendo indevidamente o benefício por meio da omissão de cônjuges ou da duplicação de cadastros são um alerta.

Embora o programa seja vital para milhões de brasileiros, seu sucesso depende de transparência, critérios bem aplicados e fiscalização rigorosa. Com cruzamentos de dados mais eficientes e visitas domiciliares mais frequentes, o governo pode corrigir falhas sem prejudicar os verdadeiros beneficiários.

Bruna Machado

Autor

Bruna Machado

Bruna Cassana é gaúcha, natural de Pelotas, e atua como redatora no Seu Crédito Digital. Curiosa por natureza, está sempre conectada às tendências da web e às principais novidades sobre finanças, benefícios sociais e tecnologia. Com olhar atento às transformações digitais e linguagem acessível, Bruna contribui para informar e orientar leitores em decisões do cotidiano.

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