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Brasil investe bilhões em big techs dos EUA e atrasa desenvolvimento de soluções locais

Brasil repassa bilhões a big techs dos EUA e freia soluções nacionais, comprometendo soberania digital e inovação tecnológica local.

Bianca BorgesPor Bianca Borges6 min de leitura
Taxar big techs

O governo brasileiro tem direcionado bilhões de reais para as maiores big techs dos Estados Unidos, como Microsoft, Oracle, Google e Red Hat, por meio da contratação de softwares, serviços em nuvem e soluções de segurança.

Esse movimento, apesar de estratégico em curto prazo, compromete o avanço e a inovação tecnológica local, atrasando o desenvolvimento de soluções brasileiras e colocando em risco a soberania digital do país.

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Estudo revela gastos bilionários do setor público com big techs

Taxar big techs
Imagem: Ascannio / Shutterstock.com

Um estudo inédito conduzido por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), Fundação Getúlio Vargas (FGV) e Universidade de Brasília (UNB) mapeou as despesas do setor público brasileiro com empresas estrangeiras de tecnologia.

Segundo os dados, somente entre junho de 2024 e junho de 2025, o setor público destinou cerca de R$ 10,35 bilhões a contratos com Microsoft, Oracle, Google e Red Hat.

No acumulado entre 2014 e 2025, o montante chega a R$ 23 bilhões, revelando a enorme dependência das soluções tecnológicas estrangeiras para o funcionamento da administração pública.

Gasto por empresa

  • Microsoft: R$ 1,65 bilhão (primeiro semestre de 2025)
  • Oracle: R$ 1,02 bilhão (desde 2022)
  • Google: R$ 938 milhões (desde 2022)
  • Red Hat: R$ 909 milhões (desde 2022)

O impacto no desenvolvimento da infraestrutura nacional

Os valores gastos poderiam financiar a construção de pelo menos 86 data centers Tier 3 de 5MW, que fortaleceriam a infraestrutura nacional de armazenamento e processamento de dados.

Atualmente, o país depende amplamente de servidores e serviços em nuvem geridos por empresas estrangeiras, o que limita o controle sobre os dados e a segurança da informação.

Por que data centers nacionais são importantes?

Data centers locais são fundamentais para garantir a proteção dos dados sensíveis, evitar a transferência involuntária de informações para outras jurisdições e fortalecer a autonomia tecnológica do país.

Além disso, eles contribuem para o desenvolvimento do ecossistema tecnológico brasileiro, gerando empregos e fomentando a inovação.

O risco para a soberania digital do Brasil

A utilização massiva de soluções estrangeiras expõe o país a riscos concretos relacionados à soberania digital.

Dados estratégicos, como prontuários médicos do Sistema Único de Saúde (SUS), informações de inteligência e sistemas de defesa podem estar sendo armazenados em servidores submetidos às leis de outros países, especialmente dos Estados Unidos.

A influência do Cloud Act

Uma das legislações que preocupa os especialistas é o Cloud Act, que autoriza o governo dos EUA a requisitar dados armazenados por empresas sediadas no país, independentemente da localização física desses dados.

Isso significa que informações sensíveis dos brasileiros podem ser acessadas por autoridades estrangeiras sem controle do Brasil.

Contratos pouco transparentes e intermediários locais

A pesquisa aponta que muitos órgãos públicos preferem contratar soluções prontas e proprietárias via revendedores locais. Essa prática dificulta o rastreamento dos contratos, pois os verdadeiros fornecedores estrangeiros ficam ocultos, dificultando auditorias e a transparência pública.

Por que o Brasil ainda depende tanto das big techs dos EUA?

Algumas razões justificam essa dependência histórica:

  • Capacidade tecnológica e escala global: Empresas como Microsoft e Google oferecem soluções robustas, com infraestrutura consolidada e recursos avançados.
  • Facilidade de contratação: Produtos “prontos para uso” são preferidos em ambientes públicos que demandam rapidez.
  • Falta de investimento em P&D local: O Brasil investe pouco em pesquisa e desenvolvimento para gerar alternativas competitivas.
  • Falta de políticas públicas claras: A ausência de uma estratégia coordenada para incentivar o desenvolvimento de tecnologias nacionais.

Alternativas para fortalecer a tecnologia nacional

Os autores do estudo recomendam medidas urgentes para reduzir a dependência estrangeira e fomentar o crescimento das soluções brasileiras:

Criação de uma nuvem pública federada

Uma infraestrutura nacional de computação em nuvem, gerida pelo governo, poderia assegurar que dados estratégicos fiquem armazenados em solo brasileiro e sob controle nacional, garantindo segurança e soberania digital.

Incentivo a softwares de código aberto e soluções nacionais

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Ao adotar licenças abertas e priorizar sistemas desenvolvidos por universidades e empresas locais, o Brasil pode criar um ecossistema tecnológico mais independente e adaptado às suas necessidades.

Licenciamento aberto e interoperabilidade

Nas compras públicas, exigir licenciamento aberto e padrões que permitam a integração entre diferentes sistemas fortalece o mercado interno e evita o aprisionamento tecnológico (vendor lock-in) por fornecedores estrangeiros.

Desafios geopolíticos e pressão internacional

A discussão sobre soberania digital acontece em um momento delicado. O governo dos Estados Unidos, especialmente sob a influência de políticas alinhadas à era Trump, tem pressionado países como o Brasil para evitar regulações rigorosas contra as big techs.

Essa pressão dificulta a criação de políticas públicas que favoreçam o desenvolvimento local e a proteção dos dados nacionais.

O caminho para a autonomia tecnológica do Brasil

Para reverter o quadro atual, o Brasil precisa unir esforços entre governo, setor privado e academia. A estratégia deve combinar investimentos em infraestrutura, capacitação técnica, pesquisa e desenvolvimento, além de uma legislação que proteja a soberania digital e estimule o mercado nacional.

Exemplos internacionais de sucesso

Países como a China, Rússia e União Europeia vêm adotando políticas robustas para garantir o controle sobre seus dados e estimular suas indústrias tecnológicas. Modelos de nuvem nacional e incentivos para empresas locais têm sido adotados como estratégia de fortalecimento da segurança e inovação.

A importância da transparência e governança pública

Brasil EUA
Imagem: Artfolio – Freepik

Para que o Brasil tenha sucesso nessa transição, é essencial ampliar a transparência nos contratos públicos, permitir auditorias independentes e promover a governança que garanta o uso eficiente dos recursos investidos em tecnologia.

Conclusão

O cenário atual revela um paradoxo: o Brasil tem investido bilhões nas big techs americanas enquanto sua própria infraestrutura e indústria tecnológica permanecem subdesenvolvidas. Essa situação coloca em risco a soberania digital nacional, compromete a segurança de dados sensíveis e freia a inovação interna.

Com um planejamento estratégico que priorize o desenvolvimento local, a adoção de nuvens públicas federadas, softwares abertos e políticas públicas sólidas, o Brasil pode construir um futuro tecnológico mais autônomo, seguro e inovador.

O desafio é grande, mas a oportunidade para a transformação digital brasileira nunca foi tão clara.

Bianca Borges

Autor

Bianca Borges

Bianca Borges é estudante de Publicidade e desenvolvedora em formação, com paixão por cultura pop, tecnologia e universos geek. Fã de Star Wars, DC Comics, RPG e The Walking Dead, ela traz sua visão criativa e analítica para o time do Seu Crédito Digital, colaborando na produção de conteúdos relevantes sobre consumo, serviços públicos e finanças do dia a dia. Com estilo descontraído e foco em clareza, Bianca ajuda leitores a entender temas complexos com leveza e precisão.

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