Brasil lidera lista dos países com mais motoristas de Uber no mundo
O Brasil acaba de se consolidar como o país com o maior número de motoristas de Uber do planeta, com mais de 1,4 milhão de condutores cadastrados na plataforma. O que começou como uma alternativa de renda temporária transformou-se em ocupação principal para milhões de brasileiros, mesmo diante de desafios como a alta dos combustíveis, jornadas exaustivas e riscos diários nas ruas.
📌 DESTAQUES:
Brasil bate recorde global de motoristas da Uber, mas rotina mostra desafios e baixa rentabilidade da profissão.
A marca histórica reforça a importância dos aplicativos de mobilidade na economia nacional, mas também levanta debates sobre as condições de trabalho desses profissionais. A seguir, analisamos os números, os bastidores da rotina desses motoristas e os principais desafios enfrentados nas ruas do país.
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Crescimento meteórico da Uber no Brasil
A chegada da Uber ao Brasil, pouco antes da Copa do Mundo de 2014, foi marcada por controvérsias e promessas. Desde então, a empresa cresceu exponencialmente, atingindo a marca de 125 milhões de usuários em território nacional, o que equivale a cerca de 60% da população.
Segundo dados divulgados durante a celebração de 10 anos da plataforma no país, mais de 5 milhões de brasileiros já geraram algum tipo de renda utilizando o aplicativo, seja como motoristas ou entregadores. A Uber afirma ter repassado mais de R$ 140 bilhões a esses parceiros desde o início de suas operações.
Como é a renda média de quem trabalha por aplicativo
Um estudo encomendado pela Associação Brasileira de Mobilidade e Tecnologia (Amobitec) mostrou que, entre maio de 2023 e abril de 2024, os motoristas de aplicativo passaram, em média, 85 horas por mês realizando corridas, desconsiderando o tempo parado à espera de chamadas.
O ganho bruto médio por hora foi de R$ 47, representando um aumento real de 5% em relação ao período anterior (2021–2022). Já os entregadores trabalharam, em média, 39 horas mensais, com um rendimento bruto de R$ 31,33 por hora, também com aumento real de 5%.
Apesar dos valores aparentarem crescimento, esses números não incluem despesas com combustível, manutenção, alimentação ou depreciação do veículo.
Muitos conciliam com outros trabalhos
O estudo também revelou que uma grande parcela dos motoristas e entregadores não se dedica exclusivamente às plataformas. Cerca de 42% dos motoristas possuem outro emprego, enquanto 46% dos entregadores conciliam a atividade com outras fontes de renda.
A pesquisa considerou um universo de 2,2 milhões de trabalhadores de aplicativo no Brasil, sendo que aproximadamente 800 mil atuam por outras plataformas que não a Uber.
Vozes das ruas: a rotina dos motoristas brasileiros
Para entender melhor os bastidores da vida de quem vive ao volante, ouvimos relatos de motoristas e entregadores que dividem suas rotinas com a Uber.
Marcus Vinicius Ribeiro, 52 anos, morador de Niterói, é motorista há quatro anos e já realizou mais de 14 mil corridas. Trabalha entre cinco e oito horas por dia, inclusive nos finais de semana. Seu faturamento bruto gira em torno de R$ 4.500, mas ele relata que cerca de R$ 1.000 mensais são gastos com o carro.
“O dia a dia em Niterói tem suas características, mas a principal é o trânsito. Faz toda a diferença conhecer bem a cidade para ter um maior aproveitamento”, afirmou.
Segundo Marcus, os principais desafios da profissão são o comportamento agressivo de alguns passageiros e conflitos com motoboys:
“Os abusos dos passageiros e a agressividade de alguns motoboys, que às vezes chegam a ameaçar os motoristas, são grandes problemas.”
Marcelo Gomes, 47 anos, também de Niterói, trabalha com a Uber há oito anos e lembra que, no início, era possível sustentar a família apenas com essa atividade. Hoje, ele diz que o cenário mudou:
“Está bem difícil devido ao alto custo de combustível, seguro e manutenção.”
Ele prefere rodar apenas em Niterói, evitando o Rio de Janeiro por conta da violência:
“Rio só se for um bate e volta na Zona Sul.”
Trabalhando até 12 horas por dia, Marcelo tem um faturamento líquido em torno de R$ 3.500.
A visão dos motoboys: riscos e metas
Lucas Helmold, 23 anos, atua como entregador e piloto da função “Uber Moto”. Morador de São Gonçalo, ele descreve sua rotina como arriscada:
“É sempre muito arriscado, a gente sai pedindo proteção e volta agradecendo. É muito acidente na rua, assalto nem preciso comentar…”
Ele detalha que impõe metas por valor, não por horas:
“Eu não volto pra casa com menos de R$ 250 no bolso. Isso eu consigo fazer em cerca de seis horas de jornada.”
Mesmo com o faturamento aparentemente alto, Lucas revela que precisa cortar gastos ao máximo e realiza as refeições principais em casa para economizar.
Entre a flexibilidade e a precarização
O modelo de trabalho por aplicativo é frequentemente vendido como sinônimo de flexibilidade e autonomia. No entanto, os relatos mostram que, na prática, muitos motoristas e entregadores enfrentam longas jornadas, riscos à segurança e incertezas quanto ao rendimento no fim do mês.
O crescimento do número de trabalhadores e a sua dependência desse modelo reforçam o debate sobre a regulamentação da atividade. A discussão envolve garantias trabalhistas, contribuição previdenciária, limites de jornada e responsabilidade das plataformas.
O futuro dos motoristas de aplicativo no Brasil
Diante do avanço tecnológico e do aumento do número de profissionais no setor, especialistas defendem que o Brasil precisa discutir com seriedade a formalização desses trabalhadores. Propostas para criar uma categoria jurídica específica e garantir direitos básicos, como descanso remunerado e acesso à previdência, já tramitam no Congresso Nacional.
Enquanto essas mudanças não ocorrem, motoristas como Marcus, Marcelo e Lucas seguem acelerando pelas ruas brasileiras, equilibrando metas pessoais, riscos diários e o desejo de manter sua principal fonte de sustento.
Com informações de: O Dia
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