O bloco formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul — agora ampliado com Egito, Etiópia, Irã e Emirados Árabes Unidos — está prestes a colocar em operação uma das suas iniciativas mais ambiciosas: o BRICS Pay. Apelidado informalmente de “Pix Global”, o novo sistema de liquidação financeira internacional é uma tentativa ousada de criar alternativas ao domínio do dólar nas transações internacionais.
A proposta, discutida desde 2018, ganhou força após a 16ª Cúpula do BRICS, realizada na Rússia, em outubro de 2024. Os países reafirmaram o compromisso de acelerar a integração econômica por meio de um sistema próprio, mais ágil, barato e autônomo.
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O que é o BRICS Pay?
Uma alternativa ao SWIFT e ao dólar
O BRICS Pay é um sistema de pagamentos interbancários transnacional, que utiliza tecnologias de ponta como blockchain, QR codes e carteiras digitais. Ele permitirá transações em tempo real entre os países-membros, com liquidação em moedas locais, reduzindo a necessidade de conversões em dólar e eliminando custos intermediários.
Embora não seja uma moeda única, o BRICS Pay busca ser uma ponte entre os sistemas nacionais de pagamentos instantâneos.
Tecnologia por trás do sistema
No centro da plataforma está o Decentralized Cross-border Messaging System (DCMS), desenvolvido pela Universidade Estatal de São Petersburgo. A tecnologia é uma alternativa descentralizada ao sistema SWIFT, que atualmente domina o mercado de transferências internacionais, mas está sujeito a sanções e controle ocidental.
Principais características do DCMS:
- Operação sem um controlador central
- Alta capacidade de processamento: até 20 mil mensagens por segundo
- Uso de múltiplos protocolos de criptografia
- Funcionamento mesmo sem conexão simultânea entre usuários
- Código aberto, sem tarifas obrigatórias
Reações internacionais: o desconforto dos EUA

Trump reage com ameaças e tarifas
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, manifestou forte oposição à iniciativa. Chamando o BRICS de “grupo antiamericano”, Trump prometeu retaliar com tarifas de até 10% sobre importações vindas de países aliados ao bloco.
Além disso, o governo norte-americano aumentou para 50% as tarifas sobre produtos brasileiros e iniciou uma investigação contra o Pix, alegando práticas discriminatórias contra empresas dos EUA.
“Reduzir o papel do dólar é uma ameaça direta à nossa supremacia econômica”, declarou Trump em entrevista à Fox News.
Rivalidade geopolítica em ascensão
Especialistas apontam que a disputa em torno do BRICS Pay é um novo episódio da guerra econômica entre potências emergentes e os Estados Unidos. O avanço do bloco, somado à expansão do Novo Banco de Desenvolvimento (NBD), reforça a tendência de multipolaridade no sistema financeiro global.
A integração entre os sistemas nacionais
Conexão entre Pix, UPI, SBP, IBPS e PayShap
O sucesso do BRICS Pay depende da integração dos sistemas de pagamento já existentes nos países-membros. Esse processo de interoperabilidade é tecnicamente complexo, mas vem sendo conduzido com atenção especial às moedas digitais emitidas pelos bancos centrais.
Sistemas que estão sendo conectados:
- Pix (Brasil): 227 milhões de transações diárias em setembro de 2025
- SBP (Rússia): Sistema baseado em números de telefone e dados bancários
- UPI (Índia): Interface com forte adesão desde 2010
- IBPS (China): Suporte a múltiplos canais e transferência em yuan
- PayShap (África do Sul): Solução recente de pagamentos instantâneos
Papel do Drex na integração
No Brasil, a digitalização da moeda nacional por meio do Drex (real digital) será uma peça-chave na integração com o BRICS Pay. O Drex permitirá operações programáveis, contratos inteligentes e conversão automática em moedas locais.
O país, que assumirá a presidência rotativa do bloco em 2026, planeja liderar os esforços de padronização e remoção de barreiras tributárias e cambiais.
Vantagens econômicas para o Brasil
Redução de custos cambiais
Atualmente, o comércio com países como China e Índia depende majoritariamente do dólar. Com o BRICS Pay, exportadores brasileiros poderão negociar diretamente em yuans, rúpias ou rublos, o que reduz custos de conversão e exposição à volatilidade cambial.
Expansão para novos mercados
Setores como agronegócio, mineração e energia devem se beneficiar com a possibilidade de transações diretas com mercados em expansão, como Irã e Emirados Árabes Unidos. A eliminação do dólar como intermediário pode tornar o Brasil mais competitivo e atrativo para investimentos estrangeiros.
Proteção contra sanções
Segundo o professor Marco Aurélio dos Santos Sanfins, da Universidade Federal Fluminense, a nova arquitetura financeira internacional representa também uma estratégia de defesa contra sanções unilaterais impostas por potências ocidentais.
“O BRICS Pay reduz a vulnerabilidade a sanções e amplia a soberania econômica dos países envolvidos”, afirma.
Projeções e impacto global
Desafios técnicos e diplomáticos
Embora o projeto seja ambicioso, há obstáculos a vencer. A harmonização de regulações, segurança cibernética, auditoria cruzada entre os países e adesão política dos novos integrantes são questões em debate constante.
Além disso, os Estados Unidos e União Europeia acompanham de perto o desenvolvimento da iniciativa, com movimentos de contraofensiva nos bastidores diplomáticos e econômicos.
Previsões para 2030
Economistas estimam que, até 2030, o BRICS Pay poderá movimentar centenas de bilhões de dólares por ano em transações, desafiando diretamente o domínio do SWIFT.
Essa transformação pode atrair novos interessados. A Arábia Saudita, que está em processo de adesão ao bloco, já demonstrou interesse na plataforma, especialmente para facilitar transações energéticas em moedas locais.
Fortalecimento do NBD
O Novo Banco de Desenvolvimento, instituição financeira do BRICS, estuda a criação de uma linha de garantias multilaterais para apoiar transações realizadas no BRICS Pay. Isso permitirá a redução dos riscos de crédito e o aumento da confiança entre empresas e governos.
Um novo capítulo para o comércio internacional

Multipolaridade econômica
O avanço do BRICS Pay é um marco na consolidação de um sistema financeiro multipolar. A iniciativa simboliza a busca por maior independência, resiliência e equidade nas relações comerciais internacionais.
Papel do Brasil no novo cenário
Para o Brasil, a plataforma representa não apenas uma oportunidade econômica, mas também estratégica. Ao liderar os próximos passos da integração do BRICS Pay, o país pode assumir papel central na redefinição das regras do comércio global.
A adesão a um sistema de pagamentos alternativo ao dólar pode ser a chave para consolidar o Brasil como protagonista no Sul Global.
Imagem: rafapress / Shutterstock.com
