O Butão, pequeno reino budista situado no coração do Himalaia, conhecido por sua filosofia do “Índice Nacional de Felicidade Bruta”, ganhou os holofotes por um motivo inusitado: tornou-se um pioneiro em mineração de Bitcoin.
Butão transforma 40% de seu PIB em Bitcoin: o pequeno reino do Himalaia aposta na mineração e reserva digital
O Butão converte parte expressiva de sua energia hidrelétrica em mineração de Bitcoin, acumulando US$ 1,3 bilhão em BTC – equivalente a 40% de seu PIB.
Hoje, estima-se que o país amealhou cerca de US$ 1,3 bilhão em BTC, o que representa impressionantes 40% de seu PIB. Em um movimento sem precedentes, o Butão aproveita sua abundante energia hidrelétrica para minerar criptomoedas e impulsionar sua economia, sinalizando uma nova era digital.
Leia mais:
Uma estratégia que mistura tradição, tecnologia e economia
Eletricidade barata como combustível para o bitcoin
Situado entre a China e a Índia, o Butão possui recursos hídricos abundantes e infraestrutura elétrica eficiente — justamente o que os mineradores de Bitcoin valorizam.
Desde 2020, o país encara a criptomoeda como uma reserva de valor comparável ao ouro, implementada pelo Druk Holding and Investments, fundo soberano alinhado à visão do rei Jigme Khesar Namgyel Wangchuck.
O modelo traz múltiplos benefícios:
- Aproveitamento da energia excedente, especialmente durante o verão;
- Inserção do país no mercado global de tecnologia;
- Diversificação da economia diante da instabilidade do turismo.
Gênese da operação: R&D e determinação local
A iniciativa começou modestamente, em 2019, na divisão de pesquisa do fundo soberano. Após testes no escritório, houve investimentos em hardware robusto — mesmo com equipe restrita: apenas cinco funcionários montaram as primeiras máquinas durante o auge da pandemia.
O local escolhido, próximo ao Dochula Pass, alia clima ameno e proximidade da rede elétrica. A expertise técnica foi obtida remotamente, com apoio de profissionais de Singapura e Malásia.
Impacto econômico: bitcoin substitui exportações hidrelétricas

Substituindo receitas tradicionais por mineração
A economia butanesa, historicamente sustentada por energia hidrelétrica, agricultura e turismo, enfrentou abalos durante a pandemia. Com cerca de “10% da população” migrando em busca de emprego, o país precisava de novas fontes de renda. O investimento em mineração mostrou-se uma resposta eficaz.
Segundo o ex-primeiro-ministro Tshering Tobgay, o rendimento com Bitcoin compensa quedas nas exportações de energia, que financiavam 40% do orçamento nacional:
“As operações de mineração consomem tanta eletricidade que a venda de energia sozinha não cobriria a folha de pagamento” – afirmou Tobgay.
Em 2023, o governo vendeu US$ 100 milhões em BTC para pagar reajustes salariais aos servidores públicos — sem tocar no orçamento convencional.
Parcerias estratégicas: Bitdeer e Green Digital
Acordo com Bitdeer aumenta reservas internacionais
Em 2023, o Butão firmou parceria com a Bitdeer Technologies, mineradora de Singapura, para a construção de duas minas. A Bitdeer mantém toda a produção de BTC, enquanto o governo butanês recebe pagamentos em dólar, reforçando suas reservas cambiais.
A administração estatal opera sobre o nome de Green Digital, controlando pelo menos seis minas ativas, conforme satélites da Planet Labs. Esta estrutura dual permite expandir capacidade energética, proteger reservas e manter sigilo operacional.
Desafios internos e governança cripto
Transparência em xeque
Ex-funcionários questionaram a opacidade do projeto e sua gestão, desconhecendo que o Butão mantinha reservas de Bitcoin equivalentes a 40% de seu PIB. A revelação veio apenas após a notícia dos aumentos salariais. Para muitos, o BTC foi uma surpresa:
“Eu não conhecia o bitcoin… Ele representa uma diversificação da nossa economia”, relatou o analista Chencho Tshering.
O risco da volatilidade cripto
O maior desafio é o próprio Bitcoin. Com variações bruscas de preço, quedas significativas podem comprometer os cofres nacionais. Para mitigar isso, o governo planeja manter o estoque e não ampliar a infraestrutura, focando em atualizações e boas práticas.
Bitcoin na vida cotidiana: Gelephu Mindfulness City
Integrando cripto na economia local
O Butão também testa a aceitação da criptomoeda pela população. Em Gelephu Mindfulness City, uma zona administrativa especial, turistas podem pagar com mais de 100 criptomoedas por voos, vistos, hospedagem e serviços. A cidade pretende lançar sua própria moeda digital e integrar o BTC ao cotidiano:
“É como o sal na sua comida”, afirmou Tshering, ex-primeiro-ministro responsável pela cidade.
O Butão como modelo global em adoção estatal de bitcoin
Colocado ao lado de outros atores como El Salvador, onde o BTC é moeda oficial desde 2021, o Butão se destaca por sua abordagem híbrida: mineração estatal, sem crise de adoção popular ou populismo expositivo. Ele figura entre os três maiores estoques públicos de Bitcoin — perdendo apenas para EUA e Reino Unido, segundo a Arkham.
Essa estratégia bem-humorada elevou o país ao patamar de pioneiro global em criptoeconomia institucional.
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Visão de especialistas e até onde vai essa estratégia?
Especialistas em blockchain analisam
O CEO do fundo soberano, Ujjwal Deep Dahal, compara o BTC a uma “bateria de energia”: converte disponibilidade hidrelétrica em riqueza digital. Para analistas, o modelo mostra:
- Diversificação econômica sustentável;
- Aumento da liquidez internacional;
- Mitigação de riscos macroeconômicos.
Preocupações em pauta
Por outro lado, críticos apontam riscos:
- Volatilidade extrema: uma queda repentina no BTC afetaria 40% das reservas nacionais;
- Falta de transparência: reservas mantidas em segredo dificultam controle público;
- Interdependência energética: priorizar mineração pode limitar futuras exportações de energia.
O futuro do Butão cripto: expansão, inovação e cautela
Projetos para o médio e longo prazo
O Butão planeja:
- Atualizar equipamentos sem expandir minas;
- Incorporar criptomoedas no dia a dia da economia local;
- Avaliar o sucesso de Gelephu como modelo para novas regiões.
A estratégia é clara: consolidar o BTC como reserva e manter o crescimento com disciplina.
Conclusão: Butão demonstra que até pequenos países podem inovar com bitcoin

O caso do Butão prova que até países pequenos podem explorar de forma criativa a mineração de Bitcoin. Com energia limpa e política sustentável, o reino transformou parte significativa de seu PIB em reservas digitais. Entre os benefícios, destacam-se:
- Diversificação econômica;
- Proteção frente a choques internacionais;
- Visibilidade global como modelo digital.
Mas não faltam desafios:
- Volatilidade inerente ao BTC;
- Necessidade de transparência;
- Manutenção de equilíbrio entre mineração e fornecimento interno de energia.
Se bem conduzida, a operação do Butão pode servir de modelo para outros países. É um exemplo de como unir tradição e tecnologia, resiliência e inovação — um pequeno reino no Himalaia ensinando ao mundo que uma estratégia inteligente pode gerar riqueza, felicidade e futuro.
