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Nova apuração do Cade pode cassar aprovação da aquisição da farmácia pelo Mercado Livre

Cade reabre investigação sobre compra da Cuidamos pelo Mercado Livre por possível omissão na intenção de vender medicamentos.

Vitória MonckesPor Vitória Monckes6 min de leitura
Empresas Valiosas - Mercado Livre

O Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) reabriu, na quarta-feira, 15 de outubro de 2025, o caso envolvendo a compra da farmácia Cuidamos pelo Mercado Livre. A decisão atende a um pedido da Associação Brasileira das Redes de Farmácias e Drogarias (Abrafarma), que acusa o marketplace de omitir informações ao Conselho durante o processo de aprovação da operação. A nova investigação pode levar à cassação da decisão que autorizou a aquisição e à aplicação de multa ao Mercado Livre, caso se confirme a irregularidade.

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Imagem: Alf Ribeiro / shutterstock.com

Entenda o caso

Aquisição da Cuidamos

Em 2023, o Mercado Livre anunciou a compra da Cuidamos, uma empresa farmacêutica com atuação digital e foco em logística especializada para produtos de saúde. À época, o Cade aprovou a transação sob a justificativa de que a operação não resultaria em concentração de mercado significativa nem levantaria preocupações concorrenciais, já que o Mercado Livre não atuaria diretamente no varejo de medicamentos.

A versão do Mercado Livre era a de que sua atuação se limitaria à intermediação tecnológica, ou seja, apenas como marketplace para outras farmácias e distribuidores, sem realizar diretamente a venda ou entrega de remédios.

O que motivou a reabertura da investigação

Pedido da Abrafarma

A reabertura foi motivada por um pedido da Abrafarma, que representa as principais redes de farmácias do país. A associação argumenta que o Mercado Livre teria fornecido informações enganosas ou incompletas ao Cade durante o processo de análise da operação, principalmente no que diz respeito à sua real intenção de participar do varejo de medicamentos.

Segundo a entidade, houve indícios — como trocas de e-mails — de que o Mercado Livre já preparava ações concretas para atuar de forma mais direta no mercado regulado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), algo que exigiria outra abordagem legal e poderia configurar concorrência desleal.

Suspeita de omissão de dados

O Cade decidiu então criar um novo processo administrativo, com número de autos distinto, para analisar as alegações da Abrafarma. A nova apuração irá se debruçar sobre a veracidade das informações prestadas pelo Mercado Livre e o teor das comunicações entre as partes, incluindo:

  • E-mails trocados entre o Cade e o Mercado Livre;
  • Correspondências entre a Abrafarma e o Cade;
  • Interações entre o Mercado Livre e a farmácia Cuidamos.

Se ficar comprovado que houve omissão de informações relevantes ou distorções intencionais, o Cade poderá revogar a aprovação da operação, o que seria um fato inédito no setor, além de aplicar multas e outras penalidades previstas na legislação de defesa da concorrência.

Posicionamento das partes envolvidas

Mercado Livre
casa.da.photo/shutterstock.com

Mercado Livre nega irregularidades

Em nota oficial, o Mercado Livre afirmou que o despacho do Cade representa apenas uma solicitação formal de análise de novas informações, com número próprio de autos, e não configura, por si só, uma punição ou reversão da decisão anterior.

“O Mercado Livre reforça, como tem feito desde o início do processo de aquisição da farmácia, que atua sempre em conformidade com a legislação vigente”, diz a empresa.

A gigante do e-commerce reiterou que não atua nem pretende atuar diretamente no varejo de medicamentos, e que sua plataforma segue as normas da Anvisa para a venda de medicamentos por meio de terceiros devidamente autorizados.

Abrafarma vê risco à concorrência

Já a Abrafarma entende que a entrada do Mercado Livre no setor, mesmo que disfarçada de intermediação, representa uma ameaça à concorrência justa, sobretudo pela vantagem logística e tecnológica do marketplace. A associação teme que o grupo esteja se valendo de estruturas próprias para fazer vendas diretas, o que infringiria as regras do setor farmacêutico.

Segundo representantes da entidade, a aquisição da Cuidamos é parte de um movimento mais amplo de consolidação e entrada agressiva do Mercado Livre em segmentos regulados, sem a devida transparência junto às autoridades.

O papel do Cade e a figura do relator

Conselheiro Gustavo Augusto

O processo está sob relatoria do conselheiro Gustavo Augusto, conhecido por decisões técnicas e posições firmes em defesa da concorrência. Sua atuação já foi determinante em casos envolvendo grandes players de tecnologia e pode ser decisiva na atual apuração.

Potenciais desdobramentos

Se o Cade concluir que houve infração processual grave, poderá:

  • Rever a autorização da compra da Cuidamos;
  • Aplicar multas que podem ultrapassar R$ 60 milhões;
  • Impor restrições ao modelo de atuação do Mercado Livre no setor de medicamentos.

Também é possível que a autarquia determine ajustes de conduta ou até a desfusão parcial da operação, dependendo da gravidade dos fatos apurados.

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Impacto para o mercado farmacêutico

Disputa por um setor bilionário

O varejo farmacêutico no Brasil movimenta mais de R$ 160 bilhões por ano, segundo dados da IQVIA. É um dos segmentos mais regulados do país, com rígidos controles de comercialização, armazenamento e entrega.

A entrada de marketplaces digitais nesse setor é vista com cautela por entidades como a Abrafarma, que temem desequilíbrios concorrenciais, principalmente em relação à logística de entrega e políticas de preços agressivas que poderiam afetar redes tradicionais.

Regulamentação e Anvisa

A legislação brasileira proíbe a venda de medicamentos por empresas não autorizadas pela Anvisa, o que inclui plataformas digitais que operam diretamente como farmácias. Para atuar no setor, é necessário ter uma licença sanitária específica, farmacêutico responsável e seguir normas rígidas.

Caso se confirme que o Mercado Livre atua de forma direta — e não apenas como intermediário —, o grupo também poderá enfrentar sanções da Anvisa, além das implicações concorrenciais tratadas pelo Cade.

Cenário jurídico e concorrencial

Precedente relevante

A reabertura do caso cria um precedente relevante na relação entre plataformas digitais e mercados regulados. A análise do Cade será acompanhada de perto por outros setores, como o de saúde, bancário e seguros, onde o avanço de gigantes da tecnologia já gerou tensões com órgãos reguladores.

Além disso, a decisão final pode influenciar o modelo de transparência nas operações de aquisição, sobretudo no que diz respeito à declaração de intenções futuras, algo que até então não costumava ser profundamente investigado.

O que esperar nos próximos meses

Mercado Livre
Imagem: Alison Nunes Calazans / shutterstock.com

O novo processo ainda está em fase inicial, com o Cade coletando documentos e analisando os e-mails trocados entre as partes. A expectativa é de que as primeiras decisões preliminares sejam divulgadas até o fim de 2025, e uma conclusão definitiva, apenas em 2026.

A depender do resultado, o caso pode se tornar emblemático na relação entre marketplaces, concorrência leal e regulação de serviços sensíveis, como o de medicamentos.

Imagem: Reprodução / Mercado Livre

Vitória Monckes

Autor

Vitória Monckes

Vitória Monckes é turismóloga, comissária de voo e futura enfermeira. No Seu Crédito Digital, atua como redatora especializada na tradução clara e acessível de políticas públicas, direitos sociais, previdência, programas assistenciais e medidas econômicas. Sua missão é transformar temas governamentais complexos em conteúdos compreensíveis e úteis para os brasileiros, contribuindo para decisões mais conscientes no dia a dia.

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