Com o crescimento acelerado do uso de carro elétrico no Brasil, a demanda por pontos de recarga tem aumentado consideravelmente.
Carregamento de carro elétrico em lugar fechado: mito ou perigo real?
Carregar carro elétrico em locais fechados pode ser arriscado, dizem especialistas. Entenda os riscos, normas e soluções para segurança.
Apartamentos, condomínios, estacionamentos comerciais e shoppings buscam se adaptar a essa nova realidade, muitas vezes oferecendo infraestrutura elétrica preparada para o carregamento dos veículos.
Porém, a falta de regulamentações claras e a preocupação com a segurança têm provocado alertas entre engenheiros, arquitetos e órgãos reguladores, levantando a questão: é perigoso carregar carros elétricos em locais fechados?
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A recomendação do Crea de Sergipe e os riscos identificados

No dia 3 de junho de 2025, o Conselho Regional de Engenharia, Agronomia e Agrimensura (Crea) do estado de Sergipe divulgou uma nota técnica que gera repercussão nacional.
O documento recomenda que os carros elétricos não sejam carregados em condomínios, garagens subterrâneas, shoppings e estacionamentos fechados semelhantes até que regras de segurança mais definidas sejam aprovadas.
Por que evitar locais fechados para recarga?
Segundo o Crea, as baterias de íons de lítio usadas na maioria dos veículos elétricos podem provocar incêndios extremamente intensos, com temperaturas que ultrapassam os 1.000 °C — muito superiores aos incêndios convencionais, que atingem cerca de 600 °C e já comprometem a estrutura em até 55%.
Em incêndios dessa magnitude, há risco real de colapso parcial ou total das estruturas, além da liberação de vapores tóxicos, os quais a ventilação deficiente dos ambientes fechados não conseguiria dispersar adequadamente.
O triângulo e o tetraedro do fogo: um novo desafio
O combate a incêndios tradicionais segue a lógica do triângulo do fogo, que envolve calor, combustível e comburente.
Entretanto, as baterias de lítio apresentam uma reação química própria — o que os especialistas chamam de “tetraedro do fogo” — que exige técnicas e equipamentos específicos para o combate. O uso de água nesses casos é contraindicado, pois pode alimentar a reação química, aumentando o fogo.
Para apagar incêndios em baterias de lítio, é necessário um extintor classe D, que utiliza um pó químico especial, e custa em torno de R$ 3.000. Essa especificidade encarece e dificulta a prevenção em ambientes residenciais e comerciais.
Casos recentes que ilustram os riscos
No Brasil, já houve episódios que evidenciam a complexidade desses incêndios. Um caso emblemático ocorreu em Itajaí (SC), em maio de 2024, quando um incêndio em garagem inicialmente foi atribuído a uma scooter elétrica.
Porém, investigações posteriores mostraram que o foco inicial foi um carro flex, e a scooter apenas teve danos colaterais — sua bateria permaneceu intacta. Isso reforça que, apesar dos riscos das baterias, os carros a combustão também representam perigo considerável.
Outro incidente aconteceu em São Paulo em dezembro de 2024, envolvendo um ônibus elétrico que bateu em um poste e pegou fogo. A estrutura isolante das baterias evitou a reação química perigosa, mas as chamas consumiram cabos e carroceria.
A Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE) destaca que veículos a combustão têm até 60 vezes mais chance de pegar fogo durante sua vida útil, comparados aos elétricos.
A falta de normas e o caminho para a regulamentação
Atualmente, não existem normas nacionais específicas que regulem o carregamento de carros elétricos em ambientes fechados, como garagens de prédios e estacionamentos subterrâneos.
A preocupação é que os modelos estruturais dessas edificações não foram projetados para suportar os impactos de incêndios em baterias de íon-lítio.
Iniciativas em São Paulo para definir padrões
Na última semana de maio, bombeiros de São Paulo organizaram um workshop em Franco da Rocha para estudar incêndios de veículos elétricos, híbridos e a combustão em um prédio-laboratório.
Foram queimados seis carros diferentes, e as chamas foram monitoradas com equipamentos especiais que medem temperatura e gases tóxicos liberados.
O objetivo é desenvolver uma norma nacional que padronize os procedimentos de segurança no carregamento de carros elétricos. Técnicas avançadas, como o uso de cortinas corta-fogo e sistemas de exaustão, são consideradas para evitar a propagação de incêndios e o acúmulo de gases tóxicos.
Perspectivas para regulamentação
Segundo o coronel Max Schroeder, da Escola Superior de Bombeiros de São Paulo, a regulamentação nacional deve sair em breve, trazendo regras mais rígidas para os eletropostos em edifícios residenciais e comerciais.
O documento final deverá adaptar práticas internacionais à realidade brasileira, incluindo a limitação da potência instalada e a distância mínima entre veículos durante o carregamento.
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Como funciona o carregamento dos carros elétricos?
O carregamento dos veículos elétricos acontece por meio de estações chamadas eletropostos, que podem ser instaladas em residências, condomínios, postos comerciais e vias públicas. Existem diferentes tipos de carregamento:
- Nível 1: uso da tomada residencial comum, com carregamento mais lento.
- Nível 2: carregadores dedicados com potência maior, instalados em residências e condomínios.
- Carregamento rápido: estações públicas com alta potência para recarga em poucos minutos.
A expansão do mercado tem impulsionado a instalação desses pontos, mas a segurança ainda é um desafio que precisa ser resolvido para garantir o uso seguro em ambientes coletivos.
Medidas recomendadas para quem possui carro elétrico
Enquanto as normas definitivas não são publicadas, especialistas recomendam algumas práticas para minimizar riscos:
- Priorizar o carregamento em locais abertos, com boa ventilação natural;
- Manter distância mínima de três metros entre veículos durante o carregamento;
- Garantir que a infraestrutura elétrica seja adequada para suportar a demanda;
- Realizar manutenção preventiva nos sistemas de carregamento;
- Em condomínios, promover diálogo entre moradores, administração e especialistas para avaliar riscos e soluções;
- Conhecer as especificações técnicas do veículo e dos equipamentos fornecidos pelo fabricante.
Futuro das baterias e segurança nos veículos elétricos

Para reduzir os riscos de incêndio, fabricantes de veículos têm investido em tecnologias como:
- Baterias de estado sólido: mais estáveis e menos propensas a reações térmicas;
- Revestimentos reforçados dos compartimentos de bateria;
- Software avançado de monitoramento e proteção contra sobrecarga e curto-circuito.
Essas inovações tendem a tornar os carros elétricos cada vez mais seguros, o que pode facilitar a aprovação de normas mais flexíveis para carregamento em ambientes fechados.
Conclusão
O crescimento dos veículos elétricos no Brasil é uma tendência irreversível, e a infraestrutura precisa acompanhar esse movimento para garantir a segurança dos usuários e das edificações.
A recomendação atual para evitar o carregamento em locais fechados visa prevenir incêndios de alta intensidade e a consequente perda estrutural e riscos à saúde.
A expectativa é que, com a regulamentação nacional e a evolução tecnológica, os donos de carros elétricos possam desfrutar da praticidade de recarregar seus veículos em condomínios e estacionamentos com segurança comprovada.
Enquanto isso, o diálogo entre órgãos técnicos, poder público, setor automotivo e consumidores é fundamental para construir soluções eficazes e compatíveis com a realidade brasileira.
