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É seguro carregar um carro elétrico em poste de iluminação? Entenda os riscos

Na Zona Oeste do Rio de Janeiro, um flagrante inusitado viralizou nas redes sociais: um carro híbrido plug-in estava sendo carregado diretamente de um poste da rede elétrica pública. As imagens mostravam um fio ligando o sedã — de aparência semelhante ao modelo BYD King, da montadora chinesa — diretamente a uma fonte de energia de rua, prática considerada ilegal, perigosa e que pode configurar furto de energia elétrica.

A cena chamou a atenção de especialistas em energia e mobilidade elétrica, que alertaram para os riscos severos de segurança, além das consequências jurídicas e financeiras para quem realiza esse tipo de ligação clandestina.

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Qual é o modelo do carro envolvido?

Carro híbrido
Imagem: BYD King/Divulgação

Embora o vídeo não permita identificar com clareza o modelo exato do carro, suas linhas e rodas são muito parecidas com as do BYD King, um sedã híbrido plug-in que vem ganhando espaço no mercado brasileiro.

O BYD King não é um veículo 100% elétrico, mas possui um sistema híbrido que permite rodar longos trechos no modo elétrico, o que exige recargas frequentes para maximizar a economia de combustível.

As versões do BYD King no Brasil

BYD King GL

  • Bateria de 8,3 kWh
  • Autonomia elétrica de até 32 km

BYD King GS

  • Bateria de 18,3 kWh
  • Autonomia elétrica de até 80 km

Ambas as versões podem ser carregadas em tomadas convencionais ou em carregadores públicos. O que se viu no vídeo, no entanto, foi uma ligação direta a um poste da rede elétrica, o que configura uma ligação clandestina — popularmente conhecida como “gato”.

O que é um “gato” de energia elétrica?

Entenda o funcionamento

O “gato” é uma conexão direta à rede elétrica feita sem passar pelo medidor de energia da distribuidora. Com isso, o consumo não é registrado, caracterizando furto de energia, crime previsto no artigo 155 do Código Penal Brasileiro.

No caso do carro, a energia foi desviada diretamente do poste para alimentar o sistema de recarga do veículo, sem nenhum controle, medição ou segurança.

Impacto para os consumidores

Segundo a Enel, concessionária que atende o Rio de Janeiro, fraudes como essa afetam toda a rede de consumidores. Isso acontece porque as “perdas comerciais” (como são chamados os furtos e fraudes nas tarifas de energia) são calculadas mensalmente e diluídas entre todos os clientes da região.

“As fraudes e furtos contribuem para tornar a conta de luz mais cara para todos os consumidores”, afirma a concessionária.

É tecnicamente possível carregar um carro em um poste?

Especialistas explicam

O engenheiro mecânico Breno Henrique afirma que, tecnicamente, é possível extrair energia de um poste, pois eles operam com energia elétrica trifásica ou bifásica, dependendo da localidade. Esse mesmo tipo de ligação já é feito ilegalmente em casas e estabelecimentos em áreas de vulnerabilidade.

“É possível, mas não é seguro e nem permitido. Esse tipo de adaptação pode trazer graves consequências à rede elétrica e à segurança das pessoas”, alerta o engenheiro civil Giovanni Gallo.

Riscos envolvidos

Choques elétricos

A ausência de proteções adequadas pode resultar em choques de alta tensão, com risco de morte.

Curto-circuitos e incêndios

A energia fornecida sem estabilização pode gerar curtos e até incêndios em transformadores e veículos.

Danos ao veículo

Breno alerta que as oscilações de energia podem danificar as baterias dos carros híbridos ou elétricos, reduzindo sua vida útil e, em casos extremos, provocando combustões.

Perda da garantia

De acordo com Thiago Castilha, diretor da E-Wolf, esse tipo de ligação pode invalidar a garantia do veículo. Carros elétricos possuem sensores que bloqueiam o carregamento em caso de energia irregular, mas uma ligação malfeita pode causar danos irreversíveis ao sistema de recarga.

O que diz a legislação sobre o furto de energia?

Carro híbrido
Imagem: Paulo Pinto / Agência Brasil

A ligação direta ao poste configura crime de furto, com pena de um a oito anos de reclusão, conforme o Código Penal. A Enel informa que apenas seus técnicos autorizados podem realizar intervenções na rede elétrica.

Além da detenção, o infrator pode ser obrigado a pagar retroativamente o valor da energia desviada, acrescido de multas.

Quem responde pelo crime?

Não apenas quem executa fisicamente a fraude, mas também o titular da conta de energia ou o proprietário do veículo pode ser responsabilizado. A legislação prevê coautoria em fraudes contra o sistema elétrico.

BYD alerta para riscos

Em nota enviada ao g1, a montadora BYD afirmou que ligações clandestinas podem comprometer os sistemas de proteção dos veículos e causar acidentes graves.

“Conectar um veículo diretamente ao poste caracteriza furto de energia e descumpre normas técnicas da ABNT, como a NBR 5410 e a NBR 17019”, destaca a empresa.

Essas normas regulam, respectivamente, o dimensionamento de circuitos de baixa tensão e os requisitos para carregadores veiculares. A BYD reforça que a recarga deve ser feita com infraestrutura elétrica dedicada, seja com carregador portátil, wallbox ou estação pública homologada.

Alternativas legais de carregamento

Tomadas domésticas

Veículos híbridos plug-in e elétricos podem ser carregados em tomadas comuns (desde que aterradas e em bom estado), mas o tempo de recarga é maior.

Wallbox residencial

Instalações específicas com carregadores rápidos (wallbox) são recomendadas para quem usa o carro com frequência e busca segurança elétrica.

Estações públicas

Presentes em shoppings, supermercados, lojas, aeroportos e universidades, os carregadores públicos são homologados e seguros.

O futuro da mobilidade elétrica e o papel da infraestrutura

Carro híbrido
Imagem: Freepik

O episódio mostra que, apesar do avanço da mobilidade elétrica no Brasil, a infraestrutura ainda não acompanha o crescimento da frota de veículos eletrificados. Sem pontos suficientes e de fácil acesso, usuários podem recorrer a alternativas perigosas e ilegais.

Expansão da rede de carregadores

Especialistas defendem que o governo e empresas privadas acelerem o investimento em pontos de carregamento e promovam incentivos à instalação residencial, como subsídios e linhas de crédito.

Educação e fiscalização

Além disso, é essencial investir em campanhas educativas sobre os riscos e ilegalidades das ligações clandestinas, e reforçar a fiscalização por parte das distribuidoras e autoridades.

Conclusão

O flagrante do carro híbrido sendo carregado em um poste da Zona Oeste do Rio de Janeiro acende um sinal de alerta para autoridades, consumidores e empresas. O episódio evidencia o perigo das gambiarras elétricas, os riscos à segurança pública e os custos compartilhados por toda a sociedade.

Com o aumento da frota de carros eletrificados no país, é urgente investir em infraestrutura de carregamento segura e acessível para evitar tragédias, sobrecarga no sistema e práticas criminosas que impactam o bolso de todos.