O setor automotivo brasileiro se prepara para uma nova guinada com a regulamentação do Programa de Mobilidade Verde e Inovação (Mover). Aprovado recentemente pelo Congresso Nacional e já sancionado pelo governo federal, o programa amplia as diretrizes do antigo Rota 2030, incorporando agora medidas voltadas para a sustentabilidade e inovação industrial.
Entre as novidades mais esperadas está a criação do Carro Sustentável, programa de incentivo que pode reduzir os preços dos modelos mais acessíveis do mercado e retomar o conceito de “carro popular”.
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A iniciativa surge paralelamente ao novo IPI Verde, que deve substituir o atual Imposto sobre Produtos Industrializados com base em critérios de emissão de poluentes.
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O que é o programa Mover?

Continuação do Rota 2030
O Mover é uma política pública de longo prazo voltada ao setor automotivo nacional. Ele dá continuidade ao Rota 2030, implementado em 2018, e inclui diretrizes voltadas à inovação tecnológica, eficiência energética, segurança veicular, descarbonização da mobilidade e produção local de veículos e componentes.
Com validade até 2032, o programa prevê R$ 19,3 bilhões em créditos financeiros para investimentos em pesquisa e desenvolvimento. As empresas que aderirem ao Mover poderão abater tributos federais ao comprovar investimentos em tecnologias sustentáveis, produção nacional e descarbonização.
Introdução do IPI Verde
Um dos pilares do novo programa é a introdução do IPI Verde, um imposto com sistema “bônus-malus” que reduz a carga tributária sobre veículos mais eficientes e aumenta a de modelos mais poluentes.
O cálculo da alíquota levará em consideração critérios como:
- Tipo de combustível utilizado (etanol, gasolina, elétrico, híbrido);
- Nível de emissão de CO2;
- Eficiência energética;
- Potencial de reciclabilidade dos materiais;
- Produção em território nacional.
A regulamentação completa do IPI Verde deve ser anunciada na próxima semana pelo Ministério da Fazenda.
O que é o Carro Sustentável?
Um novo incentivo ao “carro popular”
Dentro do escopo do programa Mover, o governo prepara o lançamento do Carro Sustentável, que deve beneficiar veículos com motor 1.0 aspirado, flex, de até 90 cavalos de potência, fabricados exclusivamente no Brasil.
Diferente do modelo dos anos 1990 ou do incentivo de 2023, o foco agora será em critérios técnicos ligados à sustentabilidade. Segundo apuração do jornal Valor Econômico, o Carro Sustentável irá subsidiar ou aplicar descontos tributários diretamente sobre os veículos que se encaixarem nos parâmetros estabelecidos.
Critérios do programa
Até o momento, os critérios técnicos conhecidos incluem:
- Motor 1.0 aspirado (sem turbo);
- Potência máxima de 90 cv;
- Produção nacional obrigatória;
- Eficiência energética mínima;
- Potencial de reciclabilidade de componentes;
- Menor emissão de CO2.
Carros com motores turbinados, mesmo com cilindrada de 1.0, como Fiat Pulse, Fastback e Polo GTS, estão fora do escopo, assim como a maioria dos modelos elétricos, ao menos neste momento inicial.
Carros que poderão ser beneficiados

O novo programa deve incluir modelos de entrada das principais montadoras do Brasil. Veja a seguir alguns dos veículos elegíveis com base nas regras técnicas preliminares:
Chevrolet
- Onix e Onix Plus (versões MT e LT com motor 1.0 de até 82 cv)
Citroën
- Basalt Feel (motor 1.0 de até 75 cv)
- C3 Live, Live Pack e Feel (motor 1.0 de até 75 cv)
Fiat
- Argo (motor 1.0 de até 77 cv)
- Cronos Drive (motor 1.0 de até 75 cv)
- Mobi Like e Trekking (motor 1.0 de até 74 cv)
Hyundai
- HB20 e HB20S (Comfort e Limited, motor 1.0 de até 80 cv)
Peugeot
- 208 Active e Style (motor 1.0 de até 75 cv)
Renault
- Kwid Zen, Intense, Iconic e Outsider (motor 1.0 de até 71 cv)
Volkswagen
- Polo Track e Polo Robust (motor 1.0 de até 84 cv)
- Volkswagen Tera MPI (motor 1.0 de até 84 cv)
Histórico de programas semelhantes
Os incentivos de Itamar Franco nos anos 1990
Na década de 1990, o então presidente Itamar Franco implementou uma política de incentivo fiscal para veículos 1.0 como forma de democratizar o acesso ao automóvel. O programa impulsionou a indústria nacional e lançou clássicos como Fiat Uno Mille e VW Gol 1000.
O incentivo de 2023
Mais recentemente, em 2023, o governo lançou um programa com descontos que variavam de 1,5% a 10,96% para carros com preço até R$ 120 mil. Os estoques esgotaram em poucas semanas, e a medida teve que ser prorrogada para contemplar frotistas.
Críticas ao novo programa
Especialistas questionam foco em consumo
Apesar da intenção de promover veículos sustentáveis, especialistas do setor apontam que o foco do governo permanece excessivamente voltado ao consumo, e não à inovação estrutural.
Segundo Milad Kalume Neto, consultor independente do setor automotivo, o estímulo ao carro popular é uma medida que protege a indústria nacional de forma artificial, ao invés de investir em P&D (pesquisa e desenvolvimento) de tecnologias como baterias e sistemas híbridos leves.
“Sou favorável à nossa indústria, mas à uma competição plena. Esse tipo de incentivo aumenta a dependência da proteção estatal e não nos prepara para o futuro”, afirmou Milad ao CT Auto.
Falta de investimentos em tecnologia nacional
Outro ponto de crítica refere-se à ausência de um plano para fomentar cadeias produtivas sustentáveis, como fábricas de baterias e infraestrutura para veículos elétricos. Atualmente, o Brasil depende majoritariamente de importações para componentes-chave dos eletrificados.
Impactos esperados no mercado
Potencial de aquecer vendas
Com base nas experiências anteriores, é esperado que o Carro Sustentável gere uma corrida às concessionárias, especialmente entre consumidores que buscam o primeiro carro ou empresas frotistas.
O incentivo pode também melhorar os índices de renovação da frota nacional, hoje envelhecida, com milhões de veículos com mais de 15 anos de uso circulando nas ruas.
Proteção da indústria nacional
O programa também será lançado logo após o aumento da alíquota de importação de veículos eletrificados, que passou a vigorar em 1º de julho de 2025. A medida visa proteger o mercado local diante do avanço de marcas estrangeiras — sobretudo as chinesas — no setor de veículos elétricos e híbridos.
Quando começa o Carro Sustentável?

Governo ainda não confirmou datas
Até o momento, o governo federal ainda não oficializou o programa Carro Sustentável. A expectativa é que a regulamentação aconteça junto à divulgação do IPI Verde.
Pontos ainda não definidos incluem:
- Data de início e encerramento do programa;
- Percentual de desconto para cada modelo;
- Limites por CPF ou CNPJ;
- Critérios de financiamento associados.
A Anfavea (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores) declarou estar aguardando a publicação de um decreto oficial para se posicionar sobre o programa.
Conclusão: estímulo ou retrocesso?
O Carro Sustentável surge em um momento estratégico, quando o Brasil busca equilibrar crescimento industrial, combate às mudanças climáticas e acessibilidade ao transporte. Ainda que gere impacto positivo no consumo e possa impulsionar a indústria automotiva nacional, o programa levanta dúvidas quanto à sua efetividade estrutural.
Enquanto parte do setor comemora a possível volta do carro popular, especialistas defendem políticas que priorizem inovação tecnológica, produção de baterias e infraestrutura para veículos elétricos — elementos fundamentais para uma transição sustentável de longo prazo.

