Tracker salvou a GM no Brasil: entenda como o SUV virou o jogo
Poucas decisões têm tanto peso no mundo empresarial quanto o lançamento de um produto em um momento crítico. E foi exatamente isso que a General Motors (GM) experimentou entre o fim de 2019 e o início de 2020. Após anos de liderança com o Chevrolet Onix, a montadora enfrentou uma sequência de problemas técnicos e estratégicos que colocaram em xeque seu domínio no mercado brasileiro.
O que parecia um risco controlado tornou-se uma ameaça real. Mas a resposta viria de onde poucos esperavam: o SUV Tracker.
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A era de ouro do Onix e seu declínio inesperado

O surgimento de um campeão de vendas
Lançado em 2012, o Chevrolet Onix representou a guinada que a GM precisava no Brasil. Criado por Carlos Barba, o hatch rapidamente superou o Volkswagen Gol, até então líder absoluto por quase três décadas. Com um projeto equilibrado, câmbio automático e o sistema multimídia MyLink, o modelo caiu no gosto do consumidor brasileiro e logo se tornou o carro mais vendido do país.
A versão sedã, batizada de Prisma, também alcançou bons resultados, consolidando a liderança da Chevrolet entre 2016 e 2020. O Onix foi hexacampeão de vendas entre 2015 e 2020, garantindo à GM a disputa acirrada com a então FCA (Fiat Chrysler Automobiles).
Uma nova geração e o início da crise
Em 2019, a GM decidiu renovar a linha com uma nova geração do Onix. Agora rebatizado como Onix Plus (sedã) e Onix (hatch), os modelos usavam a plataforma GEM — desenvolvida em parceria com a China. Apesar do avanço técnico e de mais espaço interno, os problemas logo apareceram: incêndios provocados por falhas no bloco do motor e no gerenciamento eletrônico mancharam a reputação do modelo.
A crise se agravou com um recall e a suspensão temporária das vendas. A chegada da pandemia de Covid-19 em 2020 só piorou o cenário. O Onix perdeu seu posto de campeão e viu sua produção em Gravataí (RS) ser interrompida por falta de semicondutores durante cinco meses em 2021 — decisão imposta pela matriz em Detroit.
O impacto na liderança de mercado
Com vendas despencando de 240 mil para apenas 73 mil unidades em dois anos, o Onix caiu do primeiro para o quinto lugar no ranking nacional. A situação causou uma crise interna na GM, que culminou na saída do então presidente da GM América do Sul, Carlos Zarlenga.
A recuperação do modelo começou apenas em 2023 e se consolidou em 2024, quando o Onix retomou a terceira posição no ranking de vendas, com 97,5 mil unidades.
O nascimento do herói: Chevrolet Tracker
Um SUV para virar o jogo
Enquanto o Onix enfrentava uma tempestade perfeita, a GM apostava em um novo modelo: o Tracker. Até então, o SUV era importado da Argentina ou do México e não empolgava o público brasileiro. Tudo mudou com a nova geração nacional, lançada em 2020. O Tracker foi o primeiro SUV da GM produzido no Brasil com a plataforma GEM.
Apesar do desafio de lançar o modelo durante a pandemia — o evento ocorreu de forma 100% digital —, o Tracker foi bem recebido. Equipado com motores turbo eficientes, ótimo pacote de segurança, conectividade atualizada e design moderno, o SUV chegou para disputar um segmento em franca expansão.
Um lançamento certeiro em um mercado em transformação
Com os consumidores brasileiros mudando seus hábitos e priorizando modelos com mais espaço, altura e tecnologia, o Tracker chegou no momento certo. Enquanto a Strada da Fiat surpreendia ao conquistar o primeiro lugar entre os veículos mais vendidos, o Tracker encontrava seu espaço como um dos SUVs mais completos do segmento.
Versátil, confortável, com versões para diferentes faixas de preço e tecnologia embarcada, o novo Tracker preencheu a lacuna deixada pelo Onix e rapidamente subiu no ranking. Em 2022, o modelo se tornou o SUV mais vendido do Brasil, com mais de 70 mil unidades comercializadas.
O impacto do Tracker na estratégia da GM
Resultados que sustentaram a liderança
O sucesso do Tracker garantiu à GM um fôlego crucial para manter a competitividade no mercado brasileiro. Em um período em que o Onix ainda tentava recuperar sua imagem, o SUV não apenas segurou as vendas da montadora como ajudou a preservar a posição da empresa entre as líderes do setor automotivo.
Segundo Paula Saiani, diretora de marketing de produto da GM, o Tracker se tornou um dos pilares da marca no país, sendo essencial em um segmento que movimenta cerca de R$ 90 bilhões por ano. O SUV registrou 69 mil unidades vendidas em 2024, garantindo o sexto lugar no ranking geral de vendas.
Um modelo que respondeu às exigências do consumidor
O sucesso do Tracker também pode ser atribuído à sua capacidade de atender às expectativas do consumidor moderno. Desde a dirigibilidade até os recursos tecnológicos, passando pela segurança e conforto, o modelo mostrou que a GM havia aprendido com os erros do Onix e estava pronta para competir com força no novo cenário.
Um novo equilíbrio no portfólio da Chevrolet
O que parecia uma aposta secundária tornou-se o principal sustentáculo da General Motors no Brasil em um momento delicado. O Tracker demonstrou que o futuro da indústria automotiva passa por flexibilidade, capacidade de resposta e, sobretudo, pela habilidade de interpretar os desejos do consumidor.
Hoje, com o Onix recuperado e o Tracker consolidado, a Chevrolet conseguiu se reposicionar no mercado brasileiro. Mas a lição ficou clara: mesmo os produtos mais bem-sucedidos podem tropeçar, e é preciso estar pronto com um plano B — ou, no caso da GM, com um SUV de personalidade forte.
Imagem: Projeção Novo Chevrolet Tracker – By Kleber Silva (@kdesignag).