Um novo boato sobre a China ter banido novamente o Bitcoin ganhou força nas redes sociais no início de agosto de 2025, reacendendo memórias de repressões anteriores e agitando o mercado cripto. Diversos perfis influentes passaram a compartilhar a notícia, sem, no entanto, apresentar qualquer fonte oficial que confirmasse a informação.
Em um momento de leve correção no preço do BTC — que caiu após registrar máximas acima de US$ 123.000 em julho —, o rumor encontrou terreno fértil entre investidores temerosos e amplificadores de conteúdo viral. Entretanto, a realidade parece muito diferente: não houve novo banimento do Bitcoin pela China, e as ações recentes do país até indicam um movimento de aproximação regulada ao setor.
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Neste artigo, investigamos a origem dos rumores, o impacto no preço do Bitcoin, as evidências factuais sobre a posição da China em relação às criptomoedas e os desdobramentos mais amplos para o mercado global.
Leia mais:
Rumor de novo banimento: o que aconteceu?
Fake news impulsionada por contas grandes no X (Twitter)
O boato de que a China teria implementado um novo banimento ao Bitcoin viralizou após ser publicado por perfis populares no X (ex-Twitter). Entre eles, páginas como a Investing.com compartilharam mensagens como:
“A China proibiu oficialmente a negociação de criptomoedas, a mineração e serviços relacionados, citando riscos financeiros, preocupações com fuga de capitais e impactos ambientais.”
Outros influenciadores, como Fred Krueger, também divulgaram variações da notícia com declarações bombásticas como “China acabou de banir o Bitcoin”. Em poucas horas, milhões de visualizações foram acumuladas, gerando medo, incerteza e dúvida (FUD) no ecossistema cripto.
Publicações antigas confundidas como atuais
Muitas das postagens compartilhadas eram, na verdade, resgates de notícias antigas, como um artigo da BBC de setembro de 2021, período no qual a China oficializou a proibição de negociação por parte de instituições financeiras e corretoras.
Ao serem reapresentadas fora de contexto, essas reportagens antigas acabaram reforçando a falsa narrativa de que um novo ataque regulatório estava em curso.
Bitcoin caiu por culpa da China? Especialistas dizem que não
Queda recente tem origem nos EUA, não em Pequim
Enquanto o BTC recuou nas primeiras sessões de agosto, analistas apontam que os motivos para a queda são macroeconômicos e vêm dos Estados Unidos — e não da Ásia.
Entre os fatores que influenciaram negativamente o mercado nos últimos dias, destacam-se:
- Falas de Jerome Powell, presidente do Federal Reserve, após a manutenção da taxa de juros;
- Relatório de empregos dos EUA, que veio abaixo do esperado, indicando fragilidade na economia;
- Relatório de Donald Trump sobre criptoativos, que ignorou temas-chave como a adoção de reservas estratégicas em Bitcoin.
Esses elementos aumentaram a aversão ao risco e estimularam movimentos de venda por grandes investidores, incluindo Arthur Hayes, ex-CEO da BitMEX, que admitiu ter reduzido sua exposição a criptomoedas.
China e o Bitcoin: um histórico complexo e cheio de idas e vindas
2009: os primeiros passos da repressão chinesa
A relação da China com ativos digitais é antiga — e frequentemente controversa. Já em 2009, o país emitiu uma regulamentação que proibia moedas virtuais em jogos online. Embora não fosse especificamente direcionada ao Bitcoin, a medida marcava o início de uma abordagem desconfiada em relação ao dinheiro digital.
De 2013 a 2021: repressões pontuais até o banimento institucional
Nos anos seguintes, o governo chinês:
- Proibiu bancos de operar com criptoativos (2013);
- Fechou corretoras locais e congelou contas (2017);
- Expulsou mineradores em larga escala (2021);
- Banindo a negociação por instituições financeiras e proibindo plataformas de oferta.
Apesar disso, a posse e a negociação individual de criptomoedas nunca foram formalmente proibidas. Ainda hoje, cidadãos chineses podem deter BTC em carteiras privadas.
Hong Kong como zona piloto: sinais de abertura da China?

Colin Wu desmente os rumores com base nos fatos
O jornalista Colin Wu, um dos nomes mais respeitados no mercado cripto asiático, foi rápido em rebater os boatos. Em postagem no X, afirmou:
“Algumas contas estão espalhando boatos de que a China baniu as criptomoedas novamente, sem nenhuma evidência.”
Wu explicou que, na verdade, o movimento regulatório tem sido de abertura, especialmente por meio de Hong Kong, onde:
- Um regime regulatório para emissores de stablecoins foi aprovado recentemente;
- A cidade funciona como laboratório regulatório para novas iniciativas financeiras do governo central.
Quatro fatos que desmontam a narrativa do novo banimento
1. A China nunca baniu transações individuais com criptomoedas
O governo chinês proibiu a atuação de instituições financeiras com cripto, mas não há leis que impeçam cidadãos de negociar BTC por conta própria.
2. A mineração de Bitcoin ainda ocorre em várias regiões do país
Apesar da repressão de 2021, dados recentes apontam que a China voltou ao top 2 global em termos de hashrate, indicando que mineradores ainda operam com alguma liberdade ou tolerância local.
3. Hong Kong está liderando a regulamentação positiva
Com o aval de Pequim, a região autônoma de Hong Kong está implementando regras claras e positivas para exchanges, emissores de stablecoins e empresas cripto.
4. Ativos digitais estão sendo integrados à agenda tecnológica do governo
Iniciativas envolvendo real world assets (RWAs) e tecnologia blockchain aplicada a registros públicos estão crescendo, com apoio de governos regionais chineses.
“Bitcoin de papel”: nova teoria conspiratória que viraliza nas redes
Community questiona se grandes empresas estão comprando BTC real
Outro rumor que ganhou força nas redes é o de que empresas como a Strategy (ex-MicroStrategy) estariam comprando “bitcoins de papel” — ou seja, ativos que não representam BTC real on-chain.
A suspeita surgiu porque o preço do Bitcoin não apresentou grandes reações após a empresa anunciar a compra de 21.021 BTC, totalizando US$ 2,46 bilhões em apenas um dia.
Endereços não revelados aumentam o mistério
Michael Saylor, fundador da Strategy, afirmou publicamente que não divulgará os endereços das carteiras da empresa por razões de segurança, o que alimentou teorias de que os fundos não são comprováveis.
Arkham confirma posse de 466 mil BTC pela Strategy
No entanto, a empresa de análise Arkham Intelligence identificou 466 mil BTC em carteiras associadas à Strategy, e outros 107 mil BTC sob custódia da Fidelity.
A soma representa 573 mil dos 628 mil bitcoins registrados pela empresa — um forte indício de que os ativos são reais e não “papel”.
O preço do Bitcoin segue em alta no longo prazo

Dados de valorização contradizem rumores
Apesar das teorias conspiratórias, o BTC acumula valorização de 22% em 2025 e está 636% acima do fundo registrado após o colapso da FTX em 2022.
A falta de saltos intradiários após grandes compras pode estar relacionada à forma de aquisição — geralmente via OTC —, que não afeta os livros de ordens do mercado à vista.
Baleias estão realizando lucros e equilibrando o mercado
Além disso, grandes detentores de BTC (baleias) também estão realizando lucros durante a alta de 2025, o que explica a estabilidade do preço mesmo com entradas bilionárias.
Conclusão: não, a China não baniu o Bitcoin de novo

O boato de que a China teria renovado seu banimento ao Bitcoin não passa de desinformação amplificada por redes sociais. Não houve decreto, pronunciamento oficial ou documento regulatório recente que confirme a narrativa.
Pelo contrário, as evidências apontam para uma maior aceitação indireta dos criptoativos, principalmente via Hong Kong.
No final, o episódio reforça uma lição importante: em tempos de incerteza e volatilidade, boatos infundados podem movimentar mercados inteiros, mesmo sem qualquer base factual. Por isso, é essencial buscar fontes confiáveis e analisar o contexto antes de tomar decisões financeiras.

