A indústria automotiva chinesa, a maior do mundo em volume de produção, está enfrentando uma crise silenciosa, porém grave: o acúmulo excessivo de veículos nos pátios das montadoras tem levado à criação de uma prática controversa e cada vez mais comum — os chamados “carros 0 km usados”.
Crise na indústria automotiva é mascarada com carros 0 km usados, entenda
Montadoras chinesas registram carros novos como vendidos para inflar números e driblar metas, criando os chamados “0 km usados” com até 30% de desconto.
Em um movimento que parece contraditório à primeira vista, carros novos são registrados como vendidos, mas na verdade continuam parados em revendedoras, onde são oferecidos com descontos de até 30% como se fossem veículos seminovos.
Essa manobra, longe de ser um erro pontual, representa uma estratégia generalizada para alcançar metas de venda, limpar estoques e manter indicadores de desempenho positivos.
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A origem do problema: excesso de produção e baixa demanda

A raiz do problema é clara e preocupante: a oferta de carros supera largamente a demanda na China. Em abril de 2025, o país contabilizou um estoque de 3,5 milhões de veículos. Algumas fábricas estão operando com menos de 50% de sua capacidade instalada, mas ainda assim mantêm um ritmo de produção elevado — muitas vezes, por questões contratuais, incentivos fiscais ou metas internas de performance.
Sem consumidores suficientes para absorver os carros produzidos, as montadoras adotaram o registro fictício de venda para repassar os veículos a revendedoras parceiras ou plataformas terceirizadas, mantendo a aparência de desempenho positivo.
Como funciona a manobra dos “0 km usados”
Registro como venda, sem uso real
Na prática, o carro sai da fábrica e é transferido para uma revendedora, onde é registrado como vendido, ainda que ninguém tenha realmente comprado o veículo. Com isso, a venda é contabilizada, ajudando a empresa a atingir suas metas trimestrais.
Descontos agressivos para atrair consumidores
Esses carros, embora nunca utilizados, são colocados à venda como usados de primeiro dono. Isso significa que já têm registro anterior, o que reduz sua garantia de fábrica e altera seu histórico legal, mesmo que jamais tenham circulado. O preço, no entanto, é um grande atrativo: descontos de até 30% têm sido comuns para atrair compradores.
Impactos financeiros e legais
A prática tem diversas implicações negativas, como:
- Distorção nos números de vendas reais, que engana investidores e órgãos reguladores;
- Desvalorização do mercado de usados, já que os 0 km usados derrubam os preços de concorrentes legítimos;
- Problemas para consumidores, como garantia reduzida, pendências fiscais, histórico de propriedade duvidoso e até risco de veículos com pendências financeiras (como financiamentos não quitados).
Caso real: o colapso no preço do BYD Qin L

Um exemplo prático do impacto da prática foi observado com o BYD Qin L, um dos sedãs mais populares da montadora chinesa. Em poucas semanas, o veículo teve uma desvalorização de quase 40% em relação ao preço de tabela.
Isso ocorreu após uma enxurrada de “0 km usados” ser despejada no mercado por revendedores tentando escoar os estoques disfarçados de usados.
Esse movimento forçou outras montadoras a reverem suas próprias políticas de precificação, provocando um efeito dominó na indústria e nos consumidores.
Reações do setor e do governo
Declaração da Great Wall Motor
O presidente da Great Wall Motor, Wei Jianjun, foi uma das vozes mais fortes contra a prática. Ele pediu que a indústria retome o foco em inovação, qualidade de produto e confiança do consumidor, alertando que tais estratégias podem destruir a reputação construída com tanto esforço pelas montadoras chinesas nos últimos anos.
Medidas do Ministério do Comércio da China
Em resposta à crise, o Ministério do Comércio da China convocou uma reunião emergencial com representantes de grandes montadoras como BYD, Dongfeng e Geely, além de plataformas de venda de usados como a Guazi. O objetivo foi discutir medidas para coibir fraudes nos registros de vendas e regular a revenda de veículos supostamente usados.
Estão sendo estudadas medidas semelhantes às adotadas pela SEC (Comissão de Valores Mobiliários dos EUA) para combater o chamado Channel Stuffing — uma manobra contábil que consiste em empurrar produtos para canais de venda sem real perspectiva de comercialização.
O “jeitinho chinês” e os riscos para a imagem do país
Embora alguns analistas apontem que essa manobra pode ser vista como uma adaptação do mercado às condições atuais, o que se observa é um risco sistêmico: a credibilidade da indústria automotiva chinesa está em jogo, tanto internamente quanto nas exportações.
Impactos nas exportações e no Brasil
O problema não se limita ao território chinês. Carros da BYD, JAC, Chery e outras marcas chinesas já enfrentam um acúmulo de estoques no Brasil, segundo a Anfavea (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores). Há também uma preocupação com o aumento das importações subsidiadas, o que motivou a entidade a defender o aumento de impostos sobre veículos importados.
Riscos para consumidores brasileiros
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O consumidor brasileiro pode ser afetado indiretamente por essa prática, especialmente se comprar um carro importado “0 km usado” sem saber. Problemas como perda parcial da garantia, histórico impreciso e variação nos preços são apenas alguns dos possíveis prejuízos.
Possíveis soluções para a crise

Especialistas chineses vêm sugerindo uma série de medidas para enfrentar o problema, como:
1. Aumento das exportações para mercados estratégicos
Ampliar a exportação de veículos para países com maior demanda, como Rússia, América Latina e África, com transparência nos registros e garantia de origem, pode ajudar a equilibrar estoques.
2. Redução da produção
As montadoras precisam revisar seus planejamentos de produção e aceitar níveis mais realistas de operação, para evitar o acúmulo de veículos não vendidos.
3. Transparência no histórico dos veículos
É essencial que os consumidores saibam exatamente quando e como um carro foi registrado pela primeira vez, com regras claras para diferenciar um usado de fato de um “0 km registrado”.
4. Regras rígidas de contabilidade e governança
Adotar auditorias independentes e fortalecer o controle sobre os dados de vendas pode reduzir fraudes contábeis e proteger investidores e acionistas.
Conclusão: um problema que vai além dos números
A crise dos carros 0 km usados na China é um retrato das contradições entre crescimento industrial e sustentabilidade de mercado. Embora a prática permita aliviar estoques e impulsionar vendas no curto prazo, ela esconde os desequilíbrios estruturais da indústria automotiva chinesa.
A pressão por desempenho, somada ao excesso de capacidade, cria distorções que afetam consumidores, concorrentes, revendedores e investidores. Resolver o problema exige não apenas medidas técnicas, mas uma mudança de mentalidade no setor, com foco na transparência, equilíbrio e confiança do mercado.
A resposta do governo e das lideranças empresariais será decisiva para definir se a China conseguirá transformar esse desafio em oportunidade de reestruturação saudável ou se aprofundará em uma crise de reputação global.
