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Ganha menos mas paga mais? Quem recebe R$ 6 mil/mês enfrenta carga maior de IR do que milionário!

Classe média paga mais IR que milionários por isenção de lucros e dividendos, aponta estudo do Sindifisco.

Vitória MonckesPor Vitória Monckes6 min de leitura
imposto de renda

Um levantamento inédito realizado pelo Sindicato Nacional dos Auditores Fiscais da Receita Federal (Sindifisco) escancarou uma distorção histórica no sistema tributário brasileiro: trabalhadores da classe média pagam proporcionalmente mais Imposto de Renda do que os brasileiros mais ricos. Baseado em dados do IR de 2024 (referentes ao ano-calendário de 2023), o estudo revela que o topo da pirâmide está protegido por isenções — especialmente sobre lucros e dividendos —, enquanto o “meio da pirâmide” carrega o maior peso tributário.

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A pirâmide invertida: quem realmente paga o Imposto de Renda?

Alíquota efetiva penaliza a renda média

O estudo mostra que contribuintes que recebem entre 15 e 20 salários mínimos mensais (entre R$ 19.800 e R$ 26.400) pagaram a maior alíquota efetiva de Imposto de Renda em 2023: 11,40%. Já quem ganha entre 5 e 7 salários mínimos (de R$ 6.600 a R$ 9.240) enfrentou uma carga de 6,63%. Esses são os trabalhadores que mais sentem o peso do IR sobre seus rendimentos formais.

Milionários pagam menos

Entre os que recebem acima de 240 salários mínimos por mês — o equivalente a R$ 316.800 mensais —, 71% da renda declarada é isenta de imposto. Isso significa que a alíquota efetiva paga pelos super-ricos é menor do que a da classe média assalariada.

A face oculta do IR: os rendimentos isentos e não tributáveis

Aumento de lucros e dividendos na renda total

De acordo com o Sindifisco, 35% do total da renda declarada no IRPF 2024 foi classificada como rendimentos isentos e não tributáveis. Desses, cerca de 35% são lucros e dividendos recebidos, totalizando mais de R$ 700 bilhões — um crescimento de 14% em relação a 2022, quando o valor somou R$ 614,9 bilhões.

“Quanto mais rica a pessoa, maior a parcela da renda que não paga imposto”, alerta Dão Real Pereira dos Santos, presidente do Sindifisco.

A pejotização como estratégia de elisão fiscal

A isenção de lucros e dividendos, instituída por uma mudança na legislação ainda nos anos 1990, favoreceu o fenômeno conhecido como “pejotização” — quando trabalhadores são incentivados a se formalizar como pessoas jurídicas para receber seus rendimentos como lucro, isento de IR, em vez de salário tributável.

“Vemos cada vez mais um planejamento tributário que amplia as rendas isentas e onera as rendas mais baixas”, afirma Santos.

Desigualdade tributária: 94% dos contribuintes arcam com a maior parte da carga

A concentração das isenções nos 6% mais ricos

O levantamento mostra que 94% dos contribuintes têm renda mensal de até 20 salários mínimos, e respondem por 52% de toda a renda declarada no país. Os 6% mais ricos concentram os 48% restantes, mas com uma diferença fundamental: sua renda é majoritariamente isenta.

“É justamente nesses 6% que se concentra a maior parte das parcelas isentas”, destaca o Sindifisco.

Essa realidade, segundo o sindicato, é fruto de um modelo de tributação que poupa os mais ricos e sobrecarrega a base da pirâmide.

A reforma tributária de 2023 e o caminho até 2033

Reforma tributária
Imagem: rafastockbr / shutterstock.com

Aprovada a primeira etapa: consumo

Após 30 anos de discussões, a reforma tributária foi aprovada no final de 2023, com foco inicial na unificação e regulamentação dos tributos sobre consumo. A primeira etapa, aprovada pela Câmara em julho de 2024, trata da criação do Imposto sobre Bens e Serviços (IBS) e da Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS), com previsão de implementação gradual até 2033.

Renda ainda está fora do escopo principal

Embora importante, a reforma ainda não mexeu na estrutura de tributação da renda, onde reside a maior distorção. A promessa de campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de ampliar a faixa de isenção foi cumprida parcialmente, com a isenção para quem ganha até R$ 2.640 e descontos para quem recebe até R$ 5 mil.

Próximos passos: tributar lucros e dividendos?

Governo avalia nova proposta

O Ministério da Fazenda estuda um projeto para tributar lucros e dividendos, o que poderia reverter parte da regressividade atual. Também se discute a criação de alíquotas adicionais para rendas muito altas, seguindo modelos adotados por países da OCDE.

“Esse projeto do governo deve desonerar quem ganha até R$ 5 mil. Mas isso ainda é uma correção parcial do problema e precisará ser revisitado”, afirma o presidente do Sindifisco.

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Corrigir a tabela e rever privilégios: o que precisa mudar?

Revogação da isenção e justiça fiscal

Para especialistas em tributação, como os auditores fiscais da Receita, o ponto crucial está na revogação da isenção de lucros e dividendos, algo que colocaria o Brasil em linha com mais de 80% dos países do mundo.

“O correto seria revogar essa isenção e corrigir a tabela do IR. Isso poderia reduzir a carga sobre os trabalhadores e até permitir a redução de tributos sobre consumo”, defende Santos.

Tabela do IR continua desatualizada

Embora tenha havido algum avanço, a tabela do IR segue sem correção integral da inflação acumulada, o que gera um processo de “fiscal drag” — em que o contribuinte sobe de faixa sem aumento real de poder de compra.

Efeitos sociais da regressividade fiscal

Pressão sobre os mais pobres

Com os ricos isentos e os tributos sobre consumo ainda pesando sobre os ombros da população, o modelo atual aumenta a desigualdade social, reduz o poder de compra dos assalariados e limita a capacidade do Estado de financiar serviços públicos essenciais.

Injustiça como regra

A injustiça tributária no Brasil se dá não apenas por quem paga mais ou menos, mas por quem pode escolher como pagar, explica o Sindifisco. Os mais ricos têm acesso a consultorias tributárias, planejamento patrimonial e instrumentos jurídicos que reduzem drasticamente sua carga fiscal.

2026 será decisivo para a tributação da renda

IR
Imagem: Freepik/ Edição: Seu Crédito Digital

Segundo o Sindifisco, 2026 deve marcar o encerramento das discussões da reforma tributária, com foco total na reestruturação do Imposto de Renda. O ano eleitoral pode influenciar fortemente o debate.

“Esse é um primeiro passo, mas nunca poderá ser considerado um passo definitivo”, alerta Santos.

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Vitória Monckes

Autor

Vitória Monckes

Vitória Monckes é turismóloga, comissária de voo e futura enfermeira. No Seu Crédito Digital, atua como redatora especializada na tradução clara e acessível de políticas públicas, direitos sociais, previdência, programas assistenciais e medidas econômicas. Sua missão é transformar temas governamentais complexos em conteúdos compreensíveis e úteis para os brasileiros, contribuindo para decisões mais conscientes no dia a dia.

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