Conflito na saúde: médicos e Anvisa divergem sobre antibióticos
O debate em torno da prescrição de antibióticos por profissionais de saúde reacendeu nos últimos dias após a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizar, em 12 de setembro, que enfermeiros incluam suas receitas no Sistema Nacional de Gerenciamento de Produtos Controlados (SNGPC).
A medida, que visa ampliar o controle sobre o uso de antimicrobianos, gerou reação imediata do Conselho Federal de Medicina (CFM), que a classificou como um risco para a saúde pública.
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A decisão da Anvisa

A Anvisa justificou sua resolução afirmando que a inclusão dos enfermeiros no SNGPC não cria novos direitos, mas apenas atualiza a forma de registrar prescrições que já são legalmente permitidas. A agência destacou que a prescrição de medicamentos por enfermeiros está amparada pela Lei n° 7.498/1986, desde que sigam protocolos clínicos estabelecidos pelos gestores de saúde.
Segundo a agência, a mudança contribui para maior transparência e monitoramento do uso de antibióticos, considerados substâncias de controle especial. Para a Anvisa, registrar eletronicamente as prescrições feitas por enfermeiros permitirá um rastreamento mais eficaz e reforçará a vigilância sobre o consumo desses medicamentos no país.
A reação do Conselho Federal de Medicina
O CFM reagiu de forma contundente. Em nota oficial, a entidade pediu a revogação da decisão e reiterou que a prescrição de antibióticos deve permanecer como uma atribuição exclusiva dos médicos.
O conselho argumenta que a utilização indiscriminada desses medicamentos representa uma das maiores ameaças atuais à saúde pública: a resistência bacteriana. Nesse sentido, permitir que outros profissionais façam prescrições ampliaria os riscos de erros diagnósticos e de uso inadequado.
“O diagnóstico preciso de infecções e a escolha do antimicrobiano adequado exigem formação médica”, destacou o CFM, reforçando que a medida da Anvisa ultrapassa limites técnicos e compromete a segurança da população.
Resistência bacteriana em pauta
A resistência bacteriana é apontada por especialistas como uma das crises mais graves da saúde global. A Organização Mundial da Saúde (OMS) já classificou o fenômeno como uma ameaça iminente capaz de tornar ineficazes tratamentos antes simples.
Para o CFM, delegar a prescrição de antibióticos a enfermeiros pode contribuir para acelerar esse processo, já que muitas vezes o uso inadequado do medicamento está relacionado à ausência de exames complementares e ao diagnóstico equivocado.
O posicionamento do Conselho de Enfermagem
Na outra ponta da discussão, o Conselho Federal de Enfermagem (Cofen) defende que a medida da Anvisa representa um avanço na valorização da categoria. Para a entidade, os enfermeiros já possuem respaldo legal para prescrever medicamentos, desde que dentro dos protocolos estabelecidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e por programas de saúde específicos.
O Cofen destaca ainda a importância dos enfermeiros em regiões remotas, onde muitas vezes não há médicos disponíveis. Nessas localidades, a autonomia desses profissionais para prescrever pode ser determinante para o atendimento rápido da população.
“O reconhecimento no SNGPC é uma adequação técnica que reflete a realidade do trabalho dos enfermeiros e amplia a resolutividade dos serviços de saúde”, defendeu o conselho.
Impacto no atendimento primário
Na prática, a mudança pode facilitar o acesso da população a tratamentos imediatos em postos de saúde, principalmente em casos de infecções comuns. Ao registrar eletronicamente suas prescrições, os enfermeiros terão suas decisões monitoradas, o que, na visão do Cofen, reforça a segurança e não o contrário.
O dilema entre autonomia e segurança
O embate revela um dilema cada vez mais presente na saúde brasileira: equilibrar a autonomia das diferentes categorias profissionais e garantir a segurança no tratamento dos pacientes.
Enquanto os médicos insistem que a exclusividade na prescrição de antibióticos é essencial para evitar erros graves, enfermeiros reivindicam reconhecimento por desempenharem funções que, na prática, já exercem em diversas unidades de saúde.
Especialistas ouvidos pela imprensa ressaltam que a questão não é apenas técnica, mas também política e corporativa, envolvendo disputas históricas por atribuições e espaço dentro do sistema de saúde.
O que muda na prática
Com a decisão da Anvisa, farmácias de todo o país passam a receber prescrições de antibióticos feitas por enfermeiros e registrá-las no SNGPC com o número de inscrição no Conselho Regional de Enfermagem (Coren).
Esse processo, que até então só aceitava prescrições de médicos, dentistas e veterinários, agora inclui também os profissionais de enfermagem. Na visão da agência, isso não altera a legislação vigente, mas traz maior controle e visibilidade às práticas já existentes.
Fiscalização e protocolos
A Anvisa destacou ainda que a fiscalização sobre o uso de antibióticos continuará sendo rigorosa. As prescrições de enfermeiros deverão seguir protocolos clínicos estabelecidos pelas secretarias de saúde e gestores locais, o que limita a autonomia individual desses profissionais.
Assim, a agência considera que o risco de prescrição inadequada é reduzido, já que os enfermeiros estarão sempre vinculados a diretrizes previamente definidas.
Perspectivas futuras
O impasse entre médicos, enfermeiros e órgãos reguladores deve continuar nos próximos meses. O CFM já sinalizou que pretende recorrer judicialmente contra a decisão da Anvisa, enquanto o Cofen promete defender a legalidade e a importância da medida para a assistência em saúde.
Independentemente do desfecho, a discussão evidencia os desafios do Brasil em lidar com a resistência bacteriana e, ao mesmo tempo, ampliar o acesso da população ao tratamento.
Seja qual for a solução, especialistas concordam em um ponto: o uso consciente de antibióticos precisa ser prioridade absoluta, com campanhas educativas, protocolos rígidos e fiscalização constante.
Imagem: i viewfinder / shutterstock.com