Crédito consignado: bancos dominam mercado e acendem alerta vermelho
O crédito consignado, especialmente no setor privado — conhecido como Crédito do Trabalhador —, tem registrado números expressivos nos últimos meses. Apenas entre janeiro e início de março de 2025, a modalidade movimentou R$ 11,3 bilhões, segundo dados divulgados pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE).
Contudo, o que mais chamou a atenção das autoridades e especialistas foi a forte concentração bancária: cinco instituições financeiras foram responsáveis por impressionantes 73,3% de todo o volume de crédito concedido.
Leia Mais:
Criança de 8 anos encomenda 70 mil pirulitos na Amazon usando celular da mãe
Os líderes do crédito consignado
Entre os principais agentes do mercado, o Banco do Brasil lidera em volume, com R$ 3,1 bilhões liberados nesse curto período. No entanto, quando se analisa o número de contratos, a liderança muda de mãos: a Facta Financeira se destacou com mais de 469 mil empréstimos realizados, mostrando forte capilaridade e presença entre os trabalhadores do setor privado.
Outro destaque é a Parati Financeira, que aparece entre as cinco instituições mais atuantes, juntamente com outras financeiras de médio porte. A expressiva participação de poucos players, no entanto, tem gerado preocupação.
Ameaças da concentração: juros altos e baixa concorrência
Especialistas alertam sobre os efeitos da concentração bancária
A concentração de mercado em torno de poucas instituições pode ter consequências negativas para os consumidores. Um dos principais riscos apontados por analistas é o aumento das taxas de juros em decorrência da baixa concorrência. Com poucas opções disponíveis, o trabalhador se vê obrigado a aceitar as condições impostas pelos líderes de mercado.
“A estrutura atual privilegia grandes instituições com ampla capacidade de operação. Isso garante eficiência, mas limita o poder de escolha dos trabalhadores”, analisa o economista Samuel Barros.
Além disso, há o risco de um efeito de desestímulo à entrada de novos players no mercado. Com a dominância de bancos já estabelecidos, financeiras menores podem não conseguir competir, reduzindo ainda mais a diversidade de opções de crédito para o consumidor final.
Portabilidade de dívidas: alternativa em meio à concentração
Nova regulamentação do MTE busca aumentar a competitividade
Em uma tentativa de equilibrar o jogo, o Ministério do Trabalho e Emprego implementou mudanças importantes nas regras do crédito consignado, autorizando a portabilidade de dívidas entre instituições financeiras. A medida tem o objetivo de estimular a concorrência e, com isso, beneficiar o trabalhador.
Como funciona a portabilidade?
A portabilidade permite que o trabalhador transfira sua dívida atual para outro banco que ofereça melhores condições — como juros menores, prazos mais longos ou parcelas mais acessíveis. A operação é facilitada por garantias já previstas, como:
- Utilização de até 10% do saldo do FGTS
- Uso de 100% da multa rescisória como garantia de pagamento, mesmo em caso de demissão
Com isso, espera-se que os trabalhadores passem a negociar com mais autonomia e consigam reduzir o peso das dívidas no orçamento mensal.
Digitalização e futuro: o crédito do trabalhador mais acessível
Carteira de Trabalho Digital e inovação devem transformar o setor
A digitalização dos serviços públicos, como a Carteira de Trabalho Digital, tem o potencial de facilitar ainda mais o acesso ao crédito consignado. Hoje, a solicitação de empréstimos, a consulta às condições e a própria portabilidade já podem ser feitas de forma 100% digital.
Para especialistas, o futuro dessa modalidade passa pela ampliação da transparência e do empoderamento do trabalhador. Com acesso facilitado à informação e ferramentas digitais, será possível comparar ofertas e escolher a mais vantajosa.
Além disso, a entrada de fintechs e novas instituições digitais no mercado pode ajudar a diversificar os serviços oferecidos, ampliar a concorrência e diminuir as taxas de juros.
Conclusão: crédito consignado é oportunidade, mas exige vigilância
O crédito consignado no setor privado representa uma alternativa importante para o trabalhador brasileiro obter recursos com condições mais acessíveis, sobretudo quando comparado a outras linhas de crédito. A possibilidade de desconto direto na folha torna essa modalidade menos arriscada para os bancos, permitindo juros mais baixos. No entanto, o atual cenário de concentração bancária acende um alerta vermelho.
Com cinco instituições dominando mais de 70% do mercado, cresce a necessidade de regulação e incentivo à entrada de novos players. A portabilidade de dívidas, recém-liberada pelo MTE, é um passo importante nessa direção, mas especialistas ressaltam que sua eficácia dependerá da conscientização dos trabalhadores e da fiscalização dos órgãos reguladores.
Imagem: Freepik e Canva