O Brasil vive um paradoxo energético que surpreende até mesmo os especialistas mais otimistas com a transição verde. O país, conhecido mundialmente por sua matriz elétrica majoritariamente renovável, enfrenta atualmente uma crise sem precedentes no setor de energia limpa. Apesar de ter sido o terceiro país que mais instalou capacidade eólica e energia solar em 2024, a indústria de renováveis amarga prejuízos, demissões em massa e pedidos de recuperação judicial.
Crise no setor elétrico: excesso de energia solar e eólica desafia o Brasil
Excesso de energia solar e eólica revela falhas de infraestrutura e causa prejuízos bilionários ao setor elétrico no Brasil.
O que deveria ser um momento de celebração por alcançar novos patamares de geração sustentável tornou-se um alerta para os gargalos estruturais e regulatórios que ameaçam os avanços conquistados nas últimas duas décadas.
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Infraestrutura limitada e excesso de geração

Nordeste produz, Sudeste consome
A concentração da geração de energia solar e eólica no Nordeste brasileiro contrasta com a maior demanda localizada no Sudeste. A falta de linhas de transmissão suficientes para conectar as regiões causa desperdício de energia e perdas econômicas. O excedente gerado durante o dia, especialmente pela energia solar, não pode ser totalmente escoado para os grandes centros consumidores. Como consequência, o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) tem imposto cortes sistemáticos de produção a diversas usinas renováveis.
Essa prática, iniciada ainda em 2020, durante a pandemia, foi intensificada após o apagão ocorrido em 2023, quando a intermitência da geração renovável foi apontada como uma das causas. Desde então, o ONS tem ampliado o volume de cortes preventivos e, segundo relatório recente, essa tendência deve se agravar até 2029.
Fim do ressarcimento total amplia prejuízos
Até o ano passado, os produtores de energia solar e eólica que sofriam cortes na geração recebiam ressarcimento integral pelas perdas, por meio das tarifas de energia. Contudo, uma mudança regulatória imposta pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) limitou esse reembolso a apenas 3% das perdas, gerando forte reação do setor.
A Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (Absolar) e a Associação Brasileira de Energia Eólica (Abeeólica) estimam que os prejuízos já somam R$ 4,8 bilhões. Ambas processaram a Aneel, exigindo compensações maiores. Por sua vez, o governo federal criou uma comissão para discutir o tema, mas até agora não houve uma solução concreta.
Empresas em crise e empregos em risco
Recuperações judiciais e demissões em massa
Os impactos da crise já são visíveis no mercado. Empresas como a 2W Ecobank e a Rio Alto Energia recorreram à recuperação judicial ou proteção contra credores. A Aeris, uma das maiores fabricantes de pás eólicas do Brasil, demitiu mais de 3.700 trabalhadores e precisou renegociar 90% de suas dívidas.
Segundo levantamento da Abeeólica, mais de 11 mil empregos diretos e indiretos foram perdidos entre 2024 e 2025. Pequenas e médias empresas do setor relatam dificuldades para manter projetos em operação e buscam alternativas para sobreviver em um ambiente regulatório incerto e financeiramente hostil.
Efeitos colaterais no futuro da energia e da mobilidade

Ameaça ao hidrogênio verde
O Nordeste, que concentra a geração solar e eólica do país, é também apontado como região estratégica para o desenvolvimento do hidrogênio verde — combustível considerado essencial para a descarbonização da indústria pesada e transporte de carga.
Entretanto, sem a expansão das linhas de transmissão e sem estabilidade regulatória, projetos dessa natureza ficam comprometidos. A estagnação da cadeia de produção renovável também trava investimentos em novas tecnologias e sistemas de armazenamento de energia, como baterias de grande porte.
Mobilidade elétrica em risco
A crise no setor renovável tem impacto direto sobre a mobilidade elétrica no Brasil. Embora veículos elétricos não emitam poluentes localmente, o benefício climático depende da fonte de energia usada para recarga. Com o subaproveitamento da geração solar e eólica, o país corre o risco de acionar usinas termelétricas — mais caras e poluentes — para suprir a demanda.
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Além disso, o horário noturno, quando a maioria dos veículos elétricos é recarregada, enfrenta maiores desafios de abastecimento com energia limpa. A falta de incentivos para a adoção de baterias de armazenamento agrava o problema. Segundo a Absolar, os impostos sobre esses equipamentos no Brasil podem chegar a 85%, o que inviabiliza sua adoção em escala comercial.
O governo chegou a anunciar leilões específicos para compra de sistemas de armazenamento, mas os certames foram adiados para o segundo semestre de 2025, alimentando ainda mais a insegurança entre investidores.
Desafios e caminhos para a retomada
Investimento em infraestrutura é prioridade
Especialistas e entidades do setor apontam a necessidade urgente de investimentos em infraestrutura de transmissão. A construção de novas linhas entre o Nordeste e o Sudeste é vista como essencial para escoar a produção e evitar o desperdício de energia limpa.
Além disso, defendem a revisão do modelo regulatório que penaliza os geradores de renováveis e reduz a previsibilidade das receitas. Um novo marco legal que valorize a produção sustentável, garanta compensações adequadas e ofereça segurança jurídica pode ser decisivo para reverter a crise.
Incentivos para inovação e armazenamento
O incentivo à produção de baterias no Brasil, com a redução de tributos e linhas de financiamento específicas, também é apontado como estratégico. Sem tecnologia de armazenamento acessível, o país continuará refém das limitações da intermitência das fontes solar e eólica.
Projetos de hidrogênio verde, redes inteligentes e digitalização do sistema também precisam de atenção prioritária, sob pena de comprometer o potencial do Brasil como líder global em energia limpa.
Imagem: urbans / Shutterstock.com

