Ciro Nogueira compara volta do IOF à criação de novo imposto no governo Lula
A manutenção do decreto do governo Lula que aumentou o IOF (Imposto sobre Operações Financeiras) provocou forte reação no Senado nesta quarta-feira (16 de julho de 2025). O responsável pela decisão foi o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, que optou por manter a maior parte do decreto presidencial, excluindo apenas a cobrança sobre o risco sacado.
A medida, vista como uma derrota do Congresso Nacional, suscitou críticas contundentes por parte de diversos parlamentares, sobretudo da oposição. Entre os mais incisivos, destacou-se o senador Ciro Nogueira (PP-PI), que classificou a decisão como “mais um dia triste para os brasileiros”.
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Contexto da decisão do STF
A ação judicial
O decreto presidencial que elevou as alíquotas do IOF foi contestado pelo Congresso Nacional sob o argumento de que a medida tinha propósito exclusivamente arrecadatório, e não extrafiscal, o que violaria o princípio da legalidade tributária e configuraria desvio de finalidade.
Durante o processo, o Supremo Tribunal Federal mediou uma tentativa de conciliação entre o Executivo e o Legislativo, mas o impasse não foi resolvido. No dia seguinte ao encerramento da tentativa de acordo, Moraes proferiu sua decisão mantendo o decreto.
A decisão de Alexandre de Moraes
Na sua decisão, Alexandre de Moraes afirmou que não havia evidências suficientes de que o governo Lula teria utilizado o decreto com finalidade exclusivamente arrecadatória, rejeitando os argumentos do Congresso. O ministro validou, assim, o aumento do IOF em praticamente todos os pontos, com exceção da cobrança sobre o risco sacado, que foi suspensa.
Reação no Congresso: críticas ao STF e ao governo Lula
Ciro Nogueira: “Minha Taxa Minha Vida”
O senador Ciro Nogueira utilizou as redes sociais e pronunciamentos públicos para classificar a decisão como “o único programa novo do Lula 3”, fazendo referência crítica ao aumento de impostos com o slogan “Minha Taxa Minha Vida”. Ele lamentou que o governo tenha mobilizado recursos jurídicos não para defender os contribuintes, mas para legitimar um aumento de carga tributária.
“O governo inteiro se mobiliza para ir ao STF não para defender os pagadores de impostos, mas para aumentar impostos. É o Minha Taxa Minha Vida, o único programa novo do Lula 3”, declarou.
Hamilton Mourão: “Desespero arrecadatório”
Outro que se manifestou foi o senador Hamilton Mourão (Republicanos-RS). Em sua conta no X (antigo Twitter), o ex-vice-presidente da República afirmou que a decisão representa um atropelo da vontade popular e sinaliza um “claro desespero arrecadatório” do governo federal.
“Mais uma vez o governo Lula recorre ao STF para impor sua vontade, não raramente em desfavor do povo brasileiro”, escreveu Mourão.
Carlos Portinho: “Democracia relativa”
O senador Carlos Portinho (PL-RJ) também criticou duramente a decisão de Alexandre de Moraes. Segundo ele, o ministro agiu de forma monocrática, sem ouvir os demais integrantes da Suprema Corte, o que, segundo o parlamentar, viola o espírito democrático do país.
“Essa é a democracia relativa no Brasil. Democracia aqui não é! Desconsideram os 513 deputados e 81 senadores eleitos pelo povo”, publicou Portinho em sua conta oficial.
O que muda com a decisão do STF
IOF mais alto em 2025
Com a manutenção do decreto presidencial, as alíquotas do IOF continuam elevadas, impactando diretamente operações como:
- Empréstimos e financiamentos;
- Câmbio;
- Cartões de crédito internacionais;
- Operações de seguros e investimentos de curto prazo.
A única exceção determinada por Moraes diz respeito ao risco sacado, uma cobrança que incide em operações de antecipação de crédito garantidas por duplicatas ou cheques, prática comum entre empresas.
Efeitos práticos
Para os consumidores e empresas, a decisão significa encarecimento imediato das operações financeiras, o que, segundo especialistas, pode afetar o crédito, o consumo e a própria retomada da atividade econômica no segundo semestre de 2025.
Governo Lula: arrecadação e impasse político
Motivações econômicas
Embora o governo negue intenção puramente arrecadatória, a elevação do IOF foi estimada para gerar uma receita adicional de cerca de R$ 10 bilhões até o final de 2025, valor considerado crucial para cumprir metas fiscais em meio ao aumento de gastos com programas sociais e investimentos públicos.
O Ministério da Fazenda já havia defendido o aumento como uma medida temporária, em um momento de ajuste fiscal necessário para garantir estabilidade macroeconômica.
Reação do Executivo
Após a decisão do STF, membros da equipe econômica e parlamentares da base aliada evitaram comentários públicos, mas fontes do Planalto indicam que o governo avalia a decisão como uma vitória jurídica e estratégica, ao mesmo tempo em que reconhece que a medida amplia o desgaste político com o Congresso.
STF no centro das tensões institucionais
A decisão de Moraes também acirra o debate sobre o papel do Supremo Tribunal Federal no equilíbrio entre os Poderes. Parlamentares da oposição e mesmo alguns governistas criticaram o fato de um único ministro decidir sobre uma questão com impacto orçamentário e político significativo, sem submeter o tema ao plenário da Corte.
Essa não é a primeira vez que Moraes se vê no centro de embates com o Legislativo. Em decisões anteriores, o ministro já foi acusado por congressistas de atuar com intervenções excessivas em temas de competência legislativa.
Especialistas avaliam decisão como juridicamente válida, mas politicamente delicada
Juristas ouvidos por veículos especializados consideram que a decisão de Moraes segue a jurisprudência do STF, que permite ao Executivo federal modificar alíquotas de tributos regulatórios como o IOF por meio de decreto. No entanto, apontam que a questão envolve implicações políticas mais amplas, especialmente em um momento de polarização institucional.
Segundo o professor de direito constitucional Jorge Almeida, da Universidade de São Paulo (USP):
“Do ponto de vista técnico, a decisão é defensável. Mas o contexto político e a forma como foi feita — por decisão monocrática — geram desgaste institucional.”
Caminhos possíveis após a decisão
Recurso interno ou projeto legislativo
O Congresso ainda pode tentar reverter a decisão por meio de:
- Recurso interno ao STF, solicitando que o tema seja analisado pelo plenário da Corte;
- Projeto de decreto legislativo (PDL) para sustar os efeitos do decreto presidencial;
- Propostas legislativas que limitem o poder do Executivo em alterar tributos por decreto.
Nos bastidores, parlamentares articulam ações nesse sentido, mas reconhecem que qualquer reversão dependerá de força política e mobilização pública.
Imagem: Marcelo Camargo/Agência Brasil