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El Salvador desafia o FMI e mantém compras de Bitcoin após acordo de US$ 1,4 bilhão

Apesar de compromissos com o FMI para limitar o uso de Bitcoin, El Salvador continua acumulando a criptomoeda, desafiando as diretrizes do fundo e mantendo sua estratégia econômica.

Tainara FerreiraPor Tainara Ferreira7 min de leitura
El Salvador

Em um movimento que desafia diretamente as diretrizes do Fundo Monetário Internacional (FMI), El Salvador continua a adquirir Bitcoin, mesmo após firmar um acordo de US$ 1,4 bilhão com o fundo que exigia a limitação do uso da criptomoeda.

A decisão do presidente Nayib Bukele de manter a estratégia de acumulação de Bitcoin levanta questões sobre a relação do país com instituições financeiras internacionais e sua política econômica futura.

Em um contexto global de incerteza econômica e crescente interesse por ativos digitais, El Salvador se posiciona como um protagonista singular.

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O acordo com o FMI

Em dezembro de 2024, El Salvador e o FMI chegaram a um acordo de empréstimo de US$ 1,4 bilhão. Como parte das condições para receber o financiamento, o país centro-americano se comprometeu a fortalecer suas contas fiscais, adotar medidas de austeridade e, sobretudo, reduzir sua exposição ao Bitcoin.

Isso incluía a limitação de compras governamentais da criptomoeda e a eliminação da obrigatoriedade de aceitação da moeda digital por parte de empresas privadas.

O empréstimo tinha como objetivo proporcionar estabilidade macroeconômica em um país cuja dívida pública vinha crescendo rapidamente. O FMI também expressou preocupação com a transparência das operações envolvendo Bitcoin, o que motivou cláusulas específicas no acordo para garantir maior fiscalização sobre as transações públicas com criptomoedas.

Reformas Legislativas

Para cumprir as exigências do FMI, o Congresso salvadorenho aprovou rapidamente reformas na Lei do Bitcoin, reduzindo o escopo do uso da criptomoeda como moeda legal.

Com as mudanças, empresas privadas passaram a poder decidir livremente se aceitariam ou não pagamentos em Bitcoin, flexibilizando o marco legal que antes tornava obrigatório o uso da moeda digital para todas as transações comerciais.

Além disso, o governo se comprometeu a não usar recursos públicos para novas compras de Bitcoin sem antes justificar tais aquisições com base em estudos de impacto e análise de riscos. Tais medidas foram vistas por analistas como um recuo parcial da política de criptofinanceirização promovida por Bukele desde 2021.

A persistência nas compras de Bitcoin

Bitcoin
Reprodução: Seu Crédito Digital/Freepik

Apesar das condições do acordo, o presidente Bukele afirmou publicamente que o país continuará a comprar Bitcoin. Em uma postagem na plataforma X (antigo Twitter), ele declarou: “Não, não vai parar. Se não parou quando o mundo nos ostracizou e a maioria dos ‘bitcoiners’ nos abandonou, não vai parar agora, e não vai parar no futuro”.

A ministra da Economia de El Salvador, Maria Luisa Hayem, também reiterou esse compromisso durante uma entrevista à Bloomberg News no Web Summit do Rio de Janeiro, realizado em abril de 2025. Segundo Hayem, “há um compromisso do presidente Bukele de continuar acumulando ativos justamente com esse objetivo”.

A afirmação foi interpretada como uma sinalização clara de que o país pretende manter sua aposta no Bitcoin mesmo com os riscos diplomáticos e econômicos associados.

Compras recentes

Em março de 2025, El Salvador adquiriu mais 12 Bitcoins, elevando suas reservas totais para cerca de 6.101 BTC. Com o preço da criptomoeda oscilando acima dos US$ 88 mil, as reservas nacionais superam US$ 535 milhões em valor de mercado.

As aquisições são divulgadas pelo Escritório Nacional do Bitcoin, órgão responsável pela implementação da estratégia cripto do governo.

Além das compras, o país tem investido em infraestrutura para mineração de Bitcoin utilizando energia geotérmica e em programas educacionais voltados à alfabetização digital e financeira da população. A carteira digital estatal, conhecida como Chivo Wallet, também segue operando, apesar de críticas quanto à usabilidade e segurança da plataforma.

Implicações econômicas e políticas

A continuidade das compras de Bitcoin pode colocar em risco o acordo com o FMI, que exige a cessação de aquisições governamentais da criptomoeda.

O não cumprimento das condições acordadas pode resultar na suspensão de desembolsos futuros do empréstimo, o que dificultaria ainda mais a capacidade do país de honrar seus compromissos financeiros e de manter políticas sociais essenciais.

Especialistas apontam que El Salvador caminha por uma linha tênue entre a independência econômica e o isolamento financeiro. Caso o FMI decida penalizar o país, os investidores internacionais podem interpretar o gesto como sinal de instabilidade, o que pressionaria os rendimentos dos títulos soberanos salvadorenhos para cima.

Impacto na economia nacional

A estratégia de acumulação de Bitcoin visa diversificar a economia salvadorenha e atrair investimentos estrangeiros ligados ao setor de tecnologia. No entanto, a volatilidade da criptomoeda e a dependência de fundos internacionais podem representar desafios significativos para a estabilidade econômica do país.

Há dúvidas sobre a real eficiência do uso de Bitcoin como reserva de valor ou instrumento de política monetária em uma economia emergente. A falta de liquidez do ativo em momentos de crise pode dificultar ações rápidas de governo em cenários adversos.

Ainda assim, Bukele argumenta que o país está “acumulando quando os outros estão vendendo”, em alusão à estratégia de comprar durante períodos de baixa para vender em ciclos de alta.

Reações internacionais e internas

A decisão de El Salvador de continuar adquirindo Bitcoin, apesar das diretrizes do FMI, tem sido observada com cautela por outras nações e instituições financeiras.

Alguns governos e bancos centrais veem a medida como um teste de stress à ortodoxia monetária global, enquanto outros observam com interesse os impactos que a experiência salvadorenha poderá ter no médio e longo prazo.

Além do FMI, agências de classificação de risco como Moody’s e Fitch mantêm avaliações conservadoras sobre a dívida soberana de El Salvador, destacando que a exposição ao Bitcoin amplia a imprevisibilidade fiscal do país.

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Apesar disso, a narrativa de um país pequeno desafiando o status quo financeiro global tem ganhado apoio de setores libertários e da comunidade cripto.

Opinião pública nacional

Pesquisas indicam que a adoção do Bitcoin como moeda legal não teve ampla aceitação entre a população salvadorenha. Muitos cidadãos ainda preferem transações em dólares americanos, citando maior estabilidade e familiaridade com a moeda.

Além disso, problemas técnicos na Chivo Wallet e falta de educação digital dificultaram uma adoção mais robusta por parte da população.

Entretanto, setores empresariais jovens e startups vêm se aproximando da estratégia de Bukele, atraídos por incentivos fiscais e programas de inovação apoiados pelo governo. O país começa a se posicionar como um hub cripto para a América Latina, com conferências, eventos e empresas internacionais instalando operações no território salvadorenho.

Perspectivas futuras

El Salvador pode estar se tornando um laboratório para testar novas ideias sobre soberania monetária, digitalização econômica e independência em relação a instituições tradicionais. Se a estratégia for bem-sucedida, poderá inspirar outros países em desenvolvimento a seguir caminhos semelhantes, especialmente na África e na América Latina.

No entanto, os riscos são altos. Uma queda abrupta no preço do Bitcoin poderia causar perdas expressivas às reservas nacionais, comprometendo a credibilidade de Bukele e a solvência do Estado. A chave estará em manter o equilíbrio entre inovação e responsabilidade fiscal.

Continuidade do projeto cripto

Ao que tudo indica, o governo de El Salvador não pretende recuar em sua agenda de inovação baseada em Bitcoin. O presidente Bukele, reeleito com ampla margem, interpreta o apoio popular como um endosso ao seu projeto, mesmo diante de críticas internacionais.

O Escritório Nacional do Bitcoin deve continuar sendo protagonista, promovendo campanhas de educação e incentivando empresas a adotar a criptomoeda.

Com um mercado global em constante transformação, a experiência de El Salvador com Bitcoin continuará sendo observada de perto, podendo representar tanto uma nova era de liberdade econômica quanto um alerta sobre os limites da adoção acelerada de tecnologias disruptivas.

Considerações finais

Bitcoin
Reprodução: Seu Crédito Digital/Freepik

A persistência de El Salvador em manter sua política de acumulação de Bitcoin, mesmo diante de compromissos com o FMI, destaca a complexa interação entre inovação financeira e obrigações internacionais. O país de Nayib Bukele desafia paradigmas tradicionais, colocando em xeque os modelos clássicos de dependência financeira internacional.

Se por um lado essa postura ousada pode trazer ganhos substanciais em autonomia e protagonismo digital, por outro representa um risco geopolítico relevante. O desenrolar dessa situação servirá como um estudo de caso sobre os limites da soberania econômica em um mundo globalizado.

Com a próxima revisão do acordo com o FMI prevista para o segundo semestre de 2025, todas as atenções estarão voltadas para San Salvador — e para o preço do Bitcoin.

Tainara Ferreira

Autor

Tainara Ferreira

Tainara Ferreira atua como redatora no portal Seu Crédito Digital, contribuindo com pautas que facilitam o entendimento de políticas públicas, programas sociais, economia do dia a dia e direitos dos cidadãos. Com olhar atento aos temas que impactam diretamente a vida da população brasileira, tem como missão traduzir informações complexas em conteúdos claros, úteis e acessíveis.

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