A prática de fazer compras ou assumir dívidas no nome de outra pessoa tem se tornado comum no Brasil. Segundo levantamento recente da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) em parceria com o SPC Brasil e a Offerwise, 28,7% dos consumidores brasileiros afirmaram ter feito compras usando o nome de terceiros nos últimos 12 meses.
O número impressiona, especialmente quando se considera que grande parte dessas transações envolvem cartões de crédito emprestados, empréstimos informais e crediários. Esse comportamento, ainda que muitas vezes motivado por necessidades básicas, representa um risco considerável tanto para quem empresta quanto para quem toma emprestado.
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Cartão emprestado: o principal meio da dívida informal
A principal forma de fazer dívida em nome de terceiros é através do uso do cartão de crédito de outra pessoa. Segundo o estudo, 1 em cada 5 brasileiros já utilizou esse recurso, muitas vezes como alternativa ao crédito negado ou por já ter estourado o limite do próprio cartão.
Quem empresta e quem toma?
O levantamento revela um padrão claro de proximidade afetiva:
- Cônjuges (25,6%);
- Irmãos (17,9%);
- Pais (17,6%);
- Amigos próximos (17,4%);
- Outros parentes (17,2%).
A escolha do credor informal se dá, em geral, com base na confiança e no convívio. No entanto, mesmo com proximidade emocional, os conflitos surgem com frequência quando o pagamento não é feito.
Por que tanta gente recorre ao nome de outro?
Falta de acesso ao crédito
Embora o país tenha testemunhado um boom de fintechs e contas digitais, 35 milhões de brasileiros ainda eram considerados “invisíveis ao crédito” em 2023, de acordo com a Serasa. Isso significa que, mesmo com conta digital, não conseguem aprovar crédito formal por falta de histórico financeiro ou comprovação de renda.
Motivos mais comuns:
- Nunca tentaram tomar crédito formal – 24,4%;
- Estouraram o limite do cartão ou cheque especial – 24,2%;
- Tiveram crédito negado – 17,6%.
Para a educadora financeira Aline Soaper, esses fatores evidenciam um processo de descontrole financeiro. “Quando uma pessoa estoura o limite, já está ultrapassando seu orçamento. Usar o cartão de terceiros se torna um empréstimo informal, perigoso e muitas vezes não planejado”, afirma.
Para que servem essas dívidas?
Apesar de parecer uma prática irresponsável, os dados revelam motivações ligadas à sobrevivência. A maioria dos entrevistados que recorreram ao nome de terceiros fizeram isso para:
- Supermercado – 25%;
- Itens para os filhos – 16,9%;
- Pagar dívidas antigas – 18,3%;
- Comprar presentes ou itens em datas especiais – 14,6%.
Segundo Merula Borges, especialista em finanças da CNDL, “nem todo inadimplente é mau pagador. Muitos são desbancarizados e fora do sistema tradicional”. A pesquisa reforça essa visão: 84,5% afirmam estar pagando ou já ter quitado as parcelas assumidas.
O que fazer antes de emprestar seu nome?
Perguntas essenciais antes de emprestar
- Tenho como cobrir essa dívida se ela não for paga?
- Conheço bem o histórico financeiro dessa pessoa?
- Tenho um contrato, comprovante ou algum registro do que foi combinado?
Riscos envolvidos:
- Inadimplência e nome sujo;
- Conflitos familiares e pessoais;
- Responsabilidade jurídica pelo débito;
- Impacto no score de crédito.
Se a pessoa que utilizou seu nome não cumprir com o combinado, você é legalmente responsável pela dívida. Mesmo acionando a Justiça com provas, o processo é demorado, e enquanto isso, o nome de quem emprestou pode ficar negativado.
Como se proteger dessas situações?
Organize seu planejamento financeiro
Evitar esse tipo de prática começa com educação financeira e controle de gastos. Especialistas indicam a seguinte ordem de prioridades para pagamentos:
1. Serviços básicos
- Água;
- Luz;
- Gás;
- Aluguel;
- Condomínio.
2. Compras essenciais
- Supermercado;
- Farmácia (medicamentos indispensáveis).
3. Dívidas de longo prazo
- Financiamentos de imóveis e veículos.
4. Dívidas com juros altos
- Cartão de crédito;
- Financiamentos em lojas.
Corte os gastos invisíveis
Gastos recorrentes e pouco utilizados, como streamings raramente assistidos, roupas desnecessárias ou serviços duplicados, devem ser os primeiros a sair da lista. O importante é liberar recursos para o essencial e evitar o endividamento recorrente.
Gere novas fontes de renda
Aumentar a renda é uma estratégia crucial para quem está preso ao crédito de terceiros. Segundo Aline Soaper:
“A inflação avança mais que os salários. Empreender, fazer bicos ou buscar qualificação profissional é o caminho mais viável para quem quer recuperar poder de compra.”
E se a pessoa não pagar?

Justiça pode ser acionada?
Sim, é possível processar a pessoa que utilizou seu nome, desde que haja provas do acordo informal: mensagens, recibos, testemunhas. No entanto, isso não isenta o dono do cartão ou do nome da obrigação imediata de pagar, caso a conta vença.
“O processo judicial pode demorar, e o nome sujo causa efeitos imediatos: perda de crédito, aumento de juros em novos empréstimos, e até restrições em contratos de trabalho”, reforça Merula Borges.
Emprestar nome: quando o “sim” custa mais que o “não”
Emprestar o nome para alguém é uma atitude que muitas vezes parte do coração, mas que pode custar caro para o bolso e para a relação. Como mostram os dados, embora a maioria das dívidas feitas em nome de terceiros tenha sido paga, o risco de inadimplência é real — e seus efeitos, duradouros.
Antes de aceitar emprestar cartão, fazer um financiamento ou assumir uma conta para um amigo ou parente, reflita sobre sua própria estabilidade financeira. Um “não” hoje pode ser mais saudável do que um vínculo rompido ou um nome negativado amanhã.
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