A Enel, concessionária responsável pelo fornecimento de energia elétrica em São Paulo, respondeu nesta terça-feira (25) às críticas feitas pelo prefeito da capital, Ricardo Nunes (MDB), a respeito do atraso no processo de substituição da frota de ônibus a diesel por veículos elétricos. O embate, que ganhou destaque nos noticiários, expõe as dificuldades estruturais e institucionais enfrentadas pelo programa de eletrificação do transporte público na maior cidade do país.
Enel diz que implantação de ônibus elétricos depende de iniciativas das empresas
Enel nega responsabilidade por atraso em ônibus elétricos e afirma que ações de empresas privadas também são necessárias para eletrificação da frota.
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Prefeito atribui responsabilidade à Enel

Acusações feitas em entrevista geram repercussão política
Na segunda-feira (24), durante entrevista à Rádio Eldorado, Nunes acusou a Enel de ser a principal responsável pelos entraves na eletrificação da frota. Segundo o prefeito, a empresa “não faz a ligação elétrica nas garagens” das empresas de transporte coletivo, o que impede o funcionamento pleno dos ônibus elétricos.
“Essa empresa irresponsável não faz a ligação elétrica nas garagens”, afirmou o prefeito, em tom crítico. A fala reacendeu o debate sobre o papel dos agentes públicos e privados no processo de transição energética do setor de transportes urbanos.
Enel responde e apresenta contexto técnico
Empresa nega atrasos e aponta responsabilidades compartilhadas
No dia seguinte, também em entrevista à Rádio Eldorado, o responsável por clientes de Governo e Empresas da Enel São Paulo, Marcello Sultanum Teixeira, refutou as acusações e afirmou que a concessionária está cumprindo os prazos acordados. Segundo ele, das quatro etapas principais necessárias à implementação da infraestrutura elétrica nas garagens, três dependem diretamente das operadoras de ônibus e do poder público.
“Apenas uma dessas etapas é de responsabilidade exclusiva da Enel”, explicou Teixeira, destacando que a empresa já fez entregas em várias garagens e continua trabalhando conforme cronograma acordado com a Prefeitura e com as empresas concessionárias de transporte.
Entenda as quatro etapas do processo
Etapa 1: Solicitação de ligação
O primeiro passo para a eletrificação das garagens é feito pelas operadoras de ônibus, que precisam formalizar a solicitação de ligação elétrica junto à Enel. Segundo a empresa, esse processo muitas vezes enfrenta atrasos devido à documentação incompleta ou à falta de planejamento das empresas de transporte.
Etapa 2: Obras internas nas garagens
Cabe às operadoras realizar adequações internas nas garagens, como obras de infraestrutura para receber os transformadores, instalações elétricas e equipamentos de segurança. Essas obras são pré-requisito para que a Enel possa realizar a conexão à rede.
Etapa 3: Projeto e viabilidade
A terceira etapa, de responsabilidade compartilhada, envolve a análise técnica e a viabilidade do projeto elétrico. A Enel precisa aprovar as plantas e verificar se há necessidade de reforço na rede local. Isso pode envolver tempo adicional caso sejam necessárias obras externas.
Etapa 4: Ligação pela Enel
A última fase, de fato, envolve a execução da ligação elétrica por parte da Enel. Teixeira garante que, uma vez cumpridas as etapas anteriores, a empresa realiza a conexão no prazo estabelecido, sem atrasos significativos.
Eletrificação da frota enfrenta entraves logísticos e regulatórios

Infraestrutura e financiamento são grandes desafios
A eletrificação da frota de ônibus é uma meta assumida pela Prefeitura de São Paulo em compromissos internacionais de redução de emissões. No entanto, o processo exige investimentos pesados em infraestrutura, aquisição de novos veículos, capacitação técnica e adequações nas garagens de operação.
Até o momento, a cidade conta com pouco mais de 400 ônibus elétricos em operação, um número considerado modesto frente à meta de eliminar os ônibus movidos a diesel até 2038. A transição depende de ações coordenadas entre o setor público, operadoras de transporte, fabricantes e concessionárias de energia.
Disputa política ou falha de comunicação?
Especialistas apontam falta de coordenação entre os envolvidos
Especialistas em políticas públicas e energia urbana apontam que o embate entre Enel e Ricardo Nunes pode refletir mais uma disputa política e de narrativa do que um impasse técnico. Para o urbanista Daniel Martinez, da Universidade Federal do ABC (UFABC), o conflito expõe a ausência de uma coordenação centralizada no projeto de transição energética da cidade.
“É evidente que todos os atores envolvidos precisam se alinhar. Esse tipo de declaração pública gera ruído e compromete o andamento do processo”, analisa Martinez.
Prefeitura deve criar comitê de crise
Objetivo é integrar Enel, operadoras e SPTrans em decisões conjuntas
Após a polêmica, fontes ligadas ao gabinete do prefeito indicaram que a gestão estuda a criação de um comitê de crise para tratar exclusivamente da eletrificação da frota. A ideia é reunir representantes da Prefeitura, da Enel, das empresas operadoras e da SPTrans (empresa pública de transporte da cidade), a fim de destravar os gargalos e acelerar os processos de conexão elétrica.
A proposta deve ser formalizada ainda nesta semana e prevê reuniões quinzenais para acompanhamento de metas e avaliação de pendências.
Empresas operadoras também estão sob pressão
Investimentos em infraestrutura ainda são limitados
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Enquanto a troca de farpas entre Enel e a Prefeitura se intensifica, as empresas operadoras de ônibus se encontram no centro do furacão. Muitas delas ainda não adaptaram suas garagens, não adquiriram os carregadores necessários e enfrentam dificuldades para obter financiamento para modernização da frota.
Segundo a Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos (NTU), o custo médio de conversão de uma garagem para suportar ônibus elétricos varia entre R$ 3 milhões e R$ 10 milhões, dependendo da escala e da região.
Ministério Público acompanha o caso
Promotoria investiga cumprimento da legislação ambiental municipal
Diante do atraso na implementação dos ônibus elétricos, o Ministério Público de São Paulo já acompanha a situação. Em abril, a Promotoria de Justiça do Meio Ambiente instaurou um procedimento para apurar se há omissão por parte da administração municipal e das operadoras na execução do plano de metas ambientais.
A apuração visa garantir o cumprimento da Lei Municipal 16.802/2018, que determina a redução gradual das emissões do transporte público na capital.
SPTrans promete divulgar novo relatório de progresso
Documento trará cronograma atualizado e gargalos técnicos
A SPTrans, responsável pela gestão do sistema municipal de ônibus, afirmou por meio de nota que divulgará nas próximas semanas um novo relatório detalhando o avanço da eletrificação da frota, os contratos assinados com empresas fornecedoras de veículos elétricos e os prazos para conclusão das adaptações nas garagens.
O documento deverá conter também uma avaliação sobre os gargalos enfrentados pelas concessionárias de energia e pelas operadoras privadas.
Expectativas para os próximos meses

Meta de 2038 exige coordenação e investimentos imediatos
Com os olhos voltados à meta de longo prazo de zerar a emissão de poluentes nos ônibus até 2038, a Prefeitura de São Paulo e os demais atores envolvidos terão que lidar com desafios técnicos, institucionais e financeiros nos próximos anos.
O recente embate entre Ricardo Nunes e a Enel mostra que a eletrificação da frota não é apenas uma questão de infraestrutura, mas também de gestão integrada e responsabilidade compartilhada.
Conclusão
Momento exige cooperação e não confronto público
A eletrificação da frota de ônibus em São Paulo é uma medida essencial para a transição energética urbana e para a redução da poluição. No entanto, sua efetivação depende da articulação entre diversos setores. A troca de acusações entre o prefeito Ricardo Nunes e a Enel evidencia falhas de coordenação que, se não forem resolvidas, podem comprometer os prazos e a confiança da população no processo. Mais do que disputas públicas, o momento exige cooperação técnica, transparência e vontade política.
