O Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) anunciou, na terça-feira (15), a abertura de uma investigação contra o Brasil, com foco nas práticas comerciais que, segundo Washington, prejudicam empresas norte-americanas. Entre os alvos da apuração está o Pix, sistema de pagamentos instantâneos desenvolvido pelo Banco Central, classificado como uma possível “prática desleal” que favorece soluções nacionais em detrimento de empresas estrangeiras, como Mastercard, Visa e big techs.
Pix e DREX colocam pressão sobre o dólar e gigantes como Visa e Mastercard
USTR investiga Pix como prática desleal e cita riscos à competitividade de big techs e bancos dos EUA.
Embora o processo ainda esteja em fase preliminar, a acusação formal de que o Pix e outras medidas do BC brasileiro criam barreiras à concorrência internacional reacende um debate sobre soberania tecnológica, transformação digital e os interesses por trás da liderança monetária global. A análise norte-americana também considera o impacto do Drex, moeda digital do Banco Central do Brasil, e da moeda única dos BRICs, que colocam em risco a predominância internacional do dólar.
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EUA veem favorecimento de soluções nacionais
Documento do USTR menciona concorrência desleal
Segundo o relatório divulgado pelo USTR, os serviços de pagamento eletrônico no Brasil “parecem se engajar em uma série de práticas desleais”, e a implementação de ferramentas como o Pix pode prejudicar a atuação de empresas americanas no comércio digital e em pagamentos eletrônicos.
O governo dos EUA sustenta que há favorecimento estatal a soluções desenvolvidas pelo próprio governo brasileiro, em possível desacordo com os princípios de livre concorrência no ambiente global. O alvo direto não seria o Pix em si, mas seu modelo de operação sob controle estatal e gratuito, que dificulta a atuação comercial de empresas com fins lucrativos, especialmente no setor financeiro.
Impacto indireto em big techs e operadoras de cartão
O documento cita que empresas americanas que oferecem serviços financeiros via aplicativos e redes sociais — como a Meta, com o WhatsApp Pay — enfrentaram obstáculos para entrar no mercado brasileiro, enquanto o Pix cresceu de forma acelerada. A Meta teve sua entrada liberada apenas parcialmente em 2020, após processos no Cade e discussões com Visa e Mastercard.
Na prática, o Pix ganhou vantagem competitiva por ser mais acessível, gratuito e promovido institucionalmente pelo Banco Central, o que teria reduzido o apelo das plataformas de pagamento privadas.
Especialistas apontam motivação protecionista dos EUA
Pix não afeta diretamente o comércio Brasil-EUA
De acordo com o advogado Fernando Canutto, especialista em fintechs e meios de pagamento do escritório BTLAW, o argumento dos EUA tem viés econômico-protecionista, já que o Pix não é utilizado em transações internacionais.
“O impacto é indireto: o Pix reduziu a relevância de soluções privadas como o WhatsApp Pay e as bandeiras de cartão no Brasil, mas isso não significa uma prática desleal contra empresas americanas”, afirma.
Mastercard e Visa perdem espaço
Segundo Pietro Dalla Costa Cervelin, sócio do Godke Advogados, a popularização do Pix reduziu o espaço de cartões de crédito e débito, segmentos historicamente dominados por Visa e Mastercard, empresas norte-americanas com grande presença no país.
O impacto mais evidente está nas transações entre pessoas físicas e jurídicas (PF-PJ), que migraram do cartão para o Pix. O advogado, contudo, considera exagerado chamar isso de conduta desleal:
“O Pix não impede que as bandeiras operem. Elas apenas perderam espaço para um sistema mais eficiente e gratuito. A alegação de Washington carece de elementos técnicos que justifiquem sanções.”
Dados mostram domínio do Pix no Brasil

Pix lidera pagamentos no país em 2025
Dados do Banco Central revelam que, no primeiro trimestre de 2025, o Pix foi responsável por 49% das transações financeiras realizadas no Brasil — quase metade do volume total. Em contraste, o cartão de crédito respondeu por apenas 14% das operações, ficando em segundo lugar.
Outros números reforçam a mudança no comportamento do consumidor:
- Transações com cartão de crédito: 19,8 bilhões em 2024 (alta de 11,2% em relação a 2023);
- Transações com cartão de débito: 16,7 bilhões (alta de menos de 3%);
- Crescimento do Pix no mesmo período: acima de 52%.
O crescimento exponencial da ferramenta, criada em 2020, transformou a lógica de pagamentos no país, reduzindo os custos de transações bancárias e promovendo a inclusão financeira.
Drex e moeda dos BRICs: os verdadeiros alvos
Especialista vê foco na digitalização do real
Na visão do economista Maurício Godoi, professor da Saint Paul Escola de Negócios, o foco da investigação americana não está apenas no Pix, mas sim no avanço do Drex, a moeda digital oficial brasileira ainda em fase de testes.
“O Pix já está consolidado. O verdadeiro risco, na visão dos EUA, é o que vem pela frente: o Drex e a integração monetária entre países do BRICs que pode reduzir a dependência do dólar.”
O Drex permitirá transações digitais instantâneas com moeda lastreada no real, sem necessidade de conversão para dólares. Isso pode afetar diretamente o sistema financeiro internacional, que ainda se baseia no dólar como moeda intermediária entre nações.
Moeda dos BRICs pode ameaçar dólar
A moeda única dos BRICs, em debate entre Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, representa um esforço geopolítico para desdolarizar o comércio internacional. Ainda que em estágio inicial, o projeto é visto com preocupação por analistas norte-americanos e por integrantes do governo Trump.
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Em 2023, foi realizada a primeira transação internacional bem-sucedida usando moeda digital entre Brasil e China, sem passar pelo dólar. Segundo Godoi, esse movimento tende a se expandir:
“Se o comércio entre Brasil e China for feito com Drex e yuan digital, os EUA deixarão de intermediar bilhões de dólares por ano. Isso afeta diretamente a hegemonia do dólar.”
Trump já alertou, em discurso recente, que poderá aplicar tarifas extras de 10% a países que apoiarem projetos antiamericanos, como o BRICs ou acordos comerciais paralelos.
Reações e perspectivas
Brasil ainda não se manifestou oficialmente
Até o momento, o Banco Central e o Ministério da Fazenda não se pronunciaram oficialmente sobre a investigação aberta pelos EUA. Especialistas acreditam que o governo brasileiro deve tratar o tema com cautela, para evitar desgaste diplomático em um momento de fragilidade econômica global.
Especialistas pedem cautela
Juristas e economistas avaliam que a acusação de prática desleal é genérica e baseada em interpretações políticas. Como o Pix é gratuito, acessível e não interfere em comércio exterior, dificilmente resultará em punições comerciais — mas o alerta está dado.
“O que está em jogo é o controle global sobre sistemas de pagamento e fluxos cambiais. Quem domina isso, domina o comércio global”, resume Cervelin.
O que pode acontecer a partir de agora

Etapas da investigação
O processo aberto pelo USTR deve seguir as seguintes fases:
- Coleta de dados e audiências públicas nos EUA;
- Convocação de autoridades brasileiras para prestar esclarecimentos;
- Elaboração de relatório final com recomendações à Casa Branca;
- Possível imposição de medidas compensatórias, como tarifas, restrições comerciais ou exigências de abertura de mercado.
Cenário geopolítico interfere na economia
O contexto internacional, com a volta de Donald Trump ao poder, adiciona uma camada política às questões econômicas. A postura protecionista de Trump e sua visão confrontativa com blocos como o BRICs criam ambiente de maior tensão diplomática e comercial, onde ferramentas como Pix, Drex e moedas digitais são vistas como ameaças estratégicas à supremacia americana.
Imagem: Reprodução/ Shutterstock & BC
