A China registrou em junho um aumento expressivo nas exportações de elementos de terras raras, impulsionado especialmente por um salto nas remessas destinadas aos Estados Unidos. Apesar da recuperação mensal, os volumes continuam significativamente abaixo dos patamares anteriores à imposição de restrições por parte do governo chinês, em abril deste ano.
Segundo dados da Administração Geral das Alfândegas da China, o país exportou 3.188 toneladas desses metais em junho — um avanço de 160% em relação às 1.238 toneladas de maio. O salto é expressivo, mas ainda representa uma queda de 38% em comparação com o mesmo mês de 2024.
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Exportações para os EUA sobem 660% após entendimento bilateral

Um dos destaques foi o volume enviado aos Estados Unidos, que saltou de forma surpreendente: foram 353 toneladas em junho, um aumento de 660% em relação ao mês anterior. O crescimento veio após um raro entendimento comercial entre Washington e Pequim, selado no final de maio, no qual ambos os países concordaram em reduzir tarifas de importação por um período de 90 dias.
O pacto inclui compromissos chineses de fornecer maiores volumes de terras raras, consideradas cruciais para a indústria tecnológica e de defesa dos EUA.
O que são terras raras e por que elas importam
Matéria-prima estratégica para tecnologia e energia limpa
As terras raras são um grupo de 17 elementos químicos essenciais para a fabricação de produtos como:
- smartphones
- carros elétricos
- turbinas eólicas
- motores a jato
- sistemas de orientação de mísseis
- chips de inteligência artificial
Apesar do nome, esses minerais não são necessariamente raros na crosta terrestre. No entanto, seu processo de extração e refino é caro, ambientalmente agressivo e tecnologicamente complexo. A China domina esse processo: concentra mais de 70% da produção global e mais de 90% da capacidade de refino.
Restrição chinesa acendeu alerta global
Europa e EUA pressionam por diversificação
Em resposta às tarifas norte-americanas e a medidas de contenção tecnológica, a China anunciou, em abril, restrições à exportação de sete elementos e ímãs de terras raras. O impacto foi imediato: paralisações em linhas de montagem na Europa, aumento de preços no mercado global e preocupação com a segurança das cadeias de suprimento.
O comissário europeu de Comércio, Maroš Šefčovič, declarou em junho que alertou seu homólogo chinês sobre o “estado alarmante” da indústria automotiva europeia, diretamente afetada pela escassez de ímãs permanentes.
“Trata-se de uma prioridade para a União Europeia enfrentar as restrições impostas pela China. A indústria depende profundamente desses insumos”, disse Šefčovič.
Queda acumulada em 2025 reforça clima de incerteza
Nos seis primeiros meses de 2025, as exportações chinesas de ímãs de terras raras somaram 22.319 toneladas, o que representa uma queda de 18,9% em relação ao mesmo período de 2024. Especialistas apontam que o número reflete tanto as limitações impostas por Pequim quanto uma retração da demanda internacional, causada pela instabilidade geopolítica.
EUA reagem com alívio nas restrições tecnológicas

O recente entendimento sobre as terras raras trouxe como contrapartida o relaxamento de algumas restrições norte-americanas à exportação de produtos tecnológicos para a China. Um exemplo disso foi o anúncio da Nvidia: a empresa retomará a venda de seu chip de inteligência artificial H20 AI para o mercado chinês, após a flexibilização de controles promovida pela Casa Branca.
A medida reverte decisão anterior, tomada em abril, quando os EUA haviam proibido a venda de chips de alto desempenho para empresas chinesas, temendo o uso militar e estratégico dos componentes.
Acordo de 90 dias é suficiente?
Especialistas veem trégua como temporária
Apesar do otimismo momentâneo, analistas do setor veem o acordo como frágil. A trégua de 90 dias é considerada um alívio temporário, que não resolve o problema estrutural: a dependência global da China para o fornecimento de terras raras.
O temor de que Pequim use os minerais como arma geopolítica continua forte, sobretudo entre aliados dos EUA e membros da União Europeia.
A corrida pela autossuficiência
Cazaquistão entra no radar com descoberta promissora
Com o objetivo de reduzir essa dependência, países como Austrália, Estados Unidos, Canadá e até o Cazaquistão têm investido em pesquisa e exploração de depósitos minerais alternativos. Recentemente, o Cazaquistão anunciou a descoberta de uma reserva que pode ser a terceira maior do mundo em terras raras.
Apesar do potencial, esses projetos levam anos para se tornarem operacionais. A China ainda deve manter sua liderança no fornecimento global durante esta década.
Destinos preferenciais e rearranjo da demanda

Em junho, os principais destinos das exportações chinesas de ímãs de terras raras foram:
- Alemanha
- Estados Unidos
- Vietnã
- Coreia do Sul
- Tailândia
A ordem reflete o realinhamento de cadeias produtivas e o esforço de países asiáticos em reforçar estoques estratégicos, especialmente em tempos de incerteza.
Conclusão: tensão estratégica continua
Embora o salto nas exportações em junho sinalize uma tentativa de normalização, o cenário segue marcado por incertezas. A disputa entre EUA e China vai além do comércio e envolve domínios críticos como energia limpa, segurança nacional e supremacia tecnológica.
A questão das terras raras, por sua vez, tornou-se símbolo dessa disputa — e elemento chave de qualquer estratégia que envolva reindustrialização verde e defesa nacional.
Os próximos meses serão decisivos para entender se a trégua se tornará um novo padrão de cooperação ou apenas mais uma pausa estratégica em um conflito de longo prazo.
