Corte de feriados e congelamento de benefícios: França mira ajuste fiscal rígido
Em meio a uma crescente pressão fiscal e risco de colapso político, a França se vê às voltas com uma proposta radical de ajuste orçamentário que envolve desde o corte de dois feriados nacionais até o congelamento das aposentadorias e limitações em programas de saúde e assistência social.
O plano, apresentado pelo primeiro-ministro François Bayrou, busca reduzir o déficit orçamentário e recuperar a confiança dos mercados diante do crescente endividamento do país.
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Contexto: A crise fiscal da França

Descontrole orçamentário e crise política
Desde que o presidente Emmanuel Macron dissolveu o Parlamento no ano passado numa tentativa malsucedida de fortalecer sua base, a França enfrenta um cenário político fragmentado e um déficit fiscal que chegou a 5,4% do Produto Interno Bruto (PIB).
A dificuldade de aprovar reformas profundas resultou em um impasse legislativo e uma escalada nos gastos públicos, pressionados por crises sucessivas, como os protestos dos “coletes amarelos”, a pandemia de Covid-19 e a inflação galopante.
Dívida em alta e alerta dos mercados
O peso da dívida pública francesa é hoje um dos mais altos da União Europeia. Estima-se que os pagamentos de juros ultrapassarão 60 bilhões de euros, tornando-se o maior item do orçamento.
Com agências de classificação de risco ameaçando rebaixar a nota da dívida soberana, o governo se viu forçado a agir com rigor.
Medidas propostas por Bayrou
Corte de feriados nacionais
Entre as propostas mais polêmicas está a eliminação de dois feriados públicos — cogita-se que sejam a Segunda-feira de Páscoa e o 8 de maio, data que celebra a vitória dos Aliados na Segunda Guerra Mundial.
A justificativa do governo é o ganho de produtividade e a sinalização simbólica de que “todos terão que contribuir”, como afirmou Bayrou em discurso ao Parlamento.
Congelamento das aposentadorias
Outra medida drástica é o congelamento dos valores das aposentadorias no mesmo patamar de 2025. Isso representa, na prática, uma perda do poder de compra para milhões de franceses, especialmente diante da inflação ainda presente.
A proposta é vista como um ataque direto ao modelo de bem-estar social francês, e deve enfrentar forte resistência das centrais sindicais e partidos de esquerda.
Redução nos gastos com saúde e assistência social
Também está prevista a limitação de despesas com saúde e programas sociais, o que pode afetar desde o acesso a medicamentos até os subsídios de apoio à população de baixa renda.
A proposta prevê ainda a não reposição de um em cada três servidores públicos aposentados, medida que visa encolher gradualmente a máquina estatal.
Reação política e risco de nova crise institucional
Ameaça de moção de desconfiança
A proposta chega em um momento em que o governo de Bayrou depende da tolerância da oposição para seguir governando. Partidos à esquerda já sinalizaram repúdio aos cortes na seguridade social, enquanto a extrema-direita classifica as medidas como “injustas” e “anti-povo”.
Um projeto de orçamento detalhado deverá ser apresentado em outubro, e analistas já especulam a possibilidade de uma nova moção de desconfiança, como a que derrubou o ex-premiê no final de 2024.
Macron apela por estabilidade
O presidente Emmanuel Macron, que tem mantido certa distância do tema, fez um apelo direto aos parlamentares para que evitem um novo impasse. Segundo ele, a moção que derrubou o governo anterior “prejudicou as empresas e atrasou investimentos cruciais na área de defesa”.
Mesmo com os cortes, Macron anunciou no domingo aumento dos gastos militares, movimento que visa conter ameaças geopolíticas e atender compromissos com a OTAN.
Comparações históricas e alertas
Lembrança da crise grega
Bayrou fez referência direta à crise da dívida na Grécia, ocorrida entre 2009 e 2018, como um exemplo do que a França deve evitar.
O país helênico precisou de múltiplos resgates internacionais e passou por um duro programa de austeridade para reequilibrar as contas públicas. “É tarde, mas ainda há tempo”, advertiu o primeiro-ministro francês.
França “viciada” em gastos públicos
O diagnóstico de Bayrou é claro: a França está “viciada em gastos”, e precisa mudar antes que seja tarde demais. Seu objetivo é ambicioso: reduzir o déficit para 4,6% em 2026 e, gradualmente, chegar ao teto de 3% imposto pela União Europeia até 2029.
Impactos esperados no cotidiano dos franceses
Perda de direitos trabalhistas
A retirada de feriados afeta diretamente os trabalhadores, sobretudo os do setor privado, que perdem dias de descanso e remuneração extra. O setor do turismo, tradicionalmente aquecido nesses feriados, também poderá sofrer impacto com a redução de fluxo em datas antes estratégicas.
Poder de compra ameaçado
O congelamento das aposentadorias e o corte em programas sociais atingem principalmente os mais vulneráveis. Com a inflação acumulada nos últimos anos, muitos idosos e famílias de baixa renda terão ainda mais dificuldade para manter sua qualidade de vida.
Serviços públicos sob pressão
Com a não substituição de servidores e o congelamento de gastos, espera-se aumento na sobrecarga de profissionais da saúde, educação e seguridade, além de possível queda na qualidade dos serviços públicos oferecidos.
França entre o ajuste e o abismo
O plano de François Bayrou marca um divisor de águas na política econômica francesa. Em busca de credibilidade fiscal, o governo se arrisca a enfrentar uma nova crise institucional e um embate direto com sindicatos, parlamentares e a população. As próximas semanas serão decisivas para o futuro do ajuste.
Se o Parlamento rejeitar as medidas ou aprovar uma nova moção de desconfiança, a França poderá mergulhar em uma nova fase de instabilidade política — algo que impactaria não só o país, mas toda a União Europeia, que observa atentamente o desenrolar do cenário fiscal da segunda maior economia do bloco.
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