O sindicalista José Ferreira da Silva, conhecido nacionalmente como Frei Chico e irmão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ingressou na Justiça contra publicações e perfis nas redes sociais que o relacionam ao esquema de descontos ilegais aplicados a aposentados. Vice-presidente do Sindicato Nacional dos Aposentados, Pensionistas e Idosos (Sindnapi) — uma das entidades investigadas pela Operação Sem Desconto, da Polícia Federal —, Frei Chico nega qualquer participação nas irregularidades e afirma ser alvo de “ataques falsos e ofensivos”.
A ação, protocolada no Tribunal de Justiça de São Paulo (TJSP), solicita a remoção de postagens que o associam diretamente às fraudes. O sindicalista alega que tem sido vítima de difamação sistemática, com base em acusações infundadas que circulam desde a abertura da CPMI do INSS, no Congresso Nacional.
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A polêmica da CPMI do INSS
A Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI), instaurada para investigar fraudes e descontos indevidos em benefícios do INSS, tem sido palco de embates políticos entre governo e oposição.
Na última quinta-feira (16 de outubro), o colegiado rejeitou o pedido de convocação de Frei Chico para depor. A decisão foi interpretada por opositores como tentativa de blindagem, enquanto aliados do governo sustentaram que não há indícios que justifiquem o depoimento.
Em nota à imprensa, Frei Chico reagiu às críticas e voltou a rechaçar o uso político da comissão:
“Não temo investigação, mas o que ocorre hoje é um julgamento antecipado, antes mesmo de os fatos serem apurados. É lamentável que parte da CPMI do INSS use esse processo como palco político, em vez de buscar a verdade”, declarou o sindicalista.
O que está sendo investigado
O foco das investigações da Polícia Federal e da Controladoria-Geral da União (CGU) é o desconto associativo irregular realizado em folhas de pagamento de aposentados e pensionistas, supostamente a partir de convênios fraudulentos entre entidades sindicais e o INSS.
Segundo apurações, entre 2020 e 2024, as receitas do Sindnapi cresceram mais de 500%, levantando suspeitas sobre a origem dos valores e possíveis cobranças sem autorização dos beneficiários.
Apesar da posição de liderança no sindicato, Frei Chico não é alvo formal da Operação Sem Desconto. A Polícia Federal confirmou que não há investigação aberta diretamente contra ele e que a ação mira dirigentes específicos, empresas e intermediários financeiros responsáveis por operacionalizar os descontos automáticos.
A Operação Sem Desconto

A Operação Sem Desconto, deflagrada pela Polícia Federal com apoio da CGU e do Ministério da Previdência Social, tem como objetivo desarticular um esquema nacional de cobranças indevidas em folhas de aposentadoria.
De acordo com as investigações, milhares de segurados tiveram valores descontados sem consentimento em nome de associações, cooperativas e sindicatos. As entidades investigadas teriam firmado Acordos de Cooperação Técnica (ACTs) com o INSS, permitindo o acesso direto à base de pagamentos do instituto.
Os contratos sob suspeita permitiam que os descontos fossem realizados automaticamente na folha de benefícios, sem checagem prévia de autorização expressa dos aposentados. Em muitos casos, os beneficiários descobriam os débitos apenas ao consultar o extrato no aplicativo Meu INSS.
O papel do Sindnapi e a defesa de Frei Chico
O Sindnapi é uma das entidades mais antigas e influentes do país na defesa dos aposentados e pensionistas. Criado na década de 1980, o sindicato sempre teve forte ligação com o movimento sindical ligado ao PT e à Central Única dos Trabalhadores (CUT).
Nos últimos anos, porém, a entidade passou a ser questionada por supostas irregularidades administrativas e aumento repentino das receitas. Mesmo assim, não há provas concretas de que o atual vice-presidente tenha se beneficiado ou participado das práticas investigadas.
Em sua defesa, Frei Chico afirmou que sempre atuou “com transparência e responsabilidade” e que continuará defendendo os direitos dos aposentados. Ele reiterou sua colaboração com as autoridades e repudiou as tentativas de difamação política:
“Tenho dedicado minha vida à luta dos trabalhadores e dos idosos. Repudio qualquer tentativa de associar meu nome a práticas que sempre combati. A verdade prevalecerá.”
Entenda o esquema de descontos ilegais
As fraudes sob investigação envolvem entidades associativas que se utilizavam de convênios com o INSS para efetuar descontos automáticos nas aposentadorias. Em teoria, o modelo serviria para facilitar a cobrança de mensalidades voluntárias de filiação sindical ou associativa.
Na prática, porém, muitas dessas cobranças eram inseridas sem autorização dos beneficiários, que viam valores mensais entre R$ 20 e R$ 100 sendo debitados indevidamente.
De acordo com a CGU, o volume total dos descontos indevidos pode ultrapassar R$ 600 milhões, considerando o período entre 2020 e 2024.
O mecanismo dos descontos indevidos
- Criação ou uso de associações de fachada — entidades sindicais ou sociais criadas apenas para firmar acordos com o INSS;
- Assinatura de ACTs (Acordos de Cooperação Técnica) — documentos que permitem às entidades inserir cobranças diretamente na folha de pagamento dos beneficiários;
- Inclusão de débitos sem consentimento — beneficiários eram cadastrados como associados sem assinatura ou autorização formal;
- Distribuição dos valores — parte dos recursos era destinada a intermediários e operadores financeiros ligados às entidades.
Essas práticas são tipificadas como fraude contra a administração pública, podendo resultar em responsabilização civil e criminal de dirigentes e prestadores de serviço.
CPMI sob críticas de politização
Desde a sua criação, a CPMI do INSS tem sido marcada por tensões políticas e divergências sobre o foco das investigações. Parlamentares de oposição ao governo tentam associar o caso ao PT e a nomes próximos a Lula, enquanto aliados do Planalto argumentam que a comissão vem sendo usada como instrumento de desgaste político.
Frei Chico, em sua nota, reforçou que não se opõe às investigações, mas repudia o uso eleitoral do caso:
“Não temo apuração séria e transparente, mas o que ocorre é uma tentativa de desviar o debate para ataques pessoais. O trabalhador aposentado precisa de respostas técnicas, não de palanque.”
A ação judicial de Frei Chico
O processo movido no Tribunal de Justiça de São Paulo (TJSP) tem como objetivo proteger a honra e a imagem do sindicalista.
A petição inicial solicita que o Judiciário determine a remoção imediata de postagens, vídeos e notícias falsas que associam o nome de Frei Chico às fraudes do INSS. A defesa pede ainda a identificação de perfis e veículos responsáveis pela disseminação das informações.
Segundo os advogados do sindicalista, o conteúdo publicado “não possui base fática, jurídica ou documental” e foi “claramente motivado por interesses políticos e eleitorais”.
Apoio e repercussão política
Aliados de Lula e dirigentes sindicais manifestaram apoio público a Frei Chico. Segundo o deputado Vicentinho (PT-SP), ex-presidente da CUT, o caso “é um ataque direto ao movimento sindical histórico”:
“Frei Chico é uma figura respeitada no sindicalismo brasileiro. Transformar uma investigação legítima em palanque político é desonesto com o país e com os aposentados.”
Por outro lado, parlamentares da oposição defendem que o nome do sindicalista deve ser apurado formalmente, ainda que não figure entre os investigados.
O senador Eduardo Girão (Novo-CE) declarou que “qualquer pessoa com posição de comando em entidades envolvidas precisa ser ouvida”.
Próximos passos e desdobramentos

A ação judicial movida por Frei Chico ainda aguarda análise preliminar do TJSP, que deve avaliar o pedido de liminar para retirada das publicações.
Enquanto isso, a CPMI do INSS continua colhendo depoimentos e analisando documentos da CGU, PF e Ministério da Previdência. O relatório final está previsto para o fim de novembro de 2025.
Mesmo sem ser formalmente investigado, Frei Chico segue sob escrutínio público, e o caso deve continuar repercutindo no cenário político e sindical.
Imagem: Reprodução/Instituto Lula



