O mercado de criptomoedas foi pego de surpresa nesta semana com a divulgação de dados oficiais sobre as reservas de Bitcoin do governo dos Estados Unidos.
Confusão bilionária: Governo dos EUA não vendeu Bitcoin, mas reservas são bem menores do que o imaginado
Governo dos EUA não vendeu seus Bitcoins, mas nova revelação mostra que suas reservas oficiais são menores do que muitos acreditavam.
A informação, publicada por uma jornalista independente, provocou confusão e levou até mesmo a senadora pró-Bitcoin Cynthia Lummis a concluir, equivocadamente, que os EUA haviam liquidado a maior parte de suas criptomoedas.
No entanto, uma análise mais criteriosa mostra que o governo não vendeu seus Bitcoins, mas que sua reserva efetiva é significativamente menor do que se supunha. A diferença entre moedas apreendidas e confiscadas está no centro da polêmica — e revela uma complexidade pouco compreendida até mesmo por membros do alto escalão político.
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Como surgiu a polêmica sobre a venda de Bitcoins pelo governo americano?
Jornalista acessa dados por meio da FOIA e revela carteira oficial do USMS
A confusão teve origem quando a jornalista independente conhecida como L0la L33tz publicou dados obtidos por meio da Lei de Acesso à Informação (FOIA), um mecanismo que garante transparência nos dados do governo norte-americano.
Ela revelou que o US Marshals Service (USMS), uma agência federal responsável por administrar ativos confiscados, possui apenas 28.988 Bitcoins em carteiras oficiais — valor que representa cerca de R$ 19 bilhões.
O dado surpreendeu, pois estimativas anteriores apontavam que o governo detinha até 200 mil Bitcoins, algo próximo a R$ 130 bilhões. A discrepância acendeu o alerta vermelho em parte da comunidade cripto, com muitos interpretando o dado como evidência de uma venda em massa.
Reações imediatas: alarme na comunidade e erro de interpretação

Cynthia Lummis reage com preocupação
A senadora republicana Cynthia Lummis, uma das principais defensoras do Bitcoin no Congresso dos EUA, reagiu de forma incisiva nas redes sociais:
“Estou alarmada com os relatos de que os EUA venderam mais de 80% de suas reservas de Bitcoin — restando apenas cerca de 29.000 moedas. Se for verdade, isso é um erro estratégico total e coloca os Estados Unidos anos atrás na corrida do Bitcoin.”
Investidores e analistas também foram levados ao erro
Outros nomes do setor cripto, como o investidor Fred Krueger, também se manifestaram, concluindo precipitadamente que os Bitcoins haviam sido liquidados:
“Eles venderam os bitcoins. A maior parte, pelo menos. O que restou é o que eles chamam de ‘reserva estratégica’.”
Essas interpretações foram impulsionadas pela publicação das carteiras do USMS, ignorando, porém, outras instituições federais que também controlam ativos digitais.
Mas o que realmente mostram os dados?
A diferença entre ativos “apreendidos” e “confiscados”
Logo após a reação explosiva, a própria jornalista tratou de esclarecer o mal-entendido. Segundo ela, a informação obtida via FOIA representa apenas os Bitcoins oficialmente confiscados e gerenciados pelo USMS.
Contudo, muitos ativos ainda não foram confiscados judicialmente e continuam sob custódia de agências como o FBI, DEA (Administração de Repressão às Drogas) e outras. Portanto, esses fundos não constam na lista oficial, mesmo estando sob controle do governo.
Confiscado x Apreendido: entenda a diferença jurídica
- Apreendido: Bitcoin foi tomado durante uma investigação, mas ainda não houve decisão judicial definitiva que torne o ativo propriedade do Estado.
- Confiscado: Após processo judicial, o Bitcoin passa a pertencer legalmente ao governo, podendo ser leiloado ou vendido.
O papel do USMS na gestão de Bitcoins do governo
Agência federal é responsável apenas por ativos prontos para liquidação
O US Marshal Service é a única agência que realiza leilões públicos de Bitcoin. Por isso, é natural que sua carteira represente apenas uma parte dos ativos em posse do Estado. Conforme explicou a jornalista:
“O USMS pode ser responsável por ativos apreendidos, mas esses também podem estar sob custódia das agências que os apreenderam, como a DEA ou o FBI.”
A explicação derrubou a hipótese de que o governo teria promovido uma venda em larga escala sem comunicar o mercado.
Dados da Arkham mostram reserva real próxima de 200 mil BTC
Muitos Bitcoins ainda estão presos em disputas legais
A plataforma de inteligência blockchain Arkham Intelligence identificou que cerca de 198 mil BTC estão vinculados a endereços do governo norte-americano, embora nem todos estejam disponíveis para venda imediata. Isso inclui:
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- 94 mil BTC ligados ao caso Bitfinex, que devem ser devolvidos às vítimas do ataque hacker;
- Fundos em custódia da Receita Federal e do FBI, aguardando processo judicial;
- Outros saldos bloqueados por ações judiciais em andamento, ou ainda não totalmente transferidos ao USMS.
Portanto, embora estejam tecnicamente sob controle do governo, não fazem parte do estoque disponível para alienação.
Impacto legal e estratégico da posse de Bitcoin pelo governo
Reservas de Bitcoin podem ter valor estratégico para os EUA
A discussão sobre as reservas de Bitcoin dos EUA vai além do aspecto financeiro. Em um cenário global de adoção crescente das criptomoedas, posicionar-se como detentor de ativos digitais pode trazer vantagens geopolíticas.
Entretanto, a forma descentralizada com que diferentes órgãos federais gerenciam esses ativos cria lacunas de transparência e favorece interpretações erradas.
A falta de um inventário público unificado
O episódio mostra que, mesmo em um país com forte estrutura institucional como os Estados Unidos, não existe um inventário público consolidado das criptomoedas em posse do governo federal. Isso abre espaço para:
- Interpretações erradas, como a da senadora Cynthia Lummis;
- Boatos sobre vendas escondidas ou manipulação de mercado;
- Perda de confiança na política de gestão de ativos digitais.
Efeitos no mercado: volatilidade e desinformação
Bitcoin se manteve estável, mas temor de vendas massivas assustou
Mesmo diante da confusão, o preço do Bitcoin não sofreu uma queda abrupta, o que mostra que parte do mercado compreendeu rapidamente a natureza do erro.
No entanto, o episódio expõe os riscos da desinformação em um mercado altamente sensível, onde boatos podem gerar volatilidade de bilhões em poucos minutos.
Conclusão: o governo dos EUA continua com Bitcoin, mas menos do que se pensava

A divulgação dos dados do USMS não revela uma venda em massa, mas sim a realidade mais modesta sobre as reservas de Bitcoin do governo norte-americano. Ao contrário do que sugeriram interpretações apressadas, os EUA não se desfizeram de 80% de seus Bitcoins — simplesmente não possuem tudo o que se estimava.
A confusão entre ativos em posse legal e aqueles apenas apreendidos mostra como a falta de clareza institucional pode gerar pânico e decisões erradas, inclusive entre legisladores.
