Apenas um país no mundo produz todos os alimentos que consome, aponta estudo
Num cenário global em que a segurança alimentar se torna um desafio cada vez mais crítico, um estudo publicado na revista científica Nature Food acende um alerta: entre quase 200 países avaliados, apenas a Guiana – vizinha do Brasil – é autossuficiente em todos os grupos de alimentos essenciais.
A conclusão, fruto de uma pesquisa conduzida por universidades da Alemanha e do Reino Unido, revela as vulnerabilidades das cadeias de produção global e o quanto o mundo depende do comércio internacional para alimentar suas populações.
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O único país autossuficiente em comida
O estudo foi liderado por especialistas da Universidade de Göttingen, na Alemanha, e da Universidade de Edimburgo, no Reino Unido, com base em dados de consumo diário per capita de 2020. Segundo os pesquisadores, “somente a Guiana alcança a autossuficiência para todos os grupos alimentares”.
Isso significa que o pequeno país sul-americano, com pouco mais de 800 mil habitantes, consegue suprir internamente as necessidades de sua população em frutas, vegetais, carnes, peixes, laticínios, proteínas vegetais e alimentos básicos ricos em amido, como arroz, batatas e trigo.
O que foi avaliado pelo estudo
A análise considerou o equilíbrio entre a produção doméstica e as recomendações alimentares da dieta Livewell, promovida por organizações como o WWF (World Wide Fund for Nature). Essa dieta propõe uma alimentação saudável e sustentável, com foco na saúde humana e na redução do impacto ambiental. Ela sugere:
- Alta ingestão de frutas, vegetais e grãos integrais;
- Consumo moderado de carnes, ovos e laticínios;
- Redução de alimentos ultraprocessados e ricos em sal, açúcar e gordura.
Com base nesses parâmetros, a pesquisa avaliou 187 países (186 no caso de laticínios) e sua capacidade de abastecer a própria população com os alimentos exigidos por essa dieta.
Realidade mundial: déficit em autossuficiência
Apesar de a Guiana ter se destacado como exceção, a realidade da maioria dos países é bem diferente. De acordo com o levantamento:
- Mais de um terço das nações não atinge autossuficiência em dois ou mais dos sete grupos alimentares.
- Seis países não produzem o suficiente em nenhum grupo alimentar, sendo eles: Afeganistão, Qatar, Emirados Árabes Unidos, Iêmen, Iraque e a Região Administrativa Especial de Macau (ligada à China).
- 154 países conseguem se sustentar em apenas dois a cinco grupos alimentares.
- Apenas 1 em cada 7 países é autossuficiente em cinco ou mais grupos.
Segundo o estudo, “a maioria desses países com maior índice de autossuficiência está localizada na Europa e América do Sul”.
Desigualdade entre continentes
Os dados do estudo também apontam para desigualdades regionais. Na África, 25 países não alcançam autossuficiência em mais de dois grupos alimentares. No Caribe, esse número é de 10 países. A Europa apresenta sete nações nessa condição, embora, no geral, se saia melhor na produção de laticínios: todos os países europeus avaliados conseguem suprir sua demanda interna por esses produtos.
Já na Oceania e em boa parte da África, a produção de laticínios ainda é um desafio. Menos da metade dos países analisados consegue ser autossuficiente nesse item. Um destaque é a China e o Vietnã, que conseguem atender internamente às necessidades em seis dos sete grupos alimentares – exceto laticínios.
Dependência do comércio internacional
Os resultados escancaram a dependência global das cadeias de importação e exportação. Países como Emirados Árabes Unidos e Qatar, por exemplo, mesmo com alto poder aquisitivo, precisam importar quase tudo o que consomem, o que os torna vulneráveis a crises econômicas, conflitos geopolíticos e mudanças climáticas que impactam a produção e o transporte global de alimentos.
Essa dependência não afeta apenas a segurança alimentar – ela também tem impacto ambiental. O transporte de alimentos por longas distâncias aumenta a emissão de gases de efeito estufa, contrariando os princípios de sustentabilidade da dieta Livewell.
Por que a Guiana consegue e outros não?
A Guiana, embora pequena em população e economia, possui vastos recursos naturais e práticas agrícolas que favorecem a autossuficiência. Suas condições climáticas, abundância de água e extensão de áreas férteis contribuem para uma produção diversificada, que atende às necessidades nutricionais da população local.
Além disso, a baixa densidade populacional facilita o equilíbrio entre produção e consumo, algo mais desafiador em países densamente povoados ou com pouca área cultivável.
Implicações para o futuro
O estudo destaca a importância de repensar os sistemas alimentares, tanto do ponto de vista nutricional quanto ambiental. Investir em produção local, diversificação agrícola e políticas de incentivo à autossuficiência pode ser uma estratégia eficaz para enfrentar crises alimentares globais.
No entanto, os pesquisadores alertam que é fundamental que os países não apenas ampliem sua produção, mas também adaptem seus sistemas alimentares a modelos sustentáveis e resilientes ao clima.