Brasileiros perdem herança oculta de até R$ 50 mil; saiba como buscar
Muitas famílias brasileiras enfrentam não apenas a dor da perda de um ente querido, mas também prejuízos financeiros significativos por desconhecimento de seus direitos de herança.
Estudo recente da empresa Planeje Bem, especializada em planejamento sucessório e apoio pós-perda, mostra que cidadãos deixam de resgatar valores entre R$ 10 mil e R$ 50 mil após a morte de familiares.
São os chamados “ativos invisíveis”, benefícios financeiros e sociais que muitas vezes passam despercebidos no momento do luto. Sendo assim, acompanhe a leitura abaixo e entenda melhor sobre a possibilidade de heranças esquecidas.
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O que são ativos invisíveis?
Benefícios esquecidos após a morte
Os ativos invisíveis são valores que o falecido deixou, mas que não necessariamente constam de forma clara no inventário ou no conhecimento dos familiares. Entre essas heranças, estão:
- Seguros de vida;
- Planos de previdência privada;
- Saldos de FGTS e PIS/PASEP;
- Milhas aéreas;
- Auxílios-funeral de bancos e operadoras de cartão;
- Restituições de IR;
- Saldos em contas bancárias.
Segundo Carolina Aparicio, co-CEO da Planeje Bem, o principal motivo do esquecimento é a falta de orientação. “Muitas pessoas pensam que tudo precisa passar por inventário. Mas há direitos que podem ser acessados com procedimentos administrativos simples”, afirma.
Herança invisível: o que exige inventário?
Inventário é obrigatório para alguns bens
Apesar de muitos ativos poderem ser resgatados sem inventário, alguns ainda exigem esse processo jurídico. Entre eles:
- Imóveis;
- Veículos;
- Investimentos financeiros sem beneficiário indicado;
- Planos de previdência sem beneficiários.
De acordo com o advogado Fábio Botelho Egas, bens que exigem transferência de titularidade formal — como imóveis e veículos — obrigam a abertura do inventário, seja judicial ou extrajudicial.
O que pode ser acessado sem inventário?
Alguns ativos podem ser requeridos diretamente pelos herdeiros, sem a necessidade de abrir inventário. Entre eles:
- Seguros de vida com beneficiário nomeado;
- Previdência privada com beneficiário;
- FGTS e PIS/PASEP;
- Restituições de IR de até 500 salários mínimos.
Esses valores seguem a lógica do Direito das Obrigações. São contratos firmados com instituições, que devem cumprir o pagamento ao beneficiário indicado pelo falecido, sem exigência de partilha judicial.
Como solicitar os valores esquecidos
Resgate administrativo
No caso dos benefícios que não exigem inventário, o procedimento costuma ser administrativo. Os herdeiros devem procurar a instituição responsável (banco, seguradora, Receita Federal, etc.) e apresentar documentos como:
- Certidão de óbito;
- RG e CPF do falecido e do herdeiro;
- Certidão de nascimento ou casamento;
- Comprovantes de vínculo com o ativo (como contrato de seguro, extratos bancários, etc.).
Resgate por alvará judicial
Quando o valor está em uma conta, aplicação ou benefício sem beneficiário direto, mas ainda dentro do limite legal (até 500 salários mínimos), é possível requisitar um alvará judicial. Esse documento autoriza o saque mesmo sem inventário completo. Para isso, é preciso entrar com um pedido na Justiça, acompanhado de toda a documentação.
Quando é necessário abrir inventário?
Para bens de maior valor ou que exigem registro — como imóveis, veículos ou grandes investimentos —, o inventário é obrigatório. O procedimento pode ser feito extrajudicialmente (em cartório) se houver acordo entre os herdeiros, ou judicialmente, se houver disputas ou herdeiros menores de idade.
Max Bandeira, do Bandeira Damasceno Advogados, explica: “A primeira etapa é consultar um advogado especializado e reunir toda a documentação do espólio. Quanto mais organizado o processo, mais rápido e menos custoso ele será”.
Plataformas de consulta: onde encontrar valores esquecidos?
Muitos dos ativos invisíveis podem ser localizados em sistemas digitais. Veja onde e como procurar:
SVR – Sistema de Valores a Receber (Banco Central)
- Consulta de dinheiro esquecido em bancos.
- Site: https://www.bcb.gov.br/meubc/valores-a-receber.
REPIS Cidadão
- Consulta de cotas residuais do PIS/PASEP.
- Requer número do NIS do falecido.
- Site: https://repiscidadao.fazenda.gov.br.
Meu INSS
- Verifica benefícios previdenciários pendentes.
- Acesso com login gov.br.
e-CAC (Receita Federal)
- Consulta de declarações de IR e restituições.
- Mostra dados sobre ativos financeiros declarados.
Censec
- Consulta testamentos e escrituras de doação.
- Pode revelar patrimônio não declarado em vida.
SUSEP
- Consulta a seguros de vida e planos de previdência privada.
- Site: https://www.susep.gov.br.
Detran
- Identifica veículos em nome do falecido.
- Cada estado possui seu próprio portal.
B3 (Bolsa de Valores)
- Consulta à posição de ativos financeiros do falecido.
- Mostra quais corretoras possuem investimentos em nome da pessoa.
Valores de antigos planos econômicos também podem ser resgatados
Planos Bresser, Verão, Collor I e II
Outro tipo de valor esquecido envolve as ações judiciais de ressarcimento dos antigos planos econômicos. Muitos brasileiros ajuizaram ações nos anos 80 e 90 para reaver perdas, mas parte dessas decisões só está sendo julgada agora — quando o titular já faleceu.
Como consultar?
- Acesse o site do Tribunal de Justiça do seu estado.
- Busque pelo nome completo ou CPF do falecido.
- Caso não encontre, vá pessoalmente ao Fórum e solicite apoio no setor de distribuição de processos.
Organização é a chave para evitar perdas de herança
Especialistas são unânimes em afirmar: o principal motivo para o esquecimento de ativos é a falta de organização documental e a ausência de um planejamento sucessório adequado. Situações inesperadas, como mortes súbitas, dificultam o processo e aumentam as chances de valores deixados passarem despercebidos.
A recomendação é manter uma lista atualizada de bens, seguros, contas e contratos — e que esse documento seja acessível a familiares ou guardado junto ao testamento.
Conclusão
A falta de informação e o impacto emocional do luto impedem milhares de famílias brasileiras de acessarem valores expressivos deixados por parentes falecidos.
Com o uso correto das plataformas digitais e a busca por apoio jurídico quando necessário, é possível recuperar benefícios que somam até R$ 50 mil — ou até mais, em certos casos.
A orientação profissional e o planejamento sucessório são ferramentas fundamentais para garantir que nenhum direito fique para trás.
Imagem: Freepik / Edição: Seu Crédito Digital