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Músicas feitas com IA: especialistas apontam dilemas e desafios

A música sempre foi um reflexo do seu tempo. Das partituras manuscritas ao streaming, cada evolução tecnológica mudou a forma como compomos, consumimos e entend

Fernanda RamosPor Fernanda Ramos5 min de leitura
Mulher feliz ouvindo música sentada no sofá de pernas cruzadas e balançando os braços. amazon music

A música sempre foi um reflexo do seu tempo. Das partituras manuscritas ao streaming, cada evolução tecnológica mudou a forma como compomos, consumimos e entendemos a arte sonora. Agora, no entanto, um novo protagonista entra em cena: a inteligência artificial (IA). Capaz de compor melodias, letras e até interpretar estilos consagrados, a IA gera entusiasmo, mas também provoca dilemas éticos e filosóficos profundos. Afinal, uma música criada por uma máquina pode ser considerada autêntica?

Mais do que uma revolução técnica, a ascensão da IA na música escancara as fronteiras entre criatividade humana, simulação algorítmica e propriedade intelectual. Especialistas e artistas já se dividem entre o fascínio pela novidade e a preocupação com o impacto que ela pode ter sobre a essência da arte.

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Quando a tecnologia “faz arte”

IA empregos
Imagem: sdecoret / Adobe Stock

A discussão não é nova. Ainda nos anos 1990, Chico Science já cantava que “computadores fazem arte, artistas fazem dinheiro” — versos visionários que hoje ganham sentido literal. Ferramentas de IA já criam não só músicas, mas também imagens, roteiros e até vozes, tudo a partir de modelos treinados com enormes quantidades de dados culturais existentes.

E é justamente aí que reside a polêmica: se a IA reorganiza padrões pré-existentes, pode-se dizer que ela realmente cria algo novo? Para o compositor e produtor musical Felipe Vassão, a originalidade nasce da intenção de expressar algo próprio, arriscando-se naquilo que só um ser humano é capaz de experimentar. “A IA não vive, não tem vontade ou intuição. Ela apenas simula criatividade ao reorganizar médias do que já existe”, diz.

O valor da autenticidade na arte

Para entender o debate, basta olhar para o próprio significado de “autêntico”. O dicionário define o termo como algo cuja autoria é comprovada e original. Já para Caroline Steinhorst, diretora criativa da agência b+ca, autenticidade na música vai além da autoria: é sobre emoção, experiência e sentimento transmitido. “Acho que está muito conectada com entregar uma emoção, uma experiência, passar um sentimento. Nós estamos vivendo um tempo meio confuso em que fica difícil definir se o autêntico é ser verdadeiro ou parecer verdadeiro”, afirma.

A IA, por sua vez, não sente emoções nem vive experiências humanas. Ela responde a comandos com base em dados, o que levanta a suspeita de que as suas criações não passam de edições sofisticadas — ou mesmo plágios. Caroline alerta: “Então, quando alguém diz que criou algo autêntico com IA, o que geralmente aconteceu foi uma curadoria ou uma uma edição sobre um resultado genérico”.

Quando a IA cruza a linha da autoria

Em 2023, a Universal Music Group processou a Suno, uma das principais plataformas de criação musical por IA, alegando uso não autorizado de arquivos musicais para treinamento do modelo. A própria empresa admitiu, em juízo, que sua IA foi treinada com “essencialmente todos os arquivos musicais disponíveis na internet”.

Para Felipe Vassão, a situação é diferente de técnicas já consagradas como o sampling, comum no rap e na música pop. “Você consegue identificar a amostra, correr atrás da liberação e a pessoa que é dona daquele sample pode processar você”, explica.

Velvet Sundown: provocação ou fraude?

Um dos casos mais emblemáticos dessa nova era aconteceu em julho de 2025. A banda Velvet Sundown rapidamente se tornou popular no Spotify, acumulando mais de um milhão de ouvintes mensais. Fãs, no entanto, notaram que tanto as músicas quanto as imagens promocionais do grupo eram geradas por IA.

A “banda” confirmou em nota que tudo não passava de uma provocação artística para “desafiar os limites da autoria, da identidade e do futuro da música”. Para Caroline, o sucesso meteórico do projeto mostra como é possível manipular algoritmos para atender expectativas do público e ganhar visibilidade, mas ao mesmo tempo pode desestimular artistas reais.

A responsabilidade das big techs

Tanto Felipe quanto Caroline concordam que a expansão das músicas feitas por IA é inevitável, impulsionada pela popularização das ferramentas e pelo interesse da indústria em reduzir custos. A questão, dizem eles, é como as grandes empresas de tecnologia vão se posicionar para evitar o colapso criativo do mercado.

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Algumas plataformas já começam a agir: o Deezer criou selos que identificam músicas geradas por IA, e o Spotify removeu milhares de faixas que abusavam de seus modelos de monetização. Para Caroline, no entanto, falta um consenso sobre regras claras de uso, autoria e crédito.

O público ainda valoriza o humano

Imagem de um celular mostrando as principais plataformas de streaming de música com um fonte de ouvido ao lado
Imagem: Tada Imagens / Shutterstock

Por mais realistas e convincentes que sejam as músicas feitas por IA, os especialistas apostam que a experiência ao vivo continuará sendo um diferencial dos artistas de carne e osso. “No final das contas, as pessoas continuam querendo a experiência do ao vivo, do real, ainda querem ir nos eventos. Pode fortalecer os artistas que vão conseguir criar essa conexão em que você consegue ver a pessoa, assistir a ela nos Stories, acho que é outra relação”, avalia Caroline.

Ela também acredita que a proliferação da IA pode, paradoxalmente, fortalecer os artistas humanos que conseguirem transmitir autenticidade e construir relações reais com seus fãs.

Caminhos para o futuro

Seja como ferramenta criativa, provocação artística ou ameaça ao mercado, a música feita por IA já é uma realidade. Cabe agora à sociedade — consumidores, artistas, indústria e governos — estabelecer limites, normas e novas formas de convivência entre humano e máquina.

No fim, a pergunta que fica é: a música que você ouve precisa ser feita por alguém ou basta que ela te faça sentir algo?

Com informações de: Canaltech

Fernanda Ramos

Autor

Fernanda Ramos

Fernanda é graduanda em Letras Vernáculas pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), com sólida formação em língua portuguesa. Atua na estruturação, revisão e aprimoramento textual dos conteúdos do portal Seu Crédito Digital, garantindo clareza, coesão e qualidade editorial. Apaixonada por comunicação, tem como missão facilitar o acesso à informação com linguagem acessível e confiável.

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