Importações da China batem recorde no Brasil; governo acende sinal de alerta
As importações de produtos chineses atingiram um patamar histórico no Brasil nos primeiros cinco meses de 2025, somando US$ 29,5 bilhões, um aumento de 26% em relação ao mesmo período do ano anterior.
A crescente presença de bens chineses no mercado brasileiro, especialmente aço e veículos elétricos, acendeu um sinal de alerta no governo federal, que avalia novas medidas de defesa comercial.
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Vice-presidente Alckmin fala em “defesa comercial total”
Em evento do setor industrial realizado no final de maio, o vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin, destacou a preocupação do governo:
“Estamos com uma lupa nas importações. É defesa comercial total. Não é protecionismo, mas sim proteção legítima.”
A fala de Alckmin reflete o receio de que a intensificação da disputa comercial entre Estados Unidos e China redirecione o excedente de exportações chinesas para mercados como o Brasil.
Balança comercial afetada por compras pontuais
Um fator que contribuiu para o salto nas importações foi a aquisição de uma plataforma de petróleo no valor de US$ 2,6 bilhões, em fevereiro. Apesar de ser uma operação pontual, a compra impactou a balança comercial, gerando um raro déficit mensal de US$ 300 milhões.
Exportações em queda
Enquanto as importações cresceram, as exportações brasileiras para a China recuaram cerca de 10% no mesmo intervalo. Esse descompasso reforça o temor de um desequilíbrio comercial estrutural.
Produtos chineses que mais entraram no Brasil
Insumos químicos e fertilizantes dobram
Entre os produtos importados com maior crescimento, destacam-se os insumos químicos e fertilizantes. Esses itens, no entanto, não figuram entre os principais alvos de atenção do governo.
Foco em aço e veículos elétricos
A principal preocupação está voltada para dois setores sensíveis: o aço e os veículos elétricos. Ambos enfrentam forte concorrência dos produtos chineses, que chegam ao Brasil com preços altamente competitivos, muitas vezes abaixo do custo de produção nacional.
Pressão por tarifa sobre veículos elétricos
A Anfavea (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores) pressiona há mais de um ano o governo para antecipar o aumento da tarifa de importação sobre veículos elétricos. Atualmente em 18%, a alíquota está programada para subir para 35% apenas em julho de 2026.
Enquanto isso, fabricantes chineses pressionam pela redução da tarifa. O impasse continua sem resolução.
Aço chinês: governo reage com investigação e tarifas
A entrada massiva de aço chinês é um fenômeno de longa data, mas tem se agravado com as tarifas impostas pelos Estados Unidos ao produto asiático, empurrando o excedente para países como o Brasil.
Investigação histórica de dumping
Em resposta, o Ministério do Desenvolvimento abriu no início de junho a maior investigação de dumping da história do país, envolvendo 25 grupos de produtos siderúrgicos chineses.
A prática de dumping ocorre quando um país vende ao exterior produtos a preços inferiores aos praticados no mercado interno.
Renovação e ampliação de tarifas
Além da investigação, o governo renovou a alíquota de 25% do imposto de importação para 19 tipos de aço e estendeu a taxação para outros quatro códigos de NCM (Nomenclatura Comum do Mercosul), totalizando 23 produtos. As tarifas valerão por 12 meses.
Como o aço chinês impacta a indústria nacional?
Concorrência desleal afeta produção e empregos
O principal impacto é a perda de competitividade da indústria brasileira. Com o aço chinês sendo vendido a preços mais baixos, empresas locais enfrentam dificuldades para competir.
Por exemplo, se uma siderúrgica brasileira comercializa a tonelada de aço por R$ 6.500 e o concorrente chinês oferece por R$ 5.500, empresas da construção civil, automobilística e de linha branca tendem a optar pelo importado, comprometendo a sustentabilidade da produção nacional.
Efeitos em cadeia
Essa situação pode resultar em redução da produção, demissões e até fechamento de fábricas. A dependência de insumos importados também fragiliza a cadeia produtiva interna em momentos de crise internacional.
Entenda o conceito de dumping
O que é dumping?
Dumping é uma prática comercial desleal onde empresas vendem produtos a preços artificialmente baixos em mercados estrangeiros para ganhar participação de mercado, prejudicando os produtores locais.
Como o Brasil combate o dumping?
O principal instrumento de combate ao dumping no Brasil são as investigações conduzidas pelo Decom (Departamento de Defesa Comercial), que podem levar à aplicação de direitos antidumping, ou seja, tarifas extras sobre produtos importados de forma desleal.
Indústria nacional cobra agilidade do governo
Lideranças industriais têm cobrado respostas mais rápidas do governo frente à concorrência estrangeira. A demora na aplicação de tarifas ou medidas compensatórias pode comprometer setores estratégicos da economia nacional.
Sinais de desaceleração no setor industrial
De acordo com o Índice de Gerentes de Compras (PMI), a indústria brasileira registrou contração em maio de 2025, a primeira em 17 meses. Parte desse resultado é atribuída à entrada de produtos chineses e à falta de políticas eficazes de proteção.
Caminhos para o equilíbrio comercial
Acordos bilaterais e integração regional
Analistas defendem que o Brasil busque alternativas como acordos bilaterais com outros mercados emergentes, bem como uma maior integração comercial com países da América Latina, para reduzir a dependência da China.
Investimento em inovação e produtividade
Outro caminho apontado por especialistas é o investimento em inovação tecnológica, automação industrial e formação de mão de obra qualificada, para aumentar a competitividade das empresas brasileiras sem recorrer exclusivamente a tarifas de proteção.
Conclusão: desafio de equilibrar comércio e indústria
O recorde de importações da China revela um dilema crescente para o Brasil: como manter um ambiente de comércio aberto e competitivo sem comprometer a sobrevivência da indústria nacional.
A atuação governamental será decisiva nos próximos meses para evitar uma desindustrialização acelerada, sobretudo nos setores mais sensíveis ao impacto das importações.
A defesa comercial, se bem calibrada, pode proteger empregos e preservar a capacidade produtiva do país. No entanto, é fundamental que venha acompanhada de políticas estruturais que fortaleçam a indústria brasileira frente aos desafios globais.