O infarto, historicamente associado à população idosa, passou a figurar como ameaça real para brasileiros com menos de 40 anos. Dados divulgados pelo Ministério da Saúde revelam que entre 2022 e 2024 foram registrados mais de 234 mil atendimentos por infarto nessa faixa etária, resultando em 7,8 mil mortes. O crescimento de 180% nos casos evidencia um cenário alarmante e multifatorial, onde o estilo de vida moderno, agravado pela pandemia de Covid-19, tem colocado a saúde cardiovascular dos jovens em risco.
O fenômeno atinge principalmente adultos entre 31 e 40 anos, mas já há registros preocupantes entre adolescentes e até crianças. O impacto maior é observado entre os homens, que representam cerca de dois terços dos casos, com 156 mil atendimentos, contra 77 mil entre mulheres.
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Especialistas apontam que o avanço dos infartos entre jovens está fortemente relacionado ao aumento de hábitos prejudiciais à saúde, como o tabagismo, a má alimentação, o uso de anabolizantes e a falta de exercícios físicos. Esses fatores, aliados à predisposição genética e às desigualdades no acesso ao sistema de saúde, formam um cenário preocupante.
Tabagismo e cigarro eletrônico: inimigos silenciosos
O cigarro segue como o principal fator de risco. Seu uso aumenta em até cinco vezes as chances de infarto, segundo a Sociedade Brasileira de Cardiologia. Mais recentemente, os cigarros eletrônicos — ou “vapes” — entraram em cena. Embora vistos como alternativa “menos nociva”, os dispositivos concentram altos níveis de nicotina e substâncias tóxicas, causando danos diretos ao sistema cardiovascular.
“O vape não é inofensivo. A exposição à nicotina e aos químicos presentes nesses dispositivos prejudica a função endotelial e favorece o desenvolvimento de placas nas artérias”, explica o cardiologista Rafael Côrtes, do Hospital Sírio-Libanês.
Obesidade e alimentação ultraprocessada
Outro fator relevante é a obesidade, que hoje afeta 34% da população brasileira, conforme dados da Fiocruz. O excesso de gordura abdominal contribui diretamente para condições como hipertensão, diabetes tipo 2 e colesterol alto, todas relacionadas ao surgimento de infartos.
A alimentação baseada em produtos ultraprocessados — como refrigerantes, salgadinhos e fast food — é uma das maiores responsáveis pelo aumento do peso corporal e da inflamação crônica no organismo.
Anabolizantes: estética que cobra caro
O uso crescente de esteroides anabolizantes, especialmente entre jovens em busca de performance física e aparência muscular, eleva o risco cardiovascular.
“Anabolizantes aumentam o colesterol ruim (LDL), reduzem o bom (HDL) e favorecem o espessamento das artérias”, afirma Côrtes. “O risco de infarto pode ser até três vezes maior entre usuários.”
Pandemia e infartos: um legado cardiovascular
Imagem: Foodie Factor / pexels.com
Isolamento, estresse e sedentarismo
A pandemia de Covid-19 aprofundou o problema. Com a rotina alterada, muitos jovens adotaram hábitos ainda mais nocivos à saúde do coração. Houve aumento do sedentarismo, piora na alimentação e maior exposição ao estresse, criando um ambiente ideal para o surgimento de doenças cardiovasculares.
Segundo o cardiologista Arthur Felipe Giambona Rente, da Rede D’Or São Luiz, o isolamento trouxe uma redução significativa no nível de atividade física e aumentou o tempo de tela, resultando em acúmulo de gordura visceral, considerada a mais perigosa do ponto de vista inflamatório.
Efeitos diretos da Covid-19 no coração
Além dos hábitos, o próprio coronavírus pode ter efeitos duradouros sobre o sistema cardiovascular. Estudos internacionais mostram que a Covid-19 pode provocar miocardites, inflamações vasculares e aumento da coagulação sanguínea, elevando o risco de eventos cardíacos até mesmo em jovens sem histórico prévio de doenças.
Adicionalmente, a suspensão de exames e consultas durante o período mais crítico da pandemia impediu a detecção precoce de fatores de risco, comprometendo a prevenção.
Desigualdades regionais agravam o quadro
Acesso limitado à saúde
Regiões com infraestrutura precária de saúde, como o Norte e o Nordeste, apresentam índices mais elevados de mortalidade por infarto entre jovens. A falta de acesso a exames de rotina, acompanhamento médico e medicamentos compromete a prevenção e o tratamento adequado.
Essa desigualdade também se reflete nos índices de obesidade, hipertensão e diabetes, que são mais prevalentes em populações com menor escolaridade e renda.
Como prevenir o infarto precoce
Estilo de vida saudável desde cedo
A prevenção começa na infância e deve ser mantida ao longo da vida. Entre as principais medidas recomendadas por especialistas estão:
Parar de fumar e evitar cigarros eletrônicos;
Praticar atividades físicas regularmente (ao menos 150 minutos por semana);
Adotar alimentação equilibrada, rica em vegetais, frutas e grãos integrais;
Reduzir o consumo de sal, gordura saturada e açúcar;
Evitar o uso de anabolizantes e substâncias ilícitas;
Realizar check-ups médicos periódicos, especialmente em casos de histórico familiar de doenças cardíacas.
Diagnóstico precoce salva vidas
Exames simples, como eletrocardiograma, dosagem de colesterol e medição da pressão arterial, são suficientes para identificar muitos dos fatores de risco. O acompanhamento com clínico geral ou cardiologista deve ser prioridade, principalmente entre jovens com histórico familiar de problemas cardíacos.
Juliana Peixoto é jornalista cearense, formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo. Apaixonada por informação e escrita, está sempre em busca de novos aprendizados, experiências e vivências que ampliem sua visão de mundo. Atualmente, colabora com o portal Seu Crédito Digital, contribuindo com conteúdo informativo e acessível para os leitores.