A inflação brasileira deu sinais de alívio no mês de agosto, com a prévia do IPCA registrando uma deflação de 0,14%. O Boletim Focus, divulgado semanalmente pelo Banco Central, também aponta que os economistas vêm revisando para baixo suas projeções há 14 semanas consecutivas. No entanto, especialistas alertam: o movimento de queda pode não ser tão estrutural quanto parece.
Alívio nos preços pode ser enganoso; entenda o alerta dos economistas
Agosto registra deflação de 0,14% e mercado reduz projeções de inflação. Mas cenário de 2026 ainda preocupa com riscos fiscais.
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Tendência de queda: sinal ou miragem?
Núcleos da inflação apontam reversão gradual
De acordo com o relatório macroeconômico da XP, há uma tendência de reversão nos núcleos de inflação – indicadores que excluem itens voláteis como alimentos e combustíveis. A média trimestral dos núcleos recuou de 6% no primeiro trimestre para 4,5% atualmente. Ainda assim, permanece distante da meta de 3% perseguida pelo Banco Central.
Essa redução ocorre em meio a uma combinação de fatores: desaceleração econômica moderada, apreciação cambial já dissipada, mercado de trabalho ainda aquecido e estímulos do governo que sustentam a demanda.
Inflação de agosto: um retrato pontual
Gestoras como Warren e Buysidebrazil projetaram deflações de -0,17% e -0,18%, respectivamente, para o IPCA de agosto. A Warren destaca que a retração do índice foi impulsionada por elementos temporários:
- Gasolina: queda estimada de -0,55%
- Passagens aéreas: recuo de -2,59%
- Energia elétrica: retração de -4,85%, reflexo do bônus de Itaipu e do fim da bandeira vermelha
- Alimentação em domicílio: queda de -0,94%, puxada por carnes, hortaliças, tubérculos e leguminosas
Esses fatores ajudam a explicar a deflação, mas não garantem uma tendência estrutural de alívio.
Impactos do tarifaço e da conjuntura externa
Pressões futuras: tarifaço e riscos geopolíticos
A partir de setembro, as atenções do mercado se voltam ao impacto mais duradouro do tarifaço de 50% imposto pelos EUA, especialmente sobre produtos brasileiros. Embora haja efeitos de curto prazo — como maior oferta interna de carnes e frutas — o médio e longo prazo ainda gera incertezas.
Mirella Hirakawa, da Buysidebrazil, aponta que os efeitos dessas tarifas ainda são de difícil mensuração. Para ela, as próximas leituras do IPCA mostrarão melhor se o impacto será inflacionário ou deflacionário.
Fatores políticos e instabilidade externa
Outro elemento de instabilidade são os desdobramentos políticos internos e externos. A possível condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro pode abrir espaço para retaliações econômicas adicionais. Ao mesmo tempo, a disputa no Congresso por medidas de anistia pode resultar em maior liberação de gastos públicos, o que pressiona a inflação.
Do lado externo, há uma expectativa de queda nos juros dos EUA, após a abertura de apenas 22 mil novas vagas em agosto – muito abaixo das 75 mil esperadas. Com isso, o real pode se valorizar, barateando importações e ajudando a controlar os preços internos.
Efeitos da Selic e juro real alto

Política monetária começa a fazer efeito
Desde junho, a taxa de juro real brasileira (Selic descontada da inflação) ultrapassou o juro neutro – estimado entre 5,5% e 6%. Atualmente, o juro real está em 9,76%.
Segundo Alex Agostini, economista-chefe da Austin Rating, esse é um ponto de inflexão importante. “Agora, a política monetária começa a surtir efeito mais intenso. No ano passado, mesmo com alta da Selic, o juro real ainda estava abaixo do neutro, e o consumo seguia aquecido. Isso mudou”, afirmou.
Realocação de recursos e desaquecimento
Com a taxa elevada, empresas e consumidores tendem a realocar recursos: reduzem investimentos produtivos e direcionam para aplicações financeiras, o que reduz o consumo e a atividade econômica. Essa movimentação tende a desacelerar os preços, mas de forma mais lenta do que o desejado, justamente por causa dos estímulos fiscais ainda presentes.
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Riscos inflacionários para 2026
Ano eleitoral tende a elevar gastos
Mesmo com a inflação em trajetória de queda, o ano de 2026 traz um alerta importante: trata-se de ano eleitoral. Historicamente, esses períodos são marcados por aumento das despesas públicas via emendas parlamentares e programas sociais.
Agostini afirma que “a política monetária está funcionando, mas em velocidade reduzida por causa do freio de mão puxado pela política fiscal”. Ou seja, os gastos governamentais contrabalançam os esforços do Banco Central, criando um campo de tensão entre as políticas econômica e monetária.
Reforma do IR e impacto nos serviços
A reforma do Imposto de Renda, prevista para entrar em vigor em 2026, também pode ter reflexos inflacionários, especialmente no setor de serviços. Mirella Hirakawa observa que, dependendo da forma como a tributação for redistribuída, pode haver aumento nos preços cobrados por prestadores de serviços.
Projeções para 2025 e 2026

XP: deflação pontual, mas cautela com 2026
A XP Investimentos projeta que o IPCA deve fechar 2025 em 4,8% e recuar para 4,5% em 2026. O relatório da instituição destaca que o Banco Central pretende manter a Selic inalterada por um período prolongado, com cortes graduais a partir de janeiro de 2026. A taxa básica pode chegar a 12% no final do ciclo.
Warren e Buysidebrazil: perspectivas semelhantes
A gestora Warren projeta IPCA de 4,85% em 2025 e 4,50% em 2026. Já a Buysidebrazil trabalha com 4,7% para 2025 e 4,2% para 2026. Ambas consideram que a desinflação continuará, mas em ritmo mais moderado.
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