A desaceleração da inflação na Argentina trouxe um certo alívio estatístico ao governo do presidente Javier Milei, mas ainda está longe de representar tranquilidade no dia a dia da população. Para quem vive no país, o custo de vida continua elevado, os salários seguem pressionados e a sensação de empobrecimento é real.
Argentina comemora queda de 85% da inflação, mas o povo ainda perde poder de compra, entenda
Inflação na Argentina desacelera para 31,5% em 2025, mas perda do poder de compra atinge classe média, aposentados e servidores públicos.
O relato da brasileira Catherine Leão, carioca que vive há sete anos em território argentino, ilustra de forma concreta os efeitos da inflação persistente sobre o consumo, a alimentação e até a saúde.
Em 2025, a inflação anual argentina fechou em 31,5%, o menor índice dos últimos oito anos. Apesar da desaceleração em comparação com os picos históricos recentes, o país ainda figura entre os seis com maior inflação no mundo.
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Mais grave do que o número em si é a perda contínua do poder de compra, especialmente entre a classe média, aposentados e servidores públicos, que acumulam perdas salariais desde o início do atual governo.
O cotidiano de quem sente a inflação no bolso
Alimentos básicos viram artigos de luxo
Para Catherine Leão, fazer compras no supermercado deixou de ser um ato corriqueiro. Café, pães, ovos, leite e derivados passaram a ser itens consumidos com parcimônia ou até eliminados da lista mensal. O encarecimento dos alimentos obrigou mudanças drásticas nos hábitos alimentares.
Impacto direto na saúde
A redução no consumo de alimentos nutritivos trouxe consequências que vão além do orçamento. Catherine relata que a diminuição na ingestão de nutrientes afetou sua saúde física, resultado direto da necessidade de cortar gastos para equilibrar as contas.
Inflação de 31,5% em 2025: o que está por trás do número
Setores que mais puxaram a alta de preços
Embora inferior aos índices dos anos anteriores, a inflação de 31,5% ainda foi impulsionada por setores essenciais. Restaurantes e hotéis lideraram com alta de 42,2%, seguidos por moradia e serviços públicos, que subiram 41,6%. Já alimentos e bebidas avançaram 32,2%.
A carne argentina como símbolo da crise
Tradicionalmente acessível, a carne bovina se tornou um dos principais símbolos da perda do poder de compra. Segundo o INDEC, os preços da carne subiram em média 65,3% em 2025. Dados do Instituto de Promoção da Carne Bovina Argentina apontam aumento ainda maior, de 69,8%, mais que o dobro da inflação geral.
Desaceleração não significa recuperação do poder aquisitivo
Estudo do IARAF aponta perdas generalizadas
Um levantamento do Instituto Argentino de Análise Fiscal revelou que quase todos os setores da sociedade sofreram redução na capacidade de consumo entre 2023 e 2025. A desaceleração dos preços ocorreu paralelamente a salários corroídos e retirada de subsídios.
Quem perdeu mais poder de compra
A classe média foi a mais afetada. Trabalhadores do setor privado com vínculo empregatício tiveram perda média de 1,5% nos dois primeiros anos de governo Milei. Aposentados que recebem o benefício mínimo perderam 13,8%, enquanto aqueles acima do mínimo tiveram redução de 9,3%.
A situação dos aposentados na Argentina
Aposentadoria mínima sob forte pressão
Os aposentados que recebem o valor mínimo enfrentam o cenário mais difícil. A perda acumulada de quase 14% compromete a capacidade de arcar com despesas básicas, como alimentação, medicamentos e contas de serviços públicos.
Aposentados acima do mínimo também sofrem
Mesmo quem recebe benefícios maiores não escapou do aperto. A perda de 9,3% no poder de compra demonstra que a inflação segue corroendo rendimentos fixos, independentemente da faixa de aposentadoria.
Servidores públicos e o ajuste fiscal
Funcionários provinciais
Os funcionários públicos das províncias argentinas acumularam perdas salariais de 11% desde dezembro de 2023, reflexo de reajustes abaixo da inflação e cortes orçamentários.
Funcionários públicos nacionais
A situação é ainda mais severa para os servidores nacionais, que tiveram redução de 33% no poder de compra. O impacto direto das políticas de austeridade do governo Milei ficou conhecido como a “serra elétrica” aplicada aos gastos públicos.
A classe baixa e o papel dos subsídios
Ganho aparente no rendimento
De acordo com o IARAF, a única faixa social que registrou ganho foi a classe baixa, dependente de um subsídio universal por filho, equivalente ao Bolsa Família brasileiro. Entre 2023 e 2025, o aumento foi de 67%.
Ganho diluído por cortes e reajustes
Mesmo com esse crescimento nominal, o ganho real foi parcialmente neutralizado pela retirada de subsídios aos serviços públicos, aumento das tarifas de transporte e cortes nos refeitórios populares.
Comércio sente retração no consumo
Queda nas vendas de alimentos frescos
O feirante Diego Rengel confirma a mudança no comportamento do consumidor. Segundo ele, as famílias passaram a comprar menos frutas e verduras, ajustando o consumo ao orçamento cada vez mais apertado.
Redução significativa no volume de vendas
Em 2025, as vendas diárias caíram entre 20% e 25% em comparação com 2024. Produtos que antes eram vendidos em seis caixotes passaram a sair em quatro, e outros caíram de quatro para três.
Inflação argentina no contexto global
Sexta maior inflação do mundo
Mesmo com a desaceleração, a Argentina ainda ocupa a sexta posição no ranking mundial de inflação. Fica atrás apenas de países como Venezuela, Sudão do Sul, Zimbábue, Sudão e Irã.
Comparação com anos anteriores
Em 2023, o país registrou inflação de 211,4%, a maior do mundo. Em 2024, o índice caiu para 117,8%, colocando a Argentina em terceiro lugar. O resultado de 2025 representa uma melhora significativa, ainda que insuficiente.
Inflação acumulada no governo Milei
Dois anos de números elevados
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Entre dezembro de 2023 e dezembro de 2025, a inflação acumulada chega a 259,34%. O número explica por que, apesar da desaceleração recente, o impacto no bolso do consumidor permanece severo.
A inércia inflacionária
Economistas destacam que a principal conquista do governo foi frear a inércia inflacionária, um problema histórico da economia argentina.
Por que o governo comemora 31,5%
Visão econômica do governo
Para o presidente Javier Milei, o resultado de 2025 representa um marco positivo diante do histórico inflacionário do país. A comparação com os índices de 2023 e 2024 reforça a narrativa de sucesso no controle dos preços.
Avaliação de especialistas
O economista Gustavo Pérego avalia que, para os padrões argentinos, 31,5% é um número celebrável. Apesar de ainda ser extremamente alto em termos globais, indica que o processo de desinflação está em curso.
Inflação mensal ainda preocupa
Alta gradual ao longo de 2025
Nos últimos oito meses do ano, a inflação mensal voltou a acelerar, passando de 1,5% em maio para 2,8% em dezembro. A tendência acende um alerta sobre a sustentabilidade da desaceleração.
Promessa de inflação abaixo de 1%
O presidente Milei afirma que, a partir de agosto, a inflação mensal ficará abaixo de 1%, reforçando o compromisso com o controle dos preços.
Projeções para 2026
Meta oficial do governo
O governo argentino projeta inflação de 10,1% em 2026, apostando na continuidade do ajuste fiscal e na disciplina monetária.
Expectativa do mercado
Os agentes de mercado são mais cautelosos. Segundo pesquisa do Banco Central da Argentina, a expectativa média é de inflação de 22,5% no próximo ano.
Avaliação otimista, mas cautelosa
Gustavo Pérego acredita que a inflação pode ficar entre 10% e 20% em 2026. Mesmo nesse patamar, ainda seria considerada alta, mas representaria uma vitória histórica para o país.
Considerações finais
A desaceleração da inflação na Argentina é real e representa um avanço importante em relação aos anos de hiperinflação recente. No entanto, os números ainda não se traduziram em melhora efetiva do poder de compra da população. A classe média, aposentados e servidores públicos seguem enfrentando perdas significativas, enquanto o custo de vida permanece elevado, especialmente nos alimentos básicos.
O desafio do governo Milei em 2026 será transformar a queda da inflação em recuperação econômica concreta, com aumento real dos salários e alívio no orçamento das famílias. Até lá, a sensação predominante entre os argentinos é de cautela e preocupação com o futuro.
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