Benefício do INSS cresce 10% ao ano e gera pressão nas contas públicas
Gastos do INSS com o BPC crescem 10% ao ano e podem ultrapassar o Bolsa Família, gerando alerta fiscal no governo Lula.
Por Juliana Peixoto
O Benefício de Prestação Continuada (BPC), pago a idosos e pessoas com deficiência em situação de vulnerabilidade pelo INSS, tornou-se um dos principais pontos de preocupação nas finanças públicas brasileiras. Em abril de 2025, os gastos com o programa chegaram a R$ 10,7 bilhões, um crescimento real de 10% em relação ao mesmo mês de 2024. Com um ritmo de expansão mais acelerado que outros programas sociais, o BPC se aproxima do patamar do Bolsa Família, acendendo o alerta no governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Com 6,4 milhões de beneficiários em 2024, o BPC superou as estimativas iniciais e continua crescendo, puxado por alterações legais, decisões judiciais e um processo de desburocratização que facilitou o acesso. A previsão do governo é que, mantido esse ritmo, o programa ultrapasse o Bolsa Família em despesas entre 2028 e 2031.
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O BPC é um benefício previsto na Constituição Federal, destinado a idosos com 65 anos ou mais e pessoas com deficiência que comprovem baixa renda familiar. Ele garante o pagamento de um salário mínimo mensal (atualmente R$ 1.518) e é gerido pelo Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), mas financiado diretamente pelo Tesouro Nacional — o que o torna uma despesa obrigatória e sem limite orçamentário pré-estabelecido.
Diferente de programas como o Bolsa Família, que podem ser ajustados conforme disponibilidade orçamentária, o BPC não pode ser limitado administrativamente. Essa característica torna seu controle fiscal mais difícil e seu crescimento mais impactante para as contas públicas.
Por que o BPC está crescendo tão rápido?
Mudanças legais impulsionaram a concessão do benefício
Desde 2020, o Congresso Nacional e o Poder Executivo promoveram alterações significativas nas regras de concessão do BPC. Entre as principais mudanças estão:
Lei nº 13.982/2020: flexibilizou o critério de renda per capita, de “inferior” para “igual ou inferior” a um quarto do salário mínimo.
Lei nº 14.601/2023: autorizou o acúmulo do BPC com outros programas de transferência de renda.
Lei nº 14.176/2021: instituiu a avaliação social remota, acelerando a análise de pedidos.
Além disso, portarias ministeriais simplificaram exigências documentais e tornaram o processo de concessão mais ágil. Segundo o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, essas mudanças foram necessárias para garantir o acesso ao direito de populações antes excluídas por barreiras burocráticas.
Judicialização como motor do aumento de despesas
Outro fator decisivo no crescimento do BPC é a judicialização. Muitos pedidos de benefício são negados administrativamente, mas acabam sendo concedidos por meio de decisões judiciais. Tribunais têm autorizado o pagamento mesmo em casos que não atendem a todos os critérios legais, especialmente o de renda.
A prática cria um efeito dominó: aumenta o número de beneficiários e reduz o poder do governo de revisar e controlar a base de dados. Em 2024, o número de beneficiários subiu 10% em relação a 2023, que já havia registrado alta de 11%. Essa tendência coloca o BPC como um dos programas de maior crescimento entre as políticas sociais do país.
Comparativo com o Bolsa Família
O avanço do BPC e a retração do Bolsa Família
Enquanto o BPC cresce, o Bolsa Família, principal vitrine social do governo Lula, registrou queda nos pagamentos. Em abril de 2025, o programa transferiu R$ 13,7 bilhões às famílias brasileiras, uma redução real de 7% em relação ao mesmo mês do ano anterior.
Segundo o governo, a retração se deve à melhoria de renda das famílias, impulsionada pela redução do desemprego e pela formalização do mercado de trabalho. Em 2024, cerca de 1,3 milhão de famílias deixaram o Bolsa Família por ultrapassarem o critério de renda — quase o dobro do número registrado em 2023.
No entanto, a diferença entre os dois programas é marcante:
Característica
BPC
Bolsa Família
Valor por beneficiário
R$ 1.518
R$ 667,49 (média por família)
Natureza jurídica
Obrigatório
Discricionário (ajustável)
Crescimento anual
+10% a +11,3%
-7%
Fonte de financiamento
Tesouro Nacional
Orçamento da União
Debates no governo e resistência política
Imagem: Valter Campanato/Agência Brasil
Haddad apresenta dados, mas mudanças enfrentam oposição
Em reunião com líderes partidários realizada em 8 de junho, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, apresentou gráficos que mostravam a escalada do BPC. Embora o programa não tenha sido alvo das medidas de ajuste fiscal anunciadas pelo governo, ele foi citado como um ponto de atenção nos debates internos.
O Palácio do Planalto reconhece que o crescimento do BPC é insustentável no longo prazo, mas enfrenta obstáculos políticos para propor alterações. Mudanças nos critérios de elegibilidade ou na forma de cálculo são vistas com desconfiança por parlamentares e movimentos sociais, que defendem a manutenção do benefício como um direito social básico.
A pressão fiscal gerada pelo BPC ocorre em um momento em que o governo precisa cumprir as metas do novo arcabouço fiscal, que limita o crescimento real das despesas públicas a 2,5% ao ano. O aumento acelerado de um benefício obrigatório compromete esse esforço.
O que está em jogo
Sustentabilidade fiscal x proteção social
O crescimento do BPC ilustra um dilema recorrente na política brasileira: como equilibrar responsabilidade fiscal com a garantia de direitos sociais. Para especialistas, o problema não está no valor do benefício, mas na velocidade com que a base de beneficiários cresce, sem que haja instrumentos de contenção eficazes.
Enquanto o Bolsa Família pode ser redimensionado conforme a situação fiscal, o BPC não oferece essa flexibilidade. Se nenhuma medida for tomada, o risco é que o orçamento federal fique engessado, comprometendo investimentos em outras áreas essenciais.
Juliana Peixoto é jornalista cearense, formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo. Apaixonada por informação e escrita, está sempre em busca de novos aprendizados, experiências e vivências que ampliem sua visão de mundo. Atualmente, colabora com o portal Seu Crédito Digital, contribuindo com conteúdo informativo e acessível para os leitores.