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INSS na mira: CGU investiga nova “fraude da fraude” com áudios suspeitos

A Controladoria-Geral da União (CGU) está conduzindo uma investigação sigilosa sobre um novo capítulo envolvendo fraudes no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). Trata-se de um esquema que pode representar um golpe duplo contra aposentados e pensionistas: o uso de provas falsas para validar processos de ressarcimento de descontos já considerados indevidos.

Segundo os órgãos de controle, entidades suspeitas estariam utilizando documentação adulterada, incluindo gravações de áudio editadas, para tentar comprovar que os beneficiários autorizaram as filiações a associações e os descontos subsequentes. O caso está sendo chamado internamente como a “fraude da fraude”.

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Imagem: Freepik / Edição: Seu Crédito Digital

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O que é a “fraude da fraude”?

O termo “fraude da fraude” surgiu para descrever uma prática em que entidades tentam burlar os processos de correção de irregularidades do próprio INSS. Após a identificação de cobranças indevidas em folhas de pagamento de aposentados, muitas dessas entidades passaram a apresentar “provas” que comprovariam a autorização dos descontos.

No entanto, essas provas seriam, em muitos casos, falsificadas. O principal foco da CGU está em gravações de áudio supostamente manipuladas e em autorizações com assinaturas que os próprios beneficiários negam ter fornecido.

Os documentos sob suspeita

Entre os documentos enviados pelas entidades por meio do aplicativo Meu INSS, estão gravações com indícios de edição, documentos com endereços falsos e até autorizações com nomes escritos de maneira incorreta. Em casos já analisados, o aposentado negou ter dado qualquer autorização e, mesmo assim, a entidade apresentou um áudio como suposta confirmação da filiação.

Técnicos do INSS e da CGU reforçam que, mesmo que os áudios fossem autênticos, a normativa vigente não permite seu uso como prova em processos de autorização de descontos previdenciários.

A estrutura do golpe

Como os áudios são forjados

Em um dos áudios analisados, o aposentado responde com um simples “sim”, sem mencionar dados pessoais ou contexto. Especialistas apontaram cortes e montagens no material. A suspeita é de que falas genéricas, colhidas em ligações iniciais, tenham sido editadas para parecerem autorizações formais.

Segundo relatos obtidos pela investigação, funcionários ligavam para aposentados oferecendo benefícios ou informando sobre o cancelamento de cobranças. Essas ligações eram gravadas e, posteriormente, editadas para montar um roteiro em que o aposentado aparecia como anuente de uma associação.

A atuação do “Balcão das Oportunidades”

A empresa Balcão das Oportunidades Serviços Administrativos Ltda. é uma das peças centrais no esquema. De acordo com documentos da Polícia Federal, a empresa recebeu cerca de R$ 9 milhões de uma das entidades investigadas, a Associação de Aposentados Mutualista para Benefícios Coletivos (Ambec).

A Balcão era supostamente contratada para produzir os áudios falsos usados pelas associações. Um ex-funcionário, sob anonimato, afirmou que havia até um roteiro para ligar, colher respostas positivas genéricas e depois recontextualizar essas falas em gravações falsas de filiação.

Ligações perigosas e o papel das entidades

Relação com a Ambec e outras associações

A Ambec é uma das principais associações citadas nas investigações da chamada “farra dos descontos” — um esquema bilionário de filiações forçadas ou sem consentimento a entidades, que resultavam em descontos mensais nos benefícios de aposentados.

Além da Ambec, a Cebap (Central Brasileira de Apoio ao Pensionista) também é mencionada nos contratos obtidos pelos investigadores. Ambas são apontadas como ligadas a um grupo empresarial que teria faturado mais de R$ 40 milhões com a prática de descontos irregulares.

O empresário por trás do esquema

Embora os nomes dos envolvidos sejam mantidos sob sigilo em parte dos processos, documentos apontam que as entidades têm ligações com empresários suspeitos de envolvimento direto no financiamento do esquema. Segundo investigações, esses indivíduos teriam pago propina a servidores do INSS em troca da omissão de irregularidades ou até mesmo da validação indevida dos documentos apresentados.

O que diz o INSS e os órgãos de controle

A resposta institucional

A coluna que revelou o caso entrou em contato com o INSS na manhã desta última quarta-feira para solicitar esclarecimentos. A resposta, no entanto, foi evasiva. O instituto não detalhou quais entidades estão sob apuração nem o número exato de casos identificados com indícios de fraude documental.

Já no dia seguinte, o presidente do INSS, em entrevista à rádio CBN, reconheceu a existência das tentativas de fraudes em cima de processos de devolução de valores indevidamente descontados. Ele classificou a situação como a “fraude da fraude”.

Regras para validação de descontos

Em nota oficial, o INSS esclareceu que a comprovação de autorização de filiação exige a apresentação conjunta de três documentos:

  1. Documento de identidade com foto;
  2. Termo de filiação assinado;
  3. Termo de autorização de desconto.

A instituição reforçou que áudios não são aceitos como meio de prova e que, se os documentos forem inconsistentes, o processo é remetido à auditoria. Caso a entidade não devolva os valores descontados, o beneficiário será orientado a tomar medidas judiciais.

Consequências para os envolvidos

Investigações da Polícia Federal

A Polícia Federal atua paralelamente à CGU na chamada Operação Sem Desconto, que tem como alvo fraudes cometidas por entidades contra aposentados. A operação inclui quebra de sigilo bancário, rastreamento de contratos, e auditorias nos sistemas do INSS.

Os alvos principais são empresas e associações que, além de forjar documentos, mantinham contratos milionários com instituições públicas e privadas.

Impacto para os beneficiários

Para os aposentados, os impactos vão além da perda financeira. Muitos têm relatado prejuízos emocionais, estresse com processos burocráticos e dificuldade para comprovar que nunca autorizaram tais filiações. O problema é agravado pelo fato de muitos beneficiários serem pessoas idosas ou com dificuldades tecnológicas, o que dificulta a defesa adequada.

Como se proteger

Verifique seus extratos regularmente

Beneficiários devem usar o aplicativo Meu INSS para acompanhar eventuais descontos em seus benefícios. Qualquer cobrança não reconhecida deve ser reportada imediatamente à ouvidoria ou canais oficiais do INSS.

Evite fornecer dados por telefone

Jamais forneça dados pessoais a desconhecidos por telefone, mesmo que se identifiquem como funcionários de associações, bancos ou órgãos públicos. O acesso indevido a esses dados pode ser a porta de entrada para fraudes complexas como as investigadas neste caso.

Denuncie irregularidades

O cidadão pode registrar denúncias por meio da Ouvidoria do INSS, da CGU ou pelo site Fala.BR, canal oficial do governo federal. Casos com documentos ou áudios suspeitos devem ser encaminhados com o máximo de informações possíveis.

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Imagem: Divulgação: Gov/INSS

O escândalo revelado pela CGU e pela Polícia Federal sobre a chamada “fraude da fraude” no INSS lança luz sobre um novo nível de complexidade nas práticas abusivas contra aposentados. A utilização de áudios forjados, documentos falsos e contratos fraudulentos revela não apenas a sofisticação dos golpistas, mas também a fragilidade de um sistema que deveria proteger os mais vulneráveis.

O caso serve de alerta para beneficiários e instituições. É urgente que medidas mais rígidas de verificação documental e punições exemplares sejam aplicadas. Ao mesmo tempo, é preciso reforçar o acesso à informação e à proteção para quem depende do sistema previdenciário. A sociedade precisa acompanhar de perto o desdobramento das investigações e cobrar transparência das instituições envolvidas.