Trump mira o Pix: o que está por trás das críticas ao sistema brasileiro

Na terça-feira, 15 de julho de 2025, o governo dos Estados Unidos, por determinação do presidente Donald Trump, abriu uma investigação comercial contra o Brasil, utilizando-se da seção 301 da legislação comercial norte-americana. Essa investigação visa apurar supostas práticas consideradas “desleais” pelo governo americano, envolvendo obrigações e multas contra redes sociais americanas, acordos comerciais brasileiros com o México e a Índia, tarifas sobre o etanol e, principalmente, o sistema de pagamentos Pix, criado pelo Banco Central do Brasil.

Leia mais:

Pix é modelo de sucesso; culpa real está nas tarifas dos EUA, diz Alckmin

Seção 301 e o foco na competitividade

Pix
Imagem: Freepik/Edição: Seu Crédito Digital

A seção 301 da legislação dos EUA permite que o governo americano investigue atos, políticas ou práticas estrangeiras que sejam desarrazoadas ou discriminatórias, prejudicando o comércio americano. No relatório da agência USTR (United States Trade Representative), órgão responsável por assuntos comerciais, destaca-se que o Pix poderia prejudicar a competitividade de empresas americanas que atuam no comércio digital e em serviços de pagamento eletrônico.

Mas por que o sistema brasileiro, desenvolvido pelo Banco Central, seria um problema para os EUA? Para entender, é preciso analisar o cenário competitivo dos meios de pagamento digitais.

Pix e o domínio do mercado de pagamentos no Brasil

Lançado oficialmente em novembro de 2020, o Pix rapidamente se tornou o meio de pagamento favorito dos brasileiros, revolucionando o setor financeiro. O sistema permite transferências instantâneas, gratuitas e disponíveis 24 horas por dia, 7 dias por semana, ganhando a preferência de mais de 76% da população até o final de 2024, segundo dados do Banco Central.

O Pix conquistou um espaço relevante em um mercado que, até então, era amplamente dominado por grandes empresas americanas como Mastercard, Visa, Google Pay e Apple Pay. Essas bandeiras e sistemas de pagamento digital vêm enfrentando um concorrente poderoso — um sistema nacional, governamental e gratuito que atende a uma ampla faixa da população.

O impacto do Pix sobre o WhatsApp Pay e a Meta

Entre os pontos centrais da investigação da USTR está a menção ao WhatsApp Pay, sistema de pagamento eletrônico da Meta (antigo Facebook), comandada pelo bilionário Mark Zuckerberg. O WhatsApp Pay foi lançado inicialmente no Brasil em junho de 2020, permitindo que usuários transferissem dinheiro e realizassem compras pelo aplicativo de mensagens.

Embora as transferências entre usuários fossem gratuitas, as operações comerciais cobravam uma tarifa de 3,99% sobre o valor pago, cobrada dos comerciantes. Contudo, pouco após o lançamento, o Banco Central e o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) suspenderam o serviço, alegando que o sistema poderia prejudicar a competição, a eficiência e a privacidade do Sistema de Pagamentos Brasileiro (SPB).

O Banco Central destacou que o objetivo era preservar um ambiente competitivo, seguro e aberto, enquanto o Cade apontou riscos de concentração de mercado, especialmente porque a Cielo, parceira técnica do WhatsApp Pay, já possui uma posição dominante no setor.

A trajetória do Pix frente à concorrência

Cinco meses após a suspensão do WhatsApp Pay, o Pix foi lançado e cresceu rapidamente. Em março de 2021, o WhatsApp Pay foi autorizado a operar novamente, mas já enfrentava um mercado fortemente conquistado pelo Pix, que já contava com a preferência da população brasileira.

Esse cenário levanta questões sobre o uso do poder regulatório pelo Banco Central para proteger um sistema público contra concorrentes privados, o que é um ponto sensível da investigação americana.

A resposta do governo brasileiro

O governo brasileiro respondeu à investigação com firmeza. O perfil oficial do Palácio do Planalto publicou nas redes sociais que “O Pix é do Brasil e dos brasileiros”, ressaltando o orgulho do país pelos mais de 175 milhões de usuários do sistema, que já se consolidou como o meio de pagamento mais usado no Brasil.

O vice-presidente Geraldo Alckmin também defendeu o Pix em reuniões com empresários, ressaltando que o sistema é um sucesso e que o Brasil explicará detalhadamente os pontos questionados pela USTR durante a audiência pública prevista para 3 de setembro, em Washington.

Implicações da investigação para o comércio digital e a soberania brasileira

A investigação dos EUA não atinge apenas o Pix, mas simboliza uma disputa maior por espaço no mercado digital global. O caso traz à tona discussões sobre soberania tecnológica, regulação estatal, livre concorrência e os interesses de grandes corporações transnacionais.

Meios de pagamento e a proteção do consumidor

O Pix não só democratizou o acesso a meios de pagamento instantâneos e sem tarifas, mas também promoveu inclusão financeira, permitindo que pequenos comerciantes e consumidores comuns façam transações rápidas e baratas.

Por outro lado, as tarifas praticadas por sistemas privados, como o WhatsApp Pay, podem representar um entrave para pequenos comerciantes, que passam a arcar com custos adicionais nas vendas, potencialmente refletindo no preço final para o consumidor.

O papel do Banco Central na regulação

O Banco Central do Brasil, ao desenvolver o Pix, buscou criar um sistema interoperável, transparente e eficiente. A regulação de meios de pagamento visa assegurar um equilíbrio entre inovação, segurança, privacidade e competição.

Essa atuação estatal, entretanto, pode ser vista como protecionista por concorrentes estrangeiros, especialmente quando envolve a suspensão ou restrição de serviços privados que concorrem diretamente com sistemas públicos.

Expectativas para a audiência pública e próximos passos

Com o prazo aberto para o recebimento de comentários, o governo brasileiro terá a oportunidade de apresentar sua defesa na audiência pública marcada para setembro. As negociações com a Casa Branca devem envolver não apenas o Pix, mas um conjunto de práticas comerciais que impactam as relações bilaterais.

A forma como essa disputa será resolvida poderá definir parâmetros importantes para a regulação do comércio digital e para o futuro dos meios de pagamento no Brasil.

Conclusão

A investigação dos Estados Unidos sobre o Pix reflete uma disputa complexa entre soberania tecnológica e interesses comerciais globais. Enquanto o sistema brasileiro é celebrado por sua inovação e inclusão financeira, enfrenta resistências de grandes corporações americanas que veem sua competitividade ameaçada. O desfecho dessa investigação poderá estabelecer importantes precedentes para a regulação dos meios de pagamento digitais e para as relações comerciais entre Brasil e EUA nos próximos anos.