O mercado brasileiro de delivery de comida está entrando em uma nova fase de competição intensa. Três grandes players internacionais – 99Food, Rappi e Meituan – anunciaram investimentos bilionários em 2025, com o objetivo claro de desafiar a liderança quase absoluta do iFood, que hoje concentra 80% de participação nos pedidos realizados via aplicativos, segundo pesquisa da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel) em parceria com o Sebrae.
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O tamanho do mercado de delivery no Brasil

O cenário é promissor. De acordo com a mesma pesquisa, 76% dos brasileiros já utilizam aplicativos de entrega de comida. Além disso, estima-se que ainda existam 350 milhões de pedidos mensais realizados por telefone ou WhatsApp, segundo dados compartilhados por Felipe Criniti, CEO do Rappi, em entrevista à IstoÉ Dinheiro.
Ou seja, além de tentar atrair os usuários que já usam o iFood, os concorrentes também buscam conquistar essa gigantesca base de consumidores que ainda não migrou para o ambiente digital.
O domínio consolidado do iFood
O iFood construiu sua posição dominante ao longo dos últimos anos, apoiado principalmente por estratégias de exclusividade com restaurantes, campanhas promocionais agressivas e uma estrutura logística bastante eficiente.
Entre 2020 e 2021, a plataforma fechou diversos contratos de exclusividade, impedindo que restaurantes parceiros vendessem em outros aplicativos de delivery. Essa estratégia garantiu ao iFood uma posição privilegiada no mercado, mas também gerou reações negativas.
O impacto das exclusividades e a reação do Cade
Em 2021, o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) determinou a suspensão da celebração de novos contratos de exclusividade por parte do iFood e abriu uma investigação por práticas anticompetitivas.
O caso teve desdobramentos até 2023, quando foi firmado um acordo: as novas exclusividades ficariam restritas a redes com menos de 30 unidades e com validade de até dois anos. A decisão abriu espaço para que outras plataformas tentassem voltar a crescer no Brasil.
Como as exclusividades afetaram os concorrentes
A 99Food, por exemplo, que havia iniciado operações no país em 2019, encerrou suas atividades de delivery em 2023, concentrando-se apenas no serviço de entregas gerais via 99Moto.
Já o Rappi, que em determinado momento chegou a ter 25% do market share, viu sua participação despencar para apenas 9% após a expansão das exclusividades do iFood.
Os investimentos bilionários: as estratégias das concorrentes
O retorno da 99Food com R$ 1 bilhão
Em 2025, a 99Food surpreendeu o mercado ao anunciar um investimento de R$ 1 bilhão para relançar seu marketplace de comida no Brasil. O grande diferencial da estratégia é a isenção de taxas para os restaurantes, uma medida que deve atrair muitos estabelecimentos insatisfeitos com as altas comissões do iFood.
Além disso, a 99Food promete ganhos de até R$ 250 por dia para os entregadores, na tentativa de ampliar sua base de colaboradores.
Rappi investe R$ 1,4 bilhão para reconquistar o mercado
Na sequência, a colombiana Rappi anunciou que irá destinar R$ 1,4 bilhão nos próximos três anos para reforçar sua presença no Brasil. Cerca de 80% desse valor será usado para reduzir ou eliminar taxas para restaurantes, reforçando o apelo junto aos comerciantes.
A Rappi também lançou uma taxa mínima de R$ 10 por entrega nos finais de semana para seus entregadores, além de preparar uma campanha de marketing de grande porte, com o objetivo de atrair usuários e melhorar a experiência na plataforma.
A entrada da gigante chinesa Meituan com R$ 5,6 bilhões
O maior anúncio, no entanto, veio da chinesa Meituan, que está investindo R$ 5,6 bilhões para lançar o aplicativo Keeta no Brasil. A Meituan é um dos maiores nomes do setor na China, com 770 milhões de usuários ativos e um impressionante volume de 98 milhões de pedidos entregues por dia em 2024.
Apesar de ainda não ter divulgado os detalhes de sua estratégia no Brasil, a expectativa é que a Meituan traga práticas agressivas de preços e inovação logística, características que consolidaram sua liderança em seu país de origem.
A resposta do iFood: ajustes e manutenção da liderança

Até o momento, o iFood não anunciou contrapartidas de igual magnitude. No entanto, a empresa realizou ajustes na remuneração de seus entregadores e lançou novos pacotes de benefícios, como forma de garantir a fidelização de seu principal canal logístico.
Em nota oficial, o iFood afirmou que “defende o livre mercado e a livre concorrência”, destacando o compromisso com os parceiros e a busca constante pela melhoria da experiência do consumidor.
Pressão dos restaurantes por taxas menores
As movimentações das concorrentes têm gerado pressão crescente sobre o iFood por parte de entidades de classe, como a Federação de Hotéis, Restaurantes e Bares do Estado de São Paulo (Fhoresp), que representa mais de 500 mil estabelecimentos.
Segundo Edson Pinto, diretor-executivo da Fhoresp, as taxas praticadas pelo iFood são consideradas excessivas, fazendo com que muitos restaurantes operem com margens muito estreitas ou até mesmo prejuízo.
“Tentamos, ao longo dos últimos anos, negociar, de todas as formas, com o iFood. Porém, ela é inflexível. O monopólio não fez bem ao iFood, que estabeleceu uma relação predatória e de dominância com os parceiros”, afirmou Pinto.
Impacto direto para os restaurantes e consumidores
Com ao menos duas plataformas (99Food e Rappi) oferecendo taxa zero para restaurantes, a expectativa é que os estabelecimentos possam aumentar suas margens de lucro ou até mesmo repassar a economia para os consumidores, com promoções e descontos.
Haverá redução nos preços dos pedidos?
Embora a redução de taxas crie margem para possíveis descontos, não há garantia de que os preços ao consumidor final vão cair imediatamente. A decisão de repassar o benefício vai depender de cada restaurante e da estratégia de cada aplicativo.
Benefícios também para os entregadores
Outro público diretamente impactado pela guerra do delivery são os entregadores. Com a necessidade de ampliar suas redes logísticas, as plataformas estão oferecendo remunerações mais atrativas e melhores condições de trabalho, o que pode gerar uma melhora no serviço ao consumidor.
O futuro da guerra do delivery no Brasil

Com investimentos que somam mais de R$ 8 bilhões, o mercado de delivery de comida no Brasil está em plena transformação. A disputa que se desenha promete alterar as dinâmicas comerciais, melhorar as condições para restaurantes e possivelmente beneficiar os consumidores.
Os principais desafios para as novas entrantes
Apesar dos investimentos massivos, derrubar a hegemonia do iFood não será tarefa fácil. As plataformas concorrentes precisarão superar três grandes desafios:
- Mudança de hábito dos consumidores, que já estão acostumados com o iFood.
- Capilaridade logística, para garantir entregas rápidas e eficientes.
- Aquisição de restaurantes parceiros, para aumentar a variedade de opções no cardápio.
O consumidor sai ganhando?
Independentemente de quem vencer essa disputa, uma coisa parece certa: o aumento da concorrência tende a melhorar os serviços, reduzir preços e ampliar as opções para os brasileiros que usam apps de entrega.
Conclusão: um novo capítulo na história do delivery brasileiro
A batalha entre iFood, 99Food, Rappi e Meituan marca o início de um novo ciclo competitivo no mercado de delivery de comida no Brasil. Com bilhões de reais sendo investidos, os próximos meses serão decisivos para definir o futuro do setor.
Restaurantes, entregadores e consumidores acompanham atentos cada movimento dos gigantes do delivery, cientes de que, em uma guerra como essa, quem pode sair ganhando é o próprio cliente final.




