Seu Crédito Digital
Seu Crédito Digital

Mais ricos deveriam pagar 14% de IR, aponta estudo do Ipea

Ipea propõe Imposto de Renda mínimo de 14% para super ricos e isenção para quem ganha até R$ 5 mil por mês, superando proposta do governo.

Melissa BarbosaPor Melissa Barbosa6 min de leitura
Ipea

O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) apresentou nesta quinta-feira (17) uma proposta alternativa à reforma do Imposto de Renda da Pessoa Física (IRPF), atualmente em tramitação no Congresso. O estudo, divulgado por meio da Carta de Conjuntura, propõe um Imposto Global Mínimo de 14% sobre rendas superiores a R$ 50 mil por mês.

A medida tem como objetivo viabilizar a isenção total do IR para brasileiros com rendimento de até R$ 5 mil mensais. A proposta difere significativamente do Projeto de Lei 1087/2025, elaborado pelo governo federal, que estabelece uma alíquota progressiva limitada a 10% para rendas elevadas.

Leia mais:

Mudanças no seguro viagem dos cartões Mastercard Black animam clientes

Apenas 2% dos brasileiros seriam atingidos pela nova alíquota

Ipea
Imagem: Freepik e Canva

Quem são os super ricos

Segundo os dados do próprio governo, apenas 2% dos contribuintes possuem rendimentos acima de R$ 600 mil por ano — cerca de R$ 50 mil por mês. Desse grupo, apenas 0,7% recebe acima de R$ 1,2 milhão anual e seria classificado como “super rico”. O PL 1087/2025, atualmente em debate no Congresso Nacional, propõe que esse grupo pague uma alíquota máxima de 10% sobre rendimentos, acima do teto da faixa de isenção.

Proporcionalidade tributária

O estudo do Ipea, assinado pelo técnico de planejamento e pesquisa Pedro Humberto Carvalho, propõe um valor mínimo de tributação superior, argumentando que em 2022, o grupo que mais contribuiu pagava efetivamente 14,1% em impostos, mesmo tendo uma renda média bem inferior — cerca de R$ 16 mil por mês.

Renda total deve ser considerada, defende o estudo

Exclusões que favorecem os mais ricos

O principal ponto de divergência entre a proposta do Ipea e o PL 1087/2025 está na definição da base de cálculo. O projeto do governo isenta diversos itens, como auxílios, bônus, reembolsos e dividendos. Já a proposta do Ipea sugere tributar a renda total, sem exceções.

“A proposta que eu faço difere do PL, porque considera a renda total do contribuinte e não teria essas exclusões de auxílios, reembolsos, benefícios salariais indiretos”, explicou Carvalho.

Evitar distorções na carga tributária

A ideia é ampliar a base tributável e evitar distorções que permitam que contribuintes de altíssima renda paguem menos que a classe média, como acontece atualmente.

Previdência também entra na conta do Ipea

Inclusão das contribuições previdenciárias

Uma das inovações mais relevantes da proposta do Ipea é a inclusão das contribuições previdenciárias na carga tributária considerada. Para o instituto, a natureza dessas contribuições é basicamente tributária, pois elas são usadas para financiar o déficit da Previdência Social, que hoje depende de outras receitas federais.

Impacto nos mais pobres

Carvalho argumenta que quem ganha menos sofre mais com essas contribuições devido ao teto de R$ 8 mil. “Quem ganha R$ 8 mil paga o mesmo de contribuição previdenciária do que quem ganha mais que isso”, afirma. Essa desigualdade aumenta o caráter regressivo do sistema atual e, segundo o Ipea, precisa ser corrigida.

Projeções de arrecadação com nova alíquota

Impacto no PIB

Caso a proposta do Ipea fosse implementada, a arrecadação anual do IRPF poderia crescer em até R$ 145,6 bilhões. Isso representaria um aumento de cerca de 40% em relação à arrecadação atual, elevando a participação do imposto no Produto Interno Bruto (PIB) de 3,1% para 4,3%.

Comparação internacional

Ainda assim, o Brasil permaneceria abaixo da média de países da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), onde o IRPF responde por cerca de 8,5% do PIB. Com a mudança, o Brasil alcançaria níveis semelhantes aos de países como Polônia, Uruguai e Eslováquia.

Críticas às limitações do PL 1087/2025

Ipea
Imagem: Freepik / Reprodução

Manutenção de privilégios tributários

O estudo do Ipea também faz críticas diretas ao projeto de lei do governo. Para Carvalho, a proposta atual não corrige as distorções e mantém privilégios dos mais ricos.

“Os mais ricos vão continuar pagando menos que a classe média. A proposta só vai atenuar essa discrepância. Atualmente, os mais ricos pagam quase nada”, criticou o pesquisador.

Três desafios principais para tributar os mais ricos

1. Risco de evasão fiscal internacional

O aumento na tributação pode levar os mais ricos a migrarem sua residência fiscal para países com menor carga tributária. Para mitigar isso, o Ipea sugere:

  • Tributação de saída sobre ganhos de capital ainda não realizados (25%);
  • Imposto sobre o patrimônio, em torno de 3%.

Países como Alemanha, Canadá, França, Japão e Estados Unidos já adotam mecanismos semelhantes. Nos EUA, quem abandona a cidadania paga até 23,8% sobre ganhos não realizados.

2. Supertributação de pessoas jurídicas

Gostou? Siga o Seu Crédito Digital no Google e receba notícias de benefícios, INSS e crédito em primeira mão.

+311 mil seguidores

Seguir no Google

Muitos contribuintes de alta renda têm explorado brechas legais para registrar seus ganhos como rendimentos de pessoas jurídicas, o que muitas vezes resulta em menor tributação. O Ipea propõe um imposto mínimo global para evitar essa manobra e garantir que esses contribuintes arquem com a carga que lhes corresponde.

3. Regressividade na tributação de fundos e deduções

O sistema atual permite que fundos de pensão, aluguéis e deduções médicas sejam usados para reduzir a base de cálculo de forma desproporcional. O estudo propõe ajustes para corrigir a regressividade tanto vertical (ricos pagando menos que a classe média) quanto horizontal (contribuintes semelhantes pagando impostos muito diferentes).

Deduções médicas: o calcanhar de Aquiles

Gasto tributário bilionário

Um dos principais problemas apontados pelo estudo é a dedução irrestrita de despesas médicas. Em 2024, isso representou um gasto tributário de R$ 26,7 bilhões, beneficiando especialmente os 5% mais ricos.

Esses contribuintes, com rendas mensais acima de R$ 28.296, concentraram 22,4% das deduções médicas no IRPF de 2022.

Proposta de solução mais justa

Para corrigir essa distorção, o Ipea propõe:

  • Estabelecimento de um teto para deduções médicas;
  • Substituição por crédito tributário igualitário (por idade ou per capita);
  • Inclusão de gastos com medicamentos na dedução.

A proposta busca beneficiar principalmente usuários do Sistema Único de Saúde (SUS), que têm acesso gratuito a atendimento, mas ainda enfrentam custos com medicamentos fora da lista de distribuição gratuita.

Brasil pode liderar novo modelo global de tributação

Ipea
Imagem: Edição Seu Crédito Digital

Alinhamento com o G20

O Ipea reforça que a proposta está em sintonia com as discussões internacionais sobre justiça tributária e tributação mínima global. Durante a presidência do G20, o Brasil já defendeu esse modelo.

A expectativa é que a proposta leve a um sistema mais equilibrado, onde os mais ricos contribuam de maneira proporcional à sua capacidade econômica, e os que menos têm sejam finalmente aliviados da carga tributária direta.

Conclusão

A proposta do Ipea marca um passo importante no debate sobre justiça tributária no Brasil, ao sugerir uma alíquota mínima de 14% para os super ricos e isenção para quem ganha até R$ 5 mil. Ao incluir todas as fontes de renda e considerar as contribuições previdenciárias, o estudo aponta caminhos mais equitativos para a arrecadação do Imposto de Renda. Ainda que enfrente desafios políticos e estruturais, a proposta reforça a urgência de uma reforma que combata as desigualdades e fortaleça a progressividade do sistema tributário nacional.

Melissa Barbosa

Autor

Melissa Barbosa

Melissa Barbosa é Redatora SEO e Designer no portal Seu Crédito Digital. Estudante de Jornalismo, possui sólida experiência em Marketing de Conteúdo, com foco em estratégias de SEO, comunicação digital e identidade visual. Apaixonada pelo universo da informação e da criatividade, une técnica e sensibilidade para transformar dados e tendências em conteúdos relevantes, que ajudam o público a entender melhor o cenário econômico, os benefícios sociais e os serviços digitais que impactam o dia a dia do brasileiro.

Topicos relacionados