A proposta do governo federal de ampliar a faixa de isenção do Imposto de Renda da Pessoa Física (IRPF) para trabalhadores com rendimento mensal de até R$ 5 mil gerou intensos debates no Congresso. Enquanto a medida é celebrada por milhões de assalariados, ela traz mecanismos de compensação que aumentam a carga tributária sobre os brasileiros de renda mais alta, incluindo profissionais liberais e investidores que recebem por meio de dividendos.
Isenção de até R$ 5 mil no IR: saiba como vai te impactar
Nova faixa de isenção do IR até R$ 5 mil promete aliviar trabalhadores, mas aumenta tributação sobre super-ricos e dividendos.
Segundo estimativas oficiais e análises acadêmicas, apenas 0,2% da população — cerca de 200 mil pessoas — será diretamente impactada pelo aumento da tributação. Ainda assim, setores da oposição e parte do Centrão tentam barrar dispositivos do projeto, sob o argumento de que a proposta penaliza empresas e pode afetar investimentos.
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O que muda para trabalhadores de até R$ 5 mil

Hoje, a isenção alcança quem recebe até R$ 3.036 mensais, o equivalente a dois salários mínimos. Com o novo teto, trabalhadores formais com renda de até R$ 5 mil passam a não recolher imposto.
Faixas atuais e nova regra
- Até R$ 3.036: já isentos.
- De R$ 3.036 a R$ 3.533: atualmente pagam 7,5% menos dedução de R$ 182,16.
- Até R$ 5 mil: pela nova proposta, todos ficam isentos.
Essa mudança significa maior alívio para a chamada classe média baixa, que hoje compromete parte do orçamento com o tributo. Para quem recebe próximo ao novo limite, o ganho líquido pode ultrapassar R$ 300 mensais.
Quem ganha entre R$ 5 mil e R$ 7.350
O governo também criou uma tabela intermediária para contribuintes que recebem acima de R$ 5 mil até R$ 7.350 por mês. A lógica é aplicar alíquotas progressivas, acompanhadas de deduções automáticas, de modo a evitar distorções.
Na prática, esses trabalhadores pagarão menos imposto do que hoje, uma vez que o desenho da tabela busca preservar o poder de compra de quem recebe pouco acima do limite da isenção.
Super-ricos entram na mira da Receita
A principal medida de compensação para bancar a isenção é a criação de uma alíquota mínima de 10% para quem ganha acima de R$ 50 mil por mês ou R$ 600 mil por ano.
Situação atual
Estudos mostram que, no Brasil, a carga efetiva sobre os mais ricos é muito inferior ao que se imagina. O grupo que compõe o 0,1% mais rico — pouco mais de 100 mil pessoas, com rendimento médio de R$ 392 mil mensais — paga, em média, apenas 7,4% de IRPF. Entre o 0,01% mais rico, a alíquota efetiva cai para cerca de 3%.
Nova regra
Com a proposta, todos esses contribuintes passarão a recolher no mínimo 10% sobre a renda. Para quem já paga alíquota efetiva igual ou superior, nada mudará. Mas, para os que exploram brechas legais para reduzir o imposto, a mudança representará aumento expressivo na carga tributária.
Profissionais liberais de alta renda

Assalariados acima de R$ 50 mil
Dentistas, advogados, engenheiros e outros profissionais que atuam com carteira assinada e recebem acima de R$ 50 mil continuarão tendo desconto em folha na alíquota de 27,5%. A diferença é que a Receita passará a verificar a alíquota efetiva desses rendimentos. Se ficar abaixo de 10% após deduções, haverá cobrança adicional até atingir esse patamar.
Quem atua como pessoa jurídica
Um dos pontos mais sensíveis do projeto é a tributação sobre dividendos. Hoje, lucros distribuídos a sócios de empresas são isentos de IRPF. Profissionais que recebem integralmente por essa modalidade, como médicos donos de consultórios ou engenheiros com sociedades, podem chegar a pagar zero de imposto.
Na nova regra, quem receber mais de R$ 50 mil mensais em dividendos estará sujeito à cobrança de 10% na fonte. Dependendo do resultado final na declaração anual, parte desse valor poderá ser restituída, mas a tendência é de aumento na tributação para esse grupo.
Contribuintes que combinam salário e dividendos
Para profissionais que acumulam salário e rendimentos de empresa, a regra será ainda mais rigorosa. A Receita somará todas as fontes de renda para calcular a alíquota efetiva. Se o total superar R$ 600 mil anuais, o contribuinte ficará sujeito à alíquota mínima de 10%.
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Isso significa que mesmo quem já paga 27,5% em parte dos rendimentos poderá ter de complementar imposto, caso a média final fique abaixo do novo limite.
Oposição articula contra o projeto
Apesar de contar com apoio da base governista, o projeto enfrenta resistência de setores empresariais e partidos do Centrão. O argumento é que a taxação adicional pode reduzir investimentos, especialmente em empresas que dependem de reinvestimento de dividendos.
Por outro lado, especialistas apontam que o Brasil tem uma das menores alíquotas efetivas sobre super-ricos entre as principais economias. Para o economista Guilherme Klein Martins, pesquisador do Made-USP, desidratar o projeto significaria não apenas comprometer o equilíbrio fiscal, mas também ampliar a desigualdade social.
Impactos esperados
Para trabalhadores de baixa e média renda
- Isenção até R$ 5 mil alivia o orçamento de milhões.
- Quem ganha até R$ 7.350 pagará menos imposto do que atualmente.
Para os mais ricos
- Alíquota mínima de 10% atinge cerca de 200 mil pessoas.
- Dividendos acima de R$ 50 mil passam a ser tributados.
Para o governo
- A arrecadação extra compensa a renúncia fiscal da isenção.
- A medida fortalece o discurso de justiça tributária.
Imagem: Brenda Rocha – Blossom / shutterstock.com
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